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Vizinhança invisível
Antônio Agenor Barbosa · Rio de Janeiro (RJ) · 17/12/2008 17:56 · 142 votos · 5 comentários ·  
 
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overponto
Antônio Agenor Barbosa
Painéis do Profeta Gentileza na Área Portuária da Cidade do Rio de Janeiro
Em reportagem do Jornal O Globo (Editoria Rio - página 25), sábado, dia 13/12/2008, a Empresária Maria Ignez Barreto se declarou contra a festa de Réveillon em Ipanema e afirmou:

-- "A população que paga impostos caros tem que ter o direito de poder dormir em paz, de chegar em casa. Há os galpões do Cais do Porto que não têm vizinhança. Por que não fazem lá? "

Gostaria de informar à moradora de Ipanema e empresária Sra. Maria Ignez Barreto que no entorno dos galpões do Cais do Porto do Rio de Janeiro existe sim uma enorme, antiga e consolidada vizinhança.

Certamente não é uma vizinhança tão chique, refinada e elegante quanto a própria empresária e seus seletos vizinhos da Avenida Vieira Souto. E é uma vizinhança que foi, historicamente, excluída das intervenções higienistas e civilizatórias do Estado. Já entendi tudo, ou seja: Ipanema é civilizada e não merece uma festa com música barulhenta. Ipanema é Bossa Nova e o Cais do Porto é o quê?

Mas é uma vizinhança que assim como a de Ipanema também "tem o direito de poder dormir em paz, de chegar em casa". E é uma vizinhança que também paga impostos como outros tantos brasileiros. E os Monges Beneditinos que residem no Mosteiro de São Bento não são considerados "vizinhança"? Mas, pelo teor da declaração da empresária, a área do Cais do Porto possui uma vizinhança totalmente invisível.

A região da Área Portuária da Cidade do Rio de Janeiro é composta, basicamente, por três bairros, a saber: Saúde, Gamboa e Santo Cristo e por franjas de outros bairros como o Centro da Cidade, São Cristóvão, Cidade Nova, Caju e outros. Nesta região existe a mais antiga ocupação informal da Cidade que é o outrora denominado Morro da Favela e agora conhecido como Morro da Providência. Ou isto também não é vizinhança?

Quando o Morro da Favela foi ocupado inicialmente, Ipanema sequer existia como projeto. Ali, em volta do Cais do Porto, era a Pequena África. O Cais do Porto, a Pedra do Sal e a Praça Onze era o Semba, depois Samba e Ipanema era o quê?

Portanto Sra. Maria Ignez Barreto, se a senhora quer ser contra às festas no seu bairro eu acho legítimo que esteja à frente deste movimento, mas evite declarações infelizes e até discriminatórias como esta. A vizinhança do Cais do Porto é composta por gente e por seres humanos assim como a de Ipanema.

Eu tenho até medo de que esta visão seja a que vai nortear as futuras intervenções urbanísticas do Prefeito eleito do Rio nesta área onde, para as elites cariocas, não existe vizinhança.

O próprio termo e/ou conceito largamente empregado que é o da "revitalização" da área portuária me parece equivocado. Revitalizar significa trazer de volta a vitalidade. Mas, em muitas das áreas da região portuária este conceito simplesmente não se aplica pois são áreas com uma imensa, resistente e qualitativa vitalidade urbana.

O Projeto Civilizatório e Higienista das elites não para nunca! Ipanema ainda brilha à noite mas o Cais do Porto é que reluz que nem ouro.

Antônio Agenor Barbosa
Arquiteto e Urbanista
Professor Universitário



tags: Rio de Janeiro RJ cultura-e-sociedade rio urbanidade cultura sociedade


 
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Concordo plenamente e agradeço a chamada pela nossa atenção!
Krista K · Salvador (BA) · 16/12/2008 06:43 
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Vamos comemorar no meio do mar, com toda a segurança e infraestrutura do Bateau Mouche !
Péssimo 2009 !
alcanu · São Paulo (SP) · 16/12/2008 10:21 
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Jarbas Jarras No ano passado, se não falha a memória, moradores da Vieira Souto alvejaram vários pobres com tiros, aproveitando o momento do espocar dos fogos de artifícios. Agora, parece, querem fazer a coisa sem ter que atirar...
Excelente texto. Parabéns!
Jarbas Jarras · Rio de Janeiro (RJ) · 16/12/2008 12:26 
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Antônio, infelizmente esta declaração da empresária tem como pano-de-fundo uma questão muito mais intensa e complexa e que está contida em toda a problemática da exclusão social. Nâo acha? Se aquelas pessoas não significam "vizinhança", então, "não são gente"... e não são "gente" porque? Bom seria se houvesse apenas a questão de onde realizar a festa do réveillon, que, vale salientar, está mais voltada para o turista do que para a população carioca. Não creio que os projetos urbanísticos e sociais do poder municipal e até estadual estejam "preocupados" com as pessoas de baixa renda, com as imensas favelas, etc., principalmente quando estamos falando em uma cidade que atrai turistas do mundo inteiro! E isso não acontece somente no RJ. Abraço.
JACK CORREIA · Crato (CE) · 17/12/2008 10:51 
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Turbilhão Psicodélico Ai, Toma! Bem feito pra ela... mulherzinha besta de nariz empinado.
Turbilhão Psicodélico · Cuiabá (MT) · 18/12/2008 08:42 
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