Um quadro no Fantástico, a edição contínua de volumes de filosofia vendidos a preços populares em bancas de revista, mesmo uma revista falando especificamente sobre o tema (Discutindo Filosofia); o sucesso editorial de livros como O mundo de Sofia e Os Simpsons e a Filosofia (entre outros); apontam para uma valorização (comercial) da filosofia. É fácil perceber que nos últimos tempos o Brasil tem apresentado sintomas de uma ‘vontade de filosofia’, que, parece ser algo incomum em nossa história. O problema é saber como e por que ocorre esse fenômeno.
“Como” – Sem dúvida a filosofia aparece nesses casos como mais um produto a ser vendido, no entanto, dentro de uma sociedade capitalista, não poderia ser de forma diferente. O problema é se a qualidade de mercadoria não “destrói” a essência da filosofia: o produto, para ser vendável, deve atender ao gosto médio, deve ser de fácil acesso e apresentar resultados imediatos em seu “uso”. Nesse sentido, a filosofia pode ser vendida como portadora de uma verdade redentora, como mais um misticismo decadente, uma fórmula mágica para ocultar os problemas. (Alguns manuais de filosofia seguem essa perspectiva, misturando Platão, Paulo Coelho, Heidegger, Buda, Lao Tsé, Cristo e Candomblé, em um sincretismo em que o não-pensar é o Nirvana).
Noutro caminho, a filosofia é vendida como um produto que “ensina a pensar”. Quem acredita nisso é como alguém que tenta justificar qualquer coisa com a mesma frase do manual de citações... Se alguém não sabe pensar é impossível que aprenda a ler, ou aprenda a falar. Podem “esclarecer” ‘mas a filosofia nos ensina a pensar corretamente’. Se for assim, todos pensam errado e só o filósofo sabe pensar ‘certo’: já é tempo de admitir que a filosofia não tem nenhum acesso especial à verdade. Se é assim, por que as pessoas se interessam por filosofia?
“Porque” - As pessoas podem se interessar por filosofia na busca de auto-conhecimento. Nesse sentido, a tradição filosófica é verdadeiramente fecunda: de Sócrates a Agostinho, de Descartes a Hegel, de Nietszche a Freud... o mandamento que pede “conheça-te a ti mesmo” tem sido revisitado pelo pensamento filosófico. Porém, acho que, nessa direção a reflexão filosófica me parece tão pertinente quanto a literatura, a música, o cinema, etc. A reflexão, o jogo de espelhos sobre a questão da identidade pode ser feito a partir de qualquer referencial em que a pessoa se reconheça: a temática musical dor-de-cotovelo (de CPM 22 a Bruno e Marrone) faz sucesso porque existem pessoas que se reconhecem em sua mensagem.
Mas, então: por que esse interesse por filosofia? A filosofia surgiu em Atenas quatro séculos antes de Cristo, em um contexto "democrático” nas discussões sobre o que deveriam ser as leis. O debate político e jurídico colocou em questão a natureza, o bem, o justo, o belo, etc. Esses temas deveriam ser entendidos pela razão humana: os homens deveriam dialogar, questionar e buscar posicionar-se diante dessas questões. Em verdade, essa necessidade de provar racionalmente por que uma idéia é defensável perpassou todo o desenvolvimento da cultura ocidental a partir de então... mesmo a religião cristã tentou equilibrar fé e razão, de tal forma que, diferenças filosóficas levaram a divisões dentro da Igreja e ainda hoje geram discussões.
O debate sobre questões éticas e políticas é uma necessidade constante da vida em sociedade. Quando não desenvolvemos uma crítica desses termos acabamos por ter de aceitar idéias que são impostas de fora. Numa sociedade capitalista, não pensar esses temas é aceitar as idéias que vêm prontas do mercado, da mídia, da propaganda, etc. Para não aceitar nenhuma ‘idéia pronta’ é necessário perguntar: “quem formula as ‘idéias prontas’ no caso da filosofia?”, “de onde vêm essas idéias ‘impostas de fora’?”. Diria que essas idéias são ‘impostas de fora’ e ‘trivializadas’ por filósofos. Filósofos que não estão preparados para o diálogo, que não querem debater a realidade a sua volta e, por isso, preferem a desprezar em nome de uma “verdade eterna e imutável”. O problema é que essa “verdade eterna e imutável” não existe em filosofia: esse ideal platônico, que separa o mundo do saber e o mundo da vida, é também marcado pelo autoritarismo de quem diz ter razão diante dos que são considerados “perdidos” em aparências. O “Big Brother” não existe, nem algo fora da sociedade a quem pudéssemos atribuir todas as culpas: quem são “eles”, senão “nós” que deixamos de questionar e aceitamos a repetição desse sentimento autoritário?
Se “eles” não entendem o que “nós” filósofos queremos dizer é também porque “nós” insistimos em não ser um deles: falando difícil, em um jargão inacessível, ou mesmo, em língua estrangeira (por vezes morta) fechamos a porta para o diálogo. Devemos sim, estar abertos para pensar nossa realidade, como, por exemplo, faz Renato Janine Ribeiro, quando reconhece e pensa os limites do papel das novelas no debate ético na sociedade brasileira atual; só com essa postura aberta podemos alcançar uma percepção mais sincera da função dos mecanismos de comunicação de massa, sem nos determos em preconceitos.
Acredito que a ‘vontade de filosofia’ pode ser vista como um sintoma do processo de redemocratização. A sociedade tem necessidade de pensar temas que antes não poderiam ser questionados diretamente: uma das primeiras medidas da Ditadura foi retirar a filosofia do ensino médio. Penso que o Brasil começa a se acostumar com a instituição da democracia e também desperta para a idéia de que precisa se reinventar enquanto sociedade também democrática: a Ditadura não veio de Marte, nem a corrupção, nem a desigualdade social, etc.
A cultura deve ser questionada para que a sociedade possa buscar alternativas e caminhos de transformação. Não acredito que a filosofia, tomada como produto de erudição ou como questionamento escapista, possa contribuir para a democracia. A abertura para o diálogo, para pensar a realidade é o que deve ser valorizado: se as pessoas têm essa abertura os filósofos devem responder à altura, ou seja, sem esconder-se numa erudição vazia ou no academicismo estreito. (Felizmente, não existe hoje muito espaço para os que querem pensar a Filosofia com “f” maiúsculo, promovendo a “tirania da razão”).
Meu caro, seria a filosofia a força redentora do pensamento crítico? E qual seria o fim dessa busca crítica, o consenso ou a luz da razão? A Filosofia não seria parte da cultura? Será que “só é possível filosofar em alemão?”. Como seria o filosofar dentro de um contexto cultural como o Brasil? Será que só é possível filosofar na ponte aérea? Onde está o pensamento crítico brasileiro? Seria ele uma estética ou uma ética? E por fim: por que "quem não gosta de samba é ruim da cabeça ou doente do pé"? abçs
andre stangl · São Paulo, SP 17/5/2006 02:49Acho que meu texto só repete as suas perguntas...perguntas fundamentais, mas: "na hora da canção em que eles dizem samba, eu não soube o que dizer..."(..). Sem redenção, por favor...
Marcos Carvalho Lopes · Jataí, GO 17/5/2006 09:56Gostei do artigo, embora eu veja outras razões para a filosofia estar se popularizando. O fato das pessoas se interessarem mais por filosofia não me parece tão democrático assim, e sim um espaço que a mídia e o mercado estão ocupando apenas porque eles ocupam todo espaço que puderem. Outra coisa é que enquanto os cidadãos vão ficando mais inofensivos, mais controláveis, o governo pode permitir que o grau de "cultura" deles suba. Filósofos "donos da verdade" são um reflexo (ou uma condição) de uma visão de mundo totalitarista. Acredito na filosofia como ferramenta não de afirmação, mas de questionamento e de criação de novos conceitos. Concordo com sua conclusão, mas me parece que a abertura para a filosofia ainda não está consolidada, há muito que mudar para termos uma sociedade "filosófica". Tanto em nós quanto nas raizes da sociedade. Não consigo distinguir filosofia de transfomação do pensamento.
Janos Biro · Goiânia, GO 17/5/2006 13:54acho que é isso mesmo: a filosofia é uma promessa entre nós, a democracia é sempre uma promessa...acho que até a apatia política é uma sinal da liberdade dos modernos(que é tortalmente diferente da liberdade dos antigos gregos ): liberdade pra viver sua vida privada de forma tranquila e alienada...democracia é um conceito ambiguo: qaunto mais democratiaca a sociedade, mais liberdade existe e menos as pessoas se interessam em participar do jogo político...por isso o Renato Janine fala que Democracia é o regime do desejo...
Marcos Carvalho Lopes · Jataí, GO 17/5/2006 16:43
concordo com a posição do Jano Biro em relação a essa "popularização da filosofia". quando surgiu o programa falando sobre no fantástico eu fui conferir, mas vi uma vez só. me pareceu que tentavam mastigar conceitos complexos de forma que ficasse acessível ao "povão" que assiste. acho que a iniciativa pode ser considerada válida em algum grau, mas não deixa de ser também só mais uma pauta a ser abordada e supostamente despertar a curiosidade sobre o assunto em um público mais amplo. acho, portanto, que da forma como é colocada não deve produzir qualquer efeito senão o de entreter, sem contar a maneira distorcida como freqüentemente é apresentada (e nesse caso não digo só no caso do programa, mas nos manuais citados e coisas afins). enfim, tenho minhas sérias dúvidas sobre se a filosofia, colocada desta forma, seria parte do processo de redemocratização... (e sobre a democracia em si e a ordem vigente ainda tenho as minhas incertezas). de qualquer forma, acho a discussão pertinente.
Inês Nin · Rio de Janeiro, RJ 18/5/2006 00:43
Legal!
bom termos aqui alguém trazendo pontos de vista assim, com uma abordagem que adentra tais aspectos.
a Filosofia não é uma caixa preta não; humanos, fizemos isso. mas eu a quero no meu prato de feijão com arroz.
São só os filósofos que podem filosofar?
Vanessa Fort · São Paulo, SP 18/5/2006 12:37
Claro que não...mas só eles tem que falar alguma coisa pra justificar seus empregos...então falam que ninguém faz filosofia a não ser filosófos...filósofos que falam alemão ou francês...que tem doutorado...etc.
Então ninguém faz filosofia...é isso que devemos mudar, acho...
Pra divulgar: coloquei no banco de Cultura um texto sobre Cazuza e as representações do Brasil e do brasileiro que aparecem na sua música, o nome do texto é "Cazuza e a Malandragem de ser brasileiro". É uma tentativa de pensar de modo filosófico a partir de música..logicamente o trabalho não foi aceito na academia...está em construção, tem muita coisa que não ficou legal, mas no geral acho que vale uma olhada
o link é: http://www.overmundo.com.br/banco/produto.php?produto=344
justificar o seu diploma, taí, hahaha. tem muita gente que exibe seu diploma de doutorado como atestado de sabedoria... enfim, sabemos que é tudo muito relativo.
Inês Nin · Rio de Janeiro, RJ 18/5/2006 23:18Certamente me incluo nessa "leva" de novos "adeptos" (em seus diferentes graus). Muito provavelmente fui consumidor de uma indústria criada para este fim, o que não é, de saída, ruim - ou eu teria que maldizer todas indústrias, coisa muito questionável. O problema, já disseste, é a formatação de produtos para melhor serem vendidos, o desvio de conteúdo. Todavia, eu penso que, no processo final de digestão desse produto, restará uma ponta de filosofia, como a ponta de um iceberg a despontar no oceano, e, sendo a própria filosofia o exercício de questionar (de modos diversos, mas questionar) e procurar respostas, essa ponta de filosofia causa ao mesmo tempo deslumbramento e vontade de mergulho.
Rômulo Ar. · Porto Alegre, RS 7/6/2006 16:22Acho que o interesse pela filosofia está sim relacionado à redemocratização, como impulso de elaboração de nova identidade coletiva após a crise do regime militar e sua (lenta) desconstrução...
Sarandy · Vila Velha, ES 5/7/2006 16:41Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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