VÔZINHO
Me impressionou à primeira vista. Aquela figura miúda, serelepe, a barba de monge, os passos rápidos mostravam um outro mundo dentro da realidade.
Tentei uma aproximação, fumei no seu cachimbo – que ele mesmo fabrica e tem muito orgulho disso -, contamos causos, rimos à vontade.
De cócoras como é costume, não gosta de cadeiras; voltou no tempo, a voz eloqüente foi buscando histórias desde Lampião, e viajamos juntos...
Foi obrigado a ficar oito meses no bando de Lampião, correu muitos lugares em lombo de burro bravo e conta que Maria Bonita não era tão bonita assim, apenas uma pessoa caridosa. Sobre Lampião diz ter sido muito bravo e narra uma passagem:
- Certo dia chegamos numa currutela e tinha um baile onde o povo tava dançando debochado. Lampião mandou todo mundo baixar a cabeça e o sanfoneiro começou a tocar e todos tiveram que ficar a noite toda naquela posição, o que levantasse caia morto, dona minina! O homem era ruim memo!
As histórias de Seu Zé marcam pelos detalhes, datas que ele muito sóbrio dita com segurança. Os filhos, os netos, os bisnetos o admiram, ele se orgulha disso, mas reclama de ter sofrido tanto para criar a família, da dureza que foi sua vida:
- Oia, dona minina, esse mundo de hoje é muito bão... as pessoas não trabaiam mais, vivem na vida boa. No meu tempo a gente trabaiava de sol a sol pra ganhar um litro de arroz, senão os fios passava fome!
Entre uma baforada e outra ele me mostra os sinais do tempo: a barriga sinais de chicotadas, os dedos tortos quebrados caindo de burro bravo...
Quando pergunto de sua esposa (falecida) , ele fita o infinito, os olhos marejados dágua diz
- Fiquei sem minha companheira, a vida não tem mais alegria, dona minina.
E começa a contar como a conheceu:
- Conheci minha muié era ainda uma menininha, filha do meu tio, era minha prima. Só que era rica, e eu pobretão. Saí pelo mundo, fui trabaiá, quando ela tinha 12 anos, vortei e pedi ela em casamento; fui humilhado, ai meu tio me deu um pedaço de terra e mandou eu se virá pra depois casar. Trabaiei dia e noite e busquei minha menina, eu já home véio e ela tão miudinha que a tarde dormia no meu colo como nenen.
Mas com o dedo em riste ele diz
- Oh, dona minina,mas num trisquei nela, cuidei ate que virou muié, pra depois dormir comigo; respeitei cumo fia e por isso ela gostava demais de mim....
Lágrimas correm dos olhos grandes esverdeados que não piscam, olham longe um ponto fixo, rememorando a figura da mulher amada...
Seu Zé tem sonhos: ver a família toda junta, chora os que se foram, para ele a vida só existe com a família reunida. Admira muito como as pessoas são desligadas, ele com muito pulso traz a família reunida e todos o obedecem; desde as crianças aos mais velhos, tem uma liderança capaz de fazer calar com um simples olhar.
Como cigano seu Zé já morou em vários lugares, e continua mudando sempre, gosta disso.
O dia termina e eu me despeço; levo um cachimbo como presente dele, um cachimbo com uma carranca confeccionado em madeira com muitos detalhes como se fosse um rosto, é sua marca. Marca de um homem forte, um cigano de outra geração, de 106 anos de idade...
Sinvaline, Uruaçu - Go
Vixe, Sinvaline, que história bonita desse vozinho.
Tem fotos dele não?
Boa narrativa de recuperação de modos, costumes e histórias do povo.
Parabéns!
Muito legal a historia e as fotos o texto demais.
parabens Um abraço
As fotos estão marcantes.
Parabéns
Cida Sepulveda
É muito bom preservar a nossa cultura, a alma que está na raiz e no sangue de todos nós! Parabéns!
Leonardo Teixeira · Goiânia, GO 13/9/2007 10:23
Parabéns. Belo trabalho Sinvaline. Abç do Jota.
Jotaoliveiraa · Brasília, DF 13/9/2007 18:02
Sinvaline,
Lindo trabalho!! Parabéns.
Vc com seu olhar de todas as idades...
Abraço,
Andréa Teixeira
Sinvaline, que preciosidade voce encontrou. Conversar com pessoas assim a gente enriquece tanto! Fantástico seu texto! Um abraço mineiro.
anamineira · Alvinópolis, MG 15/9/2007 20:24
Obrigada Ana, ainda existem muitos iguais ao vozinho por ai...ainda bem, ne?
bjs
sinva
Sinva, to morreeeeeendo de inveja...
Que idéia maravilhosa você registrar essa faceta do fenômeno humano, esse patrimônio imaterial da cultura popular brasileira...
Continue, sempre, por favor...
Grande abraço Guaicuru!
Muito boa matéria do vozinho. Fatos como esse precisam ser divulgados e você é a pessoa certa para descobri-los. Continue assim.
Lastênia · Uruaçu, GO 7/11/2007 15:54
Obrigada amigos, saudades de vcs. Passei o final de Semana em Porangatu , estive com o vozinho, ganhei um cachimbo novo.
bjs e obrigada
sinva
E aí, Sinvaline?
Que história legal. Quando o vozinho fala da mulher amada, que ele pegava ela no colo, quando ainda criança, tive vontade de chorar. Confesso que fiz beiço de choro. Isso é poesia pura.
Olha, ficamos assim, o vozinho é nossa capela sistina em movimento tamanha a beleza da sua história de 107 anos.
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