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Wander Wildner: canção e convicção

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Marcos Sosa · Porto Alegre, RS
17/12/2009 · 25 · 11
 

Wander Wildner fez show nesta terça-feira, 15, em Porto Alegre no Zelig Bar. Cantou, entoou e falou suas canções punk-bregas para um público pequeno. Entre uma e outra canção, convida Arthur de Faria e Jimi Joe para uma participação impagável e diz coisas, de um lugar da canção popular, que merecem destaque pelo improvável da cena: "yo hablo el español", "yo soy latinoamericano", "me gusta el Machu Picchu", entre outras.

Inventor do próprio gênero no qual compõe, produz e performatiza, Wander é um artista sensacional por uma razão muito simples: ele acredita no violão que prepara acordes elementares para os desenhos melódicos que tem à voz, nos efeitos de guitarra que ficam expostos sem maiores elaborações, nas letras óbvias - mas às vezes surpreendentes - que adquirem contornos por demais interessantes à medida que são ditas em um ciclo de recorrência que flerta com temas, ideias e sentidos de uma mesma zona - meio punk e meio brega, que surgem uma e outra numa combinação pura, essencial.

É imponderável imaginar um intérprete que não acredite naquilo que canta. Um Chico Buarque que afirmasse estar à toa na vida, mas sem convicção, estaria fadado ao insucesso. Uma Elis que afirmasse querer uma casa no campo, mas com pouco interesse, teria voltado a Porto Alegre para, quem sabe, nunca ter gravado Gil, Belchior ou Jobim.

Parece-me às vezes que existe uma espécie de crise da crença cancional, dada pela repetição das formas, pela possibilidade dos retoques de estúdio, pela sensação do deja-vu semântico e da reprodução massiva das mesmas sonoridades e roteiros de produção tanto de estúdio quanto de apresentação ao público.

Wander tensiona e tenciona esta escala da convicção da fala no canto em um grau máximo. Não porque tenha letras incríveis, ou acordes dissonantes, ou melodias insuperáveis. Ele tem somente convicção. Com esta convicção, é possível desafiar o ouvinte, provocar um público interessado e interessante, dizer que lhe tem amor, sustentando também a recíproca. A prova maior dessa apropriação em grau máximo, ontem, foi dada pela interpretação da canção Amigo punk, cantada em parte, falada em outro momento quando da retomada da letra, creditada no roteiro que faz o personagem, da Oswaldo Aranha ao Parque Farroupilha.

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Hermano Vianna
 

gostei muito desta crítica de show - seria ótimo ter críticas assim de todos os shows que acontecem Brasil afora - a crítica é curtinha, mas lotada de boas reflexões e até provocações - fiquei pensando no elogio da convicção - será? por exemplo: Bowie como Ziggy ou como o Thin White Duke de Station to Station - era tudo personagem - a convicção estaria na interpretação teatral? claro, existem atores que passam a impressão de convicção total... xi! tô me complicando... será que convicção tem a ver com autenticidade? mentiras sinceras (ou convictas, ou autenticas) continuam nos interessando? vou pensar melhor!

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 17/12/2009 19:54
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Hermano Vianna
 

PS: tem Wander com Arthur no YouTube? adoraria ver esse encontro!

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 17/12/2009 19:55
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Marcos Sosa
 

Caríssimo Hermano, as questões que você sugere são todas muito pertinentes. O "elogio da convicção" colocado ali foi proposital, mais para sugerir a ideia mesmo. A teatralidade, a autenticidade, as mentiras sinceras e convictas, enfim, são de muito interesse. Era este o foco: ensaiar esta percepção do show. Um abraço. m.

Marcos Sosa · Porto Alegre, RS 17/12/2009 20:20
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Marcos Sosa
 

Vi que publiquei em "publicação" e não na "publicação colaborativa". O "ontem" do final é anteontem, pois foi no dia 15, mas agora fica assim. O acerto de postagem fica para a próxima. m.

Marcos Sosa · Porto Alegre, RS 17/12/2009 20:24
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percussive
 

Bacana Marcos!
Muito interessante o contraste tencionante-tensional!
Na verdade seu ponto nevrálgico quanto a uma possível crise da crença, ou cancional procede. Entendo que a canção possa talvez estar num processo de reciclagem de referências de formato, de performance, de crenças e principalmente de escutas, o que necessariamente não significa no meu entender sua morte. Uma renovação de parâmetros talvez. Sinto que o seu texto via o show do Wander dialoga também com esta questão. Parabéns!

percussive · Porto Alegre, RS 17/12/2009 21:03
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Hermano Vianna
 

lembrando, Bowie, na época do Station to Station, tomava tanta droga que estava plenamente convicto que era o Thin White Duke... hehehehehe

valeu, Marcos!

sempre gosto de ver críticas de shows - hoje em dia os cadernos culturais anunciam muito os shows que vão acontecer - mas raras vezes falam dos shows depois que aconteceram... a história fica contada pela metade...

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 17/12/2009 21:05
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Hermano Vianna
 

o percussive tem razão: esse debate sobre o "fim da canção" também dá muito pano pra manga - e a obra do Wander é um bom ponto de partida para entender o que está acontecendo

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 17/12/2009 21:35
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percussive
 

Verdade Hermano. A escuta não começa e nem termina aqui. Que dirá a canção né mesmo?

percussive · Porto Alegre, RS 17/12/2009 21:44
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Márcio Garoni
 

Muito bom, o Wander é um dos poucos de dá gosto de ouvir, só pela vontade que mostra, mesmo nos cds. Ainda quero ver um show dele. Belo texto, abraço

Márcio Garoni · Santos, SP 20/12/2009 01:58
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capileh charbel
 

Wander se reinventa sempre, eu adoro.

capileh charbel · São Paulo, SP 21/12/2009 13:23
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Adroaldo Bauer
 

Marcos, tua descrição crítica do show do Wander Wildder nos permite chegar bem próximo da idéia de tê-lo visto, quase ouvido.
Quem já ouviu Wander Wildner entenderá perfeitamente o que dizes e o que digo.
Também noto que nossa cobertura cultural, de todas as áreas, na maioria, está vivendo de anunciar os eventos e pouco de dizer como ocorreram as programações.
Perde-se grande parte da história da cultura com essa postura, que talvez seja decorrente de que a crítica andaria mais fazendo a condenação do artista do que a exegese do programa artístico, a crítica do espetáculo ou do evento que fosse... Talvez, eu repito, porque eu não sei dizer onde estaria focado o sumiço da crítica.
Outro talvez pode estar relacionado ao espaço negado à programação cultural, reservado a cadernos semanais, no máximo.

Não mais se vê, por exemplo, o que segue:
11 Dezembro, 2009
De Maria João, José Saramago, Elinka e eu
Li há pouco José Saramago falando da admiração dele por Maria João (http://caderno.josesaramago.org/), pianista, a quem gosta de ouvir, aplaudir e beijar as mãos pelo que ela lhe encanta. E, sem mal comparar, pelos deuses, creiam, também assim é que me sinto quando ouço cantar Elinka Matusiak. Ela brinca de dividir bem e encontrar as notas e perseguir piano e flauta com a voz, nos timbres que não imaginais possam ser buscados. E encontra. O faz como a boa maestrina que é. E aplaudo. Ainda quero agradecer a ela pelo muito que faz por nossa música e, com a nossa música, o que faz de bem por nós.
Publiquei no meu blog esse comentário a respeito de um bom show que assisti dela, também em um lugar pequeno, em homenagem a Tom Jobim, na data dos 15 anos da nossa grande perda do maestro popular brasileiro. Sem a presença de qualquer profissional de imprensa a trabalho, mas, por óbvio, motivado por Saramago, que disse aquilo ali e muito mais de Maria João com a simplicidade que lhe é característica ao descrever e sugerir sentimentos.
Da mesma forma, se me permite mais uma frase, emociona ler o que escreveste, de um jeito que não é elogio comprometido nem gratuito, mas e tão somente, e por isso muito bom, parece como sensível e emocionado, para emocionar e fazer sentir.
Aplausos!

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 23/12/2009 10:31
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