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X-Pio - Vida e oportunidade

Yusseff Abrahim
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Yusseff Abrahim · Manaus, AM
22/7/2006 · 88 · 0
 

“Meu Deus do céu! Meu Deus do céu! Quem tiver um bom apetite vai lá na Tia Lili que o sanduíche é deste tamanho!” Assim o folclórico comunicador parintinense, Gil Gonçalves, concedia em seu programa de rádio a primeira mídia espontânea ao X-Pio logo depois de seu lançamento. Um sanduíche com a cara da cidade, criado sob medida para o bolso do parintinense que procura um lanche barato como um confortável refúgio financeiro. Nasceu da precisão dos cálculos do comerciante Paulo César Matos da Luz, 47, e saltou para o gosto popular apenas naquele espaço de tempo que uma grande novidade leva para se tornar pública, pelo eficiente boca-a-boca de uma Parintins onde até hoje, praticamente todos se conhecem.

À princípio, este texto deveria ser jornalístico, no sentido mais puro do termo, mas insisto novamente na observação de que, as coisas que acontecem em Parintins me provocam a extrapolar a frieza do cumprimento da pauta para contar a experiência de fazer a matéria como um todo.

Tudo na cidade tem uma grande explicação, mas quando perguntei pela primeira vez a origem daquele nome peculiar do sanduíche minha expectativa ruiu diante do sarcasmo espontâneo, ou não, de um chapeiro – designação amazonense sobre quem produz sanduíches utilizando chapa. Respirando o ar rarefeito de quem explica em tom didático-infantil algo aparentemente óbvio, ele mandou pausadamente: “Bem, o sanduíche leva um ovo, o ovo gera um pinto...”. Deixando as reticências no ar como uma pá de cal psicológica, a mim restou apenas completar mentalmente aquela lacuna quase platoniana com o brilhante desfecho: “... e o pinto faz piu”. Frase que me faz recordar até hoje do seu eco produzido.

Pra mim havia acabado a esperança de uma boa história, o X-Pio se resumiria a uma simples dica onde descreveria os ingredientes de um sanduíche barato feito com pão bola, queijo, presunto, alface, tomate, pepino, repolho, batata palha e no papel principal dando nome ao espetáculo, ele, sua majestade: o ovo. Fui comer o X-Pio que havia pedido para ajudar a digerir a leve frustração que por pouco não me tirou a vontade de, ao menos, procurar o inventor do sanduíche para uma conversa curta previsível.

Muitas pessoas em Parintins atribuem ao ex-amo do boi Caprichoso, Rey, a criação do X-Pio, mas com poucas perguntas junto aos membros da família é possível chegar ao seu cunhado, Paulo César, como o verdadeiro inventor. Aliás, ambos são proprietários de lanches vizinhos, tipo parede com parede, que produzem o peculiar sanduíche. A insistência em procurar informações mais substanciais logo foi recompensada pela revelação da verdadeira história e significado do nome X-Pio, com uma complexidade muito maior do que a versão onomatopéica do chapeiro.

Uma gozação devolvida

Paulo César nasceu em Parintins, e sua vida foi desenhada em circunstâncias de idas e vindas pela região Norte. Aos dez anos foi morar em Belém, no Pará, mas aos 18 estava de volta ao Amazonas servindo ao exército em Manaus. Conseguiu estabilizar-se nos anos 1980 ao retornar à Belém, onde conseguiu emprego em uma agência bancária. “Lá comecei de baixo como todo mundo, trabalhando como caixa”, conta.

Nesse período, havia um outro Paulo César na mesma agência, tornando freqüentes os equívocos de comunicação. “Era um problema, muitas vezes interrompia o meu trabalho para atender ligações que não eram para mim e o mesmo acontecia com o outro”, comenta. Era necessário estabelecer uma diferenciação, mas Paulo nunca ia imaginar que ela nasceria do contra-ataque de uma gozação feita por ele mesmo a um colega. “Fui chamar um amigo do banco de piu-piu, mas ele virou-se, deu uma gargalhada e disse que eu era quem parecia com o personagem, todo mundo riu e embarcou na brincadeira dele, até que começaram a me chamar de Paulo Pio”, lembra com bom humor.

Quando foi promovido a supervisor de caixa, Paulo, ao receber seus novos cartões de visita percebeu o quanto sua nova identidade estava indo longe. “Estavam impressos com o nome Paulo Pio, e ficou quase como um nome artístico. Ligavam pessoas de outras praças como funcionários de agências do Maranhão e Osasco já perguntando pelo Paulo Pio”, revela, afirmando que o melhor foi ter parado de atender telefonemas que não eram para ele. O nome tomou conta e Paulo considera o auge da abrangência do apelido, a ocasião em que foi chamado para realizar um seminário em São Paulo e se surpreendeu com a placa na mesa do evento o identificando como Paulo Pio.

Do banco para a lanchonete

O início dos anos 1990 marcou a vida dos brasileiros pela rígida recessão econômica do governo Collor. No banco em que trabalhava, Paulo sentiu-se na iminência de entrar para o rol das vítimas dos chamados planos de reestruturação – eufemismo empresarial utilizado até hoje para amenizar a repercussão das demissões em massa como seu principal efeito. “Tinha três férias acumuladas, então me chamaram para comunicar que eu estaria entrando de férias por três meses”. Contrariado, viajou para Fortaleza, mas com um mês já estava sentindo falta de trabalhar quando um amigo, dono de uma lanchonete em Belém, ofereceu o negócio para que Paulo tomasse conta enquanto ele viajaria de férias com a esposa.

Paulo topou e começou a aplicar o minucioso conhecimento financeiro adquirido no banco em seu novo e até então temporário ramo. Como resultado, alavancou em três vezes o faturamento em apenas 15 dias de administração, tomou gosto pelo negócio e quando voltou das férias resolveu pedir demissão do banco. “O bom é que fui demitido, recebi uma ótima indenização e comprei o ponto”. Em 1995, acompanhando as notícias de Parintins e a repercussão crescente em torno dos bumbás Caprichoso e Garantido no Festival Folclórico, percebeu a oportunidade de voltar à terra natal. “A gente via nas matérias as cifras de investimento em milhões de reais, o grande movimento de turistas na cidade, então não foi difícil tomar a decisão”, explica.

Resgatando o lanche barato

Em Parintins o nome da lanchonete homenageava sua mãe, Tia Lili, mas em 2000 vivenciou outra forte recessão econômica que fez desaparecer da cidade os lanches que custavam um real. “Tinha muita gente desempregada e pouco dinheiro circulando, pensei como poderia fazer um sanduíche barato, mas bem cheio, e fui calcular ingrediente por ingrediente”, lembra. Ao final de sua conversa numérica com a calculadora durante toda uma madrugada, a habilidade bancária de Paulo César alcançou um valor aparentemente improvável naquele contexto econômico. “Queria chegar a um real e consegui um sanduíche por R$ 0,80 centavos, isso já calculado o saco do transporte”, orgulha-se.

Para batizar a invenção, recorreu aos anos que tornaram possíveis construir o seu mais novo diferencial. “Coloquei o nome de X-Pio para personalizar a invenção”. Mesmo desconfiados no início, os clientes foram seduzidos pelo preço. “Foi um começo pra estourar, no primeiro dia vendi 8, no segundo 30 e depois nunca mais abaixou de 300 à 400 por dia”, revela, momento em que causou furor na cidade ao ponto de virar notícia no rádio. “Também mudei o nome do lanche para X-Pio pra acompanhar a repercussão”, recorda, segundo ele utilizando-se de um recurso usado pelas lanchonetes de Belém para destacar a prata da casa (note que o amazonense utiliza o termo lanche para designar o ponto comercial).

Na opinião de Paulo, melhor ainda do que o sucesso da invenção foi perceber o quanto ela influenciou a concorrência e a cidade. “Fui criticado no início porque ninguém usava tomate e verduras nos sanduíches feitos em Parintins, mas o meu movimento fez a concorrência aderir aumentando os ingredientes”, conta, chamando a atenção para o impacto econômico deste consumo em feiras e mercados. “Em uma cidade com pouco dinheiro, qualquer coisa que o faça circular é boa, creio que 90 por cento dos donos de lanche passaram a comprar verduras desde então”.

Hoje, completando seis anos de criação, o X-Pio é vendido à R$ 1,25 reais e ainda desfruta do título de sanduíche mais barato e consumido na cidade. Teve sua receita copiada por outros comerciantes de Parintins e até de municípios próximos, mas seu nome foi mantido. O original pode ser degustado no X-Pio Lanche, na avenida Amazonas, número 1471. Pensando na primeira explicação do chapeiro, parece que o pinto que sairia do ovo que foi parar dentro do sanduíche, teria muito mais a dizer do que piu, se pudesse, talvez preferiria contar a história de um sanduíche e das oportunidades em uma cidade renascidas de suas entranhas culturais e desenvolvidas na iniciativa de tantos outros exemplos de empreendedores que elas atraem. Respostas para um Brasil dentro do próprio Brasil, e um país dentro cada um de nós. Onde você guarda a sua resposta?

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