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Xarpi – Tatuando tradições, driblando viaturas

.nina franco.
.nuno dv escalando para realizar mais uma missão.
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joao xavi · São João de Meriti, RJ
26/3/2008 · 237 · 29
 

Depois que o primeiro homem subiu no muro, apertou o bico e “tacou o nome” a cidade nunca mais foi a mesma. Amada por alguns (mais gente do que se imagina) e odiada por quase todo o resto, a pixação se afirma como um dos elementos visuais que caracterizam a paisagem das grandes cidades. Vandalismo, rebeldia juvenil, chame como quiser. Fato é que o cinismo passa longe quando os pichadores se declaram como “artistas de uma arte proibida”. Em tempos que a arte salta das galerias e invade as ruas com intervenções corroboradas por tendências e teorias a pixação se organiza para se consagrar a cada madrugada em seu espaço de origem, a rua.

No dicionário Aurélio o verbo pichar consta com a grafia “ch”, mas na escrita e na fala dos adeptos o “x” entra em cena, redefinindo o verbo como pixar. Uma breve investigação histórica sobre a pixação no Rio de Janeiro aponta para o escrito: “Celacanto provoca maremoto!”. A frase ocupou um considerável espaço em muros da Zona Sul carioca no final da década de 70. O responsável pela primeira pixação na cidade maravilhosa foi o jornalista Carlos Alberto Teixeira, na época estudante da mais tradicional universidade particular do Rio. Carlos chegou a dar entrevistas para jornais e fazer trabalhos de artes plásticas apoiado na fama acumulada pela pixação.

O grande boom da pixação aconteceu com o final da ditadura civil-militar, acompanhando o afrouxamento da violenta repressão. Já no começo dos anos oitenta a expansão da pixação ganhou o subúrbio carioca. A arte proibida deixava de ser exclusividade dos meninos classe-média e invadia muros e mentes da Zona Norte até a Baixada Fluminense. Desde então pixadores de diferentes procedências sociais transformaram a cidade no cenário de uma batalha que até hoje mancha de tinta paredes, muros, monumentos e vários outros alvos possíveis.

Hoje em dia a pixação extrapola os limites de muros e marquises. Está na internet (em fotos, vídeos e textos), flerta ainda com a tela do cinema e demonstra uma certa complexidade de organização. Prova disso são as chamadas Reu, grandes reuniões onde pixadores de todo o estado se encontram para trocar experiências. Recentemente, no início do mês de março, aconteceu no bairro de Brás de Pina (subúrbio do Rio) o Xarpi Rap Festival. O Festival funciona como uma grande Reu, e serviu de ponto de partida para elaboração deste texto.

“Não dá dinheiro mas alimenta a alma, gosto do que represento nas ruas”

Troquei uma idéia com Nuno DV (Destruidores do Visual), uma figura que começou no xarpi em 90 e que segue na ativa até hoje, “Tinha um pessoal no colégio Castel Nuovo (Arpoador), todos faziam alguma coisa: futebol, luta, surf. Mas em comum todos eram pixadores. Entrei nessa de pixação pra tentar fazer parte daquele grupo”. Nuno trocou de escola e carregou com si a fama de aluno rebelde. Chegando ao novo colégio conheceu SAF, “daí a pixação passou a ficar séria. SAF me levou pra fora da zona sul (Benfica, Ramos, Olaria, Caxias, Madureira). Um belo dia conheci a reunião de pichadores. Cheguei lá, assinei um caderno e, pra minha surpresa, geral estava ligado no meu nome. Aí passei a gostar desse reconhecimento estranho que a pixação traz, e queria mais e mais.”

E quando o feitiço vai contra o feiticeiro, o que será que passa na cabeça do pixador quando sua própria casa é alvo da arte proibida? “Já aconteceu, quando eu morava na Ilha do Governador, provei do meu próprio veneno. Só cocei a cabeça e ri. As pessoas passavam, me viam pintando o muro e falavam: ‘esses moleques não tem mais que fazer’. Eu só pensando: eu sou um desses moleques”. Essa e outras tantas questões são inevitáveis, na tentativa de entender como funciona a mente de um pixador. “Quem tá de fora nunca entende, pra falar a verdade nem quem tá dentro entende. Eu não consigo explicar o motivo de pixar. Mas só de sentir o cheiro da tinta, isso já resume todos os motivos pra mim”. O processo é complexo, mas envolve aspectos como satisfação pessoal e o reconhecimento do grupo. Nuno segue explicando: “A pixação é uma forma de comunicação visual, só que pra um grupo fechado e direcionado. Um analfabeto que tenta ler um texto não vai conseguir, o xarpi é por ai. Só quem "estuda" na escola da rua e se forma na "faculdade da tinta” consegue ler”.

Os critérios da rua são subjetivos e acabam classificando os pixadores de acordo com sua conduta. “Você vai vendo o valor da coisa e vai selecionando o teu alvo. Hoje eu não picho nada que seja tombado, nem igreja ou escola. Tem pixadores e pixadores, quem é de dentro sabe quem é quem”. Existe até mesmo uma eleição que escolhe os melhores do ano em categorias como: melhor no topo, melhor na marquise, melhor de cabeça para baixo, e assim por diante. Existe ainda as chamadas “seletinta”, Nuno faz parte da 40°, “O sonho e o objetivo da molecada é assinar uma das seletintas, mas pra entrar nessas seleções você tem que receber um convite”.

A ilegalidade torna o xarpi uma atividade mais sedutora, mas, por outro lado, o que se observa é um gradual desinteresse na repressão aos pixadores. Nuno, que depois de uma pausa nas atividades nunca mais rodou (foi pego pela polícia), se diverte com a situação: “A pixação não tá incomodando a polícia. Eles vêem os pixadores como merda. Se te pegam nem levam (pra delegaria), só arrancam um dinheiro e te mandam embora”. Na prática não existe uma punição específica para quem pixa, nas ruas o que impera é a lei da propina, “a gente brinca que já tem até tabela do arrego (propina): Soldado da PM é 10 pra cada; Cabo é 20 de cada; Sargento é 50. Mas quem rodar pra oficial é bom tem um bom cartão. Tu acredita que um cara rodou e passou um cheque pro policial?”.

Curiosamente a ascensão do grafitti tem ajudado a aliviar a barra dos pixadores. A fronteira entre o que é entendido como arte e como vandalismo vai se estreitando cada vez mais. Mas como será que essa relação se desenrola na prática?

Sem bandidos e mocinhos

Seja nas mais descompromissadas conversas de boteco, ou em elaboradas teses acadêmicas, a pixação e o chamado Funk Carioca são termos constantemente invocados. Em muitas das discussões sobre cultura urbana que tive a chance de presenciar, no bar ou na academia, os termos eram trazidos à tona em argumentações que hierarquizavam essas expressões culturais. A situação é mais comum com o Funk, perdi a conta de quantas vezes escutei pessoas entendidas no assunto colocando o batidão como uma cultura periférica menor em relação ao Hip-hop. A ingenuidade dessa hierarquização entende o Funk como uma música sem qualidade poética ou conteúdo político. Ao passo que o Hip-hop sim representaria uma alternativa de entretenimento e organização social para as populações periféricas.

A relação pixação/grafitti é comumente entendida da mesma maneira, e afetada por dois agravantes: muitos dos grafiteiros são, ou dizem ser, ex-pixadores; a pixação, diferente do Funk, é uma atividade ilegal. Daí, o discurso mais comum apresenta o pixador como uma figura delinqüente, que suja a cidade e o grafiteiro como sua forma evoluída, o cara que usa da mesma linguagem (o spray em parede) só que de uma maneira artística. Para quem observa de fora, o grafitti pode parecer uma salvação para o desvio de conduta que é a pixação. Mas a experiência que tive em uma rápida incursão pelo mundo do xarpi não vai de acordo com essa lógica, pelo contrário, o que pude perceber é que nenhum dos pixadores parecia precisar ser salvo.

Que o mundo veja – Pixando a tela da sétima arte

Além de dominar os muros da cidade, o xarpi (pixar na língua dos pixadores) passou a ganhar atenção especial dada por uma olhar bem específico. Há alguns meses está rolando na rede o trailer do documentário Que o mundo veja – retratos da Pixação carioca. O vídeo é uma produção independente capitaneada pelo cineasta Jefferson Oliveira (Don). O próprio documentarista já teve uma breve experiência colocando nomes pela cidade, e me explicou como essa vivência influenciou a realização do vídeo:
Sempre fui muito curioso sobre este universo que é o xarpi. Assisti a alguns documentários, uma linguagem feita por gente nova, que falava muito de graffiti. E todos estes vídeos colocavam os pixadores como uma coisa ruim. Quase como se o graffiti fosse a salvação na vida dos pixadores... e pelo que eu me lembro da época em que eu tacava nome, eu não me sentia um bandido ou um delinqüente”.

A proposta de fazer uma abordagem diferenciada sobre o tema começou com a escolha dos entrevistados, “Decidi que só entraria no filme quem taca ou já tacou nome um dia. Nada deste formato quadradão que se costuma fazer por aí, tipo: um pixador fala de suas questões e depois entra um psicólogo dando um suposto aval técnico sobre aquele personagem. Se tivesse que ter um psicólogo, que este psicólogo tenha um dia tacado nome”.

Escolhidos os personagens, Don direcionou as entrevistas a partir de duas principais questões: pixação, vandalismo ou arte? Como você, pixador, é visto pela sociedade? A primeira impressão levantada pelo documentarista é que nenhum dos seus entrevistados se sentia como, um bandido, “São pessoas dos mais variados estilos e classes. Mas o principal é que ninguém que entrevistei parecia querer ser salvo, saca? Entrevistei nego que tá estabilizado profissionalmente, tem estrutura familiar e muitos já são formados. Tem empresários, médicos, policiais civis, federais e militares, bombeiros, historiadores, DJ´s, tatuadores...”.

Um dos aspectos que mais chama atenção no vídeo é a abertura dada pelos entrevistados. Os personagens são acompanhados por Don em “missões” em plena luz do dia e, além disso, dão as entrevistas apenas com uma pequena tarja preta cobrindo os olhos. “Botei aquela parada ali contra a vontade deles, eles mesmo não queriam tarja nenhuma. Mas isso ai ainda é só o trailer. A coisa vai esquentar mesmo quando vier o filme!”. Em processo de edição, no ritmo de uma produção totalmente independente, o documentário deve ficar pronto no segundo semestre de 2008. Por enquanto, só o trailer já bateu a casa das 43 mil visualizações.

Reu – o Xarpi organizado

Nós estamos mais organizados que o grafittii, sabe por quê? A maior parte deles pinta por dinheiro, a gente aqui escreve o nome por amor”. Essa foi uma das frases que escutei durante o Xarpi rap Festival, uma grande reunião de pixadores que aconteceu no começo do mês de março no bairro de Brás de Pina, subúrbio do Rio de Janeiro. As chamadas “Reu” (abreviatura de reunião) acontecem com freqüência há alguns anos em diferentes bairros da cidade. Recentemente a “Reu da Penha” é a que vem se destacando por agrupar o maior número de pixadores sob um viaduto do bairro. Empolgados pelo sucesso destas reuniões o pessoal da Família Five Stars resolveu produzir uma Reu um pouco maior, foi assim que nasceu o Xarpi Rap Festival.

Confesso que fiquei impressionado, logo que cheguei ao local avistei dezenas de carros estacionados na ladeira em frente ao Clube Coimbra. Havia sido informado que as Reu costumavam receber de 400 a 500 pessoas, entre gente do xarpi e curiosos. Portanto, a expectativa para esta noite era muito grande. Já na porta encontrei alguns amigos, e assim que entrei no clube me senti mergulhando no túnel do tempo, não que eu já tenha sido do xarpi, mas a trilha sonora da festa foi marcada pelo Funk que dominava os bailes em meados dos anos 90. Me senti em casa, encontrei vários outros amigos que cantam rap. Conheço poucos MC´s que realmente fazem xarpi, mas, como bons observadores da paisagem urbana, muitos deles narram a presença das letras pelos muros.

Em São Paulo, o grupo Mamelo Sound System canta na música Cidade Ácida: “Pixações aos milhões em todas as sessões, na cidade sem exceções / identidade das ruas, uma única textura tatuando tradições e driblando viaturas pra lançar a real mais pura de quem já não atura calado a vida dura / Isso é que é contra-cultura”. No Rio, MC Funkero canta a Máfia do Spray: “Somos terroristas, cultura de rua, máfia do spray!”, citando dezenas de nomes de grafiteiros e pixadores. Na poesia do Rap o xarpi tem espaço garantido como mais um braço da expressão contra-cultural.

Estas reuniões e festivais funcionam como espaços de socialização para o pessoal do xarpi. Diferentes siglas e famílias se encontram, trocam impressões e assinaturas em cadernos que funcionam como álbuns. A onda é pegar a escritura daquele xarpi que você enxerga nos pontos mais absurdos, os adeptos vão “trocando” e colecionando essas escrituras. Esse processo acaba fortalecendo a tradição do xarpi. Prova disso é o duplo movimento que acontece hoje na pixação: por um lado, é visível a volta de grupos que atuavam nos anos 80; por outro, cada vez mais jovens digitalizam o xarpi, são dezenas de blogs, fotos e vídeos espalhados pela rede. São os próprios pixadores que se ocupam de registrar e expor na rede o resultado de suas “missões”.

Como bem alerta a música do MC Funkero: “Antes de você chamar o meu xarpi de delinqüente não se esqueça que seu filho pode estar entre a gente”. Don vai além: “Você pode estar deitado numa mesa de cirurgia e o médico que está salvando sua vida pode ser um pixador”. Mais do que apologia ao xarpi, o que se percebe nessas movimentações acerca da pixação é a vontade de debater o tema. Os meninos que sujavam a cidade nos anos 80 e 90 cresceram. Cresceu junto com eles o desejo de “botar a cara”, admitir que a ilegalidade alimenta mais do que reprime e que os modelos de repressão vigentes não funcionam. O ponto fundamental é promover um debate de forma adulta, além da sombra da madrugada, distante da luz da viatura.

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Andre Pessego · São Paulo, SP 26/3/2008 19:02
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Regina Sahdo · São Paulo, SP 27/3/2008 17:07
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