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Zezzaropi, um caipira paulista

Adriano Agarie - divulgação
Zezzaropi já caracterizado como Mazzaropi
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Teka Karpstein · Bauru, SP
15/12/2007 · 203 · 5
 

O nome artístico não deixa dúvidas: Zezzaropi é cover de Mazzaropi, o ator que fez sucesso como um caipira em produções a partir de 1950. Natural de Santa Cruz do Rio Pardo, no interior de São Paulo, esse caipira real - com muito orgulho! - teve seu primeiro contato com o telão como operador de projetor de filmes na também paulista cidade de Ourinhos. Lá ficou frente a frente, pela primeira e única vez, com seu ídolo. Anos depois, veio o reconhecimento maior de seu trabalho. "Hoje sou reconhecido pela família de Mazzaropi como o cover que mais fielmente representa esse grande ídolo caipira", diz, sem esconder a felicidade.

Com o início das produções de Mazzaropi no Brasil, seu Luiz Alves de Souza viu seu mundo transportado para as telas de cinema. Mas ali o cotidiano de um "caipira" era retratado de forma singela e poética. Foi assim que Mazzaropi se tornou um ídolo para seu Luiz. Ele que já havia flertado com a arte por meio da música, descobriu um novo talento: a imitação.

Nesse período Zezzaropi, ainda conhecido apenas por seu nome de batismo, teve a oportunidade de conhecer pessoalmente o gênio da cultura caipira. "A cada filme lançado Mazzaropi fazia questão de fiscalizar as bilheterias, pois toda renda era utilizada para pagar o aluguel das máquinas da Companhia de Cinema Vera Cruz", conta. Numa visita ao cinema de Ourinhos, onde seu Luiz trabalhava, ele teve a oportunidade de ouvir causos contados no escurinho do cinema, com direito a drops de anis e pipoca, por aquele que já era referência em sua vida. A data seu Luiz não lembra mais: "Acho que foi pouco antes de eu casar".

Após esse encontro, nasceu Zezzaropi. Desde então ele imita o ator. "Gostaria de viver só disso, mas não dá. Faço apresentações esporádicas em Ourinhos e região e, às vezes, sou surpreendido com algum grande convite."

A fala mansa e carregada no sotaque interiorano, a estatura mediana, a pele parda e todos os trejeitos de um bom caipira, característicos de seu Luiz, fizeram com que se assemelhasse ao comediante. "Quando me caracterizo como cover de Mazzaropi mudo minha maneira de ser, volto às raízes e passo a viver um caipira autêntico. É o meu eu original", diz ele, acrescentando que altera completamente a voz e o jeito de andar. "Sei que o Mazzaropi é inimitável, o que faço é uma tentativa de preservar a cultura caipira, quase esquecida nesse país com tantas raízes culturais diferentes."

Em sua casa, seu Luiz, de 70 anos, mantém um pequeno arquivo de fotos, recortes de jornais, e reportagens sobre Mazzaropi. Também tem a coleção quase completa do "Jornal do Mazza", com datas e nomes dos filmes produzidos pelo ator entre 1952 e 1969. Relíquias preservadas em belas pastas encapadas com tecido de algodão cru, guardadas cuidadosamente num pequeno baú de carvalho.

Até 1952, seu Luiz viveu na roça, no bairro de Três Barras, em Santa Cruz do Rio Pardo. Naquele ano, seu pai resolveu se mudar pra Ourinhos, para dar mais oportunidades aos filhos de aprenderem uma profissão. Na época, seu Luiz e um irmão formavam uma dupla sertaneja e foram convidados por Theodomiro Rossini - mais conhecido por Zé Godoy - para cantar pela primeira vez em uma rádio, a Rádio Clube de Ourinhos. O sucesso foi tanto que em pouco tempo surgiu um patrocinador que os levou até a extinta Rádio Difusora de Jacarezinho, no Paraná. Lá eles, batizados como os Cancioneiros do Norte Campeiro e Campeirinho, assinaram um contrato de três anos.

Certo dia um grande circo chegou à região, trazendo duplas sertanejas famosas e o apresentador Comendador Biguá, da rádio Bandeirantes de São Paulo. A convite de Campeiro e Campeirinho, Biguá visitou o programa dominical que eles apresentavam na rádio local. A surpresa maior foi quando Biguá os convidou para fazer parte do programa "Brasil Caboclo", sucesso da Bandeirantes. Em pouco tempo, os irmãos migraram para a capital e faziam duas apresentações semanais na rádio. Após um ano de sucesso e com contrato para gravar, a dupla foi desfeita. Por quê? Seu Luiz diz não saber ao certo. De volta a Ourinhos, ele foi trabalhar como apresentador sertanejo em emissoras da região. Paralelamente, foi balconista, vigilante bancário, cobrador de ônibus...

Em 1957, seu Luiz se casou e, um ano depois, após ter passado anos de sua mocidade em noitadas - entre uma música e outra, um gole e outro, e mulheres -, viu seu mundo desabar com o vício do alcoolismo. Um mundo de oportunidades jogado no lixo por 28 anos, segundo ele. Somente após os 65 anos, já longe do vício, passou a se dedicar integralmente à vida artística como compositor, palhaço e cover de Mazzaropi.

Com as rédeas de sua vida de volta as suas mãos, Zezzaropi passou a se apresentar em canais de TV aberta (SBT, Rede Record) e a cabo. Uma das maiores emoções foi quando um produtor do programa Giro São Paulo, da TV TEM, afiliada da Rede Globo, o escolheu para representar Mazzaropi no SESC de Bauru. Na ocasião, ele reencontrou Francisco, o filho adotivo de Mazzaropi (eles se conheceram numa feira agropecuária na qual seu Luiz se apresentara). No SESC, Francisco expôs grande quantidade de peças do comediante, inclusive um bumbo do avô de Mazzaropi, que era usado nas inaugurações de estações ferroviárias para as autoridades.

Seus laços se estreitaram com a família de Mazzaropi que, em 1999, o convidou para conhecer o museu em homenagem ao comediante. Lá teve o prazer de assistir a um vídeo com a última apresentação do comediante em vida, que aconteceu no programa da Hebe Camargo. Na mesma data, depois da visita ao museu, foi ao estúdio da Vera Cruz, companhia onde Mazzaropi produziu seus primeiros filmes. "Tive a oportunidade de sentar no sofá onde ele descansava nos intervalos das produções e entrar no Pé de Bote Anastácio, que foi a grande atração do filme Sai da Frente, produzido em 1952. Filme este que considero o meu predileto", diz o caipira paulista. O "Pé de Bote" citado foi a jardineira usada durante as gravações.

Outro momento inesquecível ocorreu em 2005. Com seu trabalho já reconhecido, Zezzaropi foi convidado para participar do I Congresso Estadual do Idoso, no Centro de Convenções do Anhembi, em São Paulo. "O público estimado era de cinco mil pessoas", conta.

No auge dos seus 70 anos, Zezzaropi também pode ser visto nas ruas de Ourinhos, divulgando e vendendo seu livro "Diálogo com a Natureza". Em suas primeiras linhas, ele diz:

"Eu sou mais um no palco do mundo, contemplando no telão da natureza, sentado no colo da noite, enquanto que no decote do horizonte via o seio da saudade. Deixei a floresta de cimento armado, em busca de argumentos para resgatar o passado, foi aí que eu decidi contar histórias. O sabor da vitória, quando se persiste na luta, é ver um sonho se tornar realidade. Desfaz-se o cansaço e o sacrifício de quem foi à luta sem pensar em derrota. O troféu desta maratona quero dividir com todos os que me deram forças e coragem, ajudando-me a superar os obstáculos encontrados na trajetória. Nunca é tarde para ser feliz."

O exemplar do livro que eu tenho, ele não quis vender: fez uma dedicatória e me deu de presente. Jeito simples e olhar maroto, como o de uma criança que fez arte, Zezzaropi sempre tem sempre uma piadinha na ponta da língua para moças bonitas. Um caipira admirável.

Gostaria de agradecer toda a ajuda que recebi da querida amiga Nadine para a produção desse texto. Obrigada!

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anamineira
 

Teca,
Achei muito bacana você fazer essa homenagem a Zezzaropi.
É um verdadeiro artista, mesmo imitando nosso querido Mazzaropi.
Quem distribui alegrias, colhe vida.
Parabéns! Belo texto.
Um abraço mineiro.

anamineira · Alvinópolis, MG 12/12/2007 15:07
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Higor Assis
 

Muito bom.

Higor Assis · São Paulo, SP 14/12/2007 16:23
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Frazao my brother
 

Assisti a todos os filmes de mazzaropi. E o Zezzaropi faz justa homenagem a ele, pois não se pode deixar morrer a idéia do "Jeca".
Parabéns, Teka, pela sua matéria, extensivos à Nadine. Com votos de louvor.
bjs

Frazao my brother · Anastácio, MS 15/12/2007 14:26
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Paulo Apolonio
 

Que beleza.
Muito bom.

Paulo Apolonio · Salvador, BA 18/12/2007 23:03
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Andre Luiz Mazzaropi
 

Teka
Antes tarde do que nunca.
Foi com muita emoção que ao transitar pelo overmundo, onde desde 2007 posto minhas mensagem e historias e tenho feito uma infinidade de amigos e fãns;
encontro esta homenagem ao nosso ZEZZAROPPI .o Luiz Alves de Souza;
Ele morava em Ourinhos-SP cidade onde fis meu primeiro show com meu pai o Mazzaropi, e havia muitos anos que eu tentava vender meu show a Prefeitura de Ourinhos, e isto nunca acontecia, foi ai que um dia, recebi em minha casa em Taubaté um telefonema do Seu Luiz, o Nosso ZEZZAROPPI, que queria que eu fosse apresentar um show meu em Ourinhos, e acertamos os detales e em Dezembro de 2.006 lá fui eu para realizar meu sonho e do ZE de me apresentar em Ourinhos, la cheguei, recebi meu cache, fiz o show dos meus sonhos, afinal de contas a ultima vez que estive em Ourinhos no meu primeiro show era 1.975, dormi no proprio teatro, que tinha um boa estrutura de hospedagem, e na hora de ir embora perguntei ao ZEZZAROPI, a Prefeitura não precisa de Nota Fiscal, ele me disse, André Luiz trabalhei o ano inteiro de 2.005 e 2.006, juntei o dinheiro, e quem pagou se cache fui, eu.
Ao ZEZZAROPI minha eterna gratidão.

abraços do
Andre Luiz Mazzaropi
O Filho do jeca
www.andreluizmazzaropi.com.br

Andre Luiz Mazzaropi · Taubaté, SP 26/2/2010 10:09
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