Ser cantor é ser poeta? Se o cantor é Caetano Veloso, pode-se dizer, sem medo de errar, que se está diante de um dos maiores poetas da Literatura brasileira. Cada letra de sua música, em versos e estrofes, tem cadência pensada, sons buscados na poesia do mundo. E falando em mundo, estava eu por Madri, em 21 de julho último, e soube que Caetano Veloso se apresentaria por lá. Difícil era não ir.
Conhecendo o álbum “Fina Estampa” de Caetano, com músicas em espanhol, e mal informado sobre sua apresentação, pensei que fosse me deparar com algo... “para espanhol ver”. Mas, bobagem a minha, Caetano manda no palco e nos nossos ouvidos, e o que nos traz é “Zii e Zie”, seu álbum de 2009. Com ele, o baiano flana de asa-delta "multicolorizada" sob os nossos olhos atentos ao que seria sua única apresentação na Espanha, em sua turnê pela Europa, que seguiu para Portugal, Itália e no próximo dia 03 chega a Helsinque - Finlândia. O show em Madrid integrou um festival já consagrado por lá no verão, o "Veranos de la Villa", que levou à capital espanhola nomes importantes da música mundial, incluindo os das brasileiras Adriana Calcanhoto e Ana Carolina.
Uma plateia de brasileiros, muitos madrilenhos e gente de todo o mundo - algo que beirava 2 mil pessoas num espaço ao ar livre - esperou os vinte minutinhos de atraso, sem reclamar, para o início do show. Ao que entrou Caetano no palco – num estilo que eu chamaria de "nem aí, Zii e Zie" –, com sua excepcional banda Cê, o público se empolgou em aplausos, assovios e gritos, como, por exemplo, um "Maravilhoso Caetano Veloso!". Este ouvi bem do meu lado. Se as músicas do novo álbum de “Zii e Zie” ainda não estavam totalmente na boca do povo, a emoção ao ouvi-las podia ser sentida ali no meio dos corpos e ouvidos atentos. Por detrás da banda "Cê", uma asa-delta, no chão, unia com leveza as cores vibrantes das letras às cores do palco, em vermelho, verde e azul intensos - a la Almodóvar, que também estava na plateia. Nessa atmosfera multicor, multisons se afinavam em cada ritmo do rock tropicálio embossanovado, numa harmonia fina dos meninos Pedro Sa (guitarra), Ricardo Dias Gomes (baixo e piano) e Marcelo Callado (bateria).
Entre canções mais dançantes como "A cor amarela" e "Tarado ni você", que levaram o público a se mexer numa quase brasilidade; e “Lapa”, em que, durante a apresentação da qual, um vídeo com imagens da Lapa no Rio levava todos a uma viagem pelos arcos cariocas; a canção “A base de Guantánamor”, sobre a relação dos norteamericanos com a ilha de Fidel – apresentada no show sob a penumbra de uma luz vermelha, com os artistas no primeiro plano do palco e um vídeo com imagens de Cuba, exibido em grande tela, ao fundo, numa disposição quase teatral, performática – foi um dos momentos mais emocionantes. “O fato de os americanos/ desrespeitarem os direitos humanos/ em solo cubano é por demais forte/ simbolicamente para eu não me abalar”, diz a letra. Também marcam o tom, digamos, mais áspero de uma realidade humana cruel as letras de “Perdeu” – “Pariu, cuspiu, expeliu um deus, um bicho, um homem” – e de “Lobão tem razão”.
Caetano conduzia seu show, seu baile/balé/balela/belo, ao seu bel prazer (com o perdão das aliterações). E, aos meus ouvidos, cada canção trazia ao palco, metaforicamente, claro, um nome da música brasileira, numa espécie de ode aos bons e bambas. Entre os “odeados”, Lobão – que dá nome a uma das faixas de “Zii...” –; Paulinho da Viola, em “Tem que ser Viola” – que não integra o álbum –; Roberto Carlos, em "Força Estranha"; e Maria Bethânia, em canção homônima que, aliás, deixou o público em polvorosa quando Caetano cantava o nome da irmã."Maria Bethânia, please send me a letter", diz a letra.
ETA!?
Um dos momentos mais “engraçados” foi quando Caetano cantou “A luz de Tieta”, em cujo refrão repete-se várias vezes a palavra “êta", que, na letra, é nada mais que as duas últimas sílabas no nome “Tieta” ditas várias vezes, mas, na boca de muitos da plateia, aos meus olhos, parecia uma “apologia” ao grupo “separatista” basco ETA. Muitos pulavam e gritavam, aos risos, o refrão ocasionalmente ambíguo da letra de Caetano: "Êta!/ Êta, êta, êta/ É a lua, é o sol é a luz de Tieta/ Êta, êta!"
POR QUE PAROU?
Ao fim do show, depois de Caetano sair do palco, eu me perguntava, “Como é mesmo que se pede bis em espanhol?”. Enquanto não me vinha nada à mente, eis que grita um brasileiro: “Por que parou? Parou por quê?”, e logo foi seguido pela multidão babélica. O curioso era ouvir inúmeros sotaques (franceses, russos, espanhóis, italianos, etc) entoando o jargão brasileiro. O que deve ter funcionado, já que Caetano voltou ao palco e cantou mais duas músicas. Saindo do palco mais uma vez, uma loira alta não brasileira do meu lado começou a gritar: “Por qué parrô? Parrô por qué?”. Eu não sabia se ria, ou se engrossava o pedido de retorno ao palco. Claro que me juntei ao coro, agora iniciado por estrangeiros, que trouxe mais uma vez o cantor brasileiro ao palco de Puerta del Ángel, para dar a todos um último regalo. A multidão se quedava sedenta por samba, rock, bossa e o que mais que pudesse trazer Caetano, numa noite de Zii e Zie em Madrid.
E olhem que presente: ao passar por Lisboa, no meu retorno ao Brasil, encontro-me, como presente dos deuses, com Maria Bethânia, e pude dizer a ela o quanto a plateia se empolgou com a música que leva seu nome, no show de Caetano. Ela disse que já tinha sido informada do sucesso do show, pelo irmão, que, a esta hora, já estava por Lisboa seguindo sua turnê.
Eriton que inveja de vc, sabe que alimento o sonho de conhecer o Rio e ouvir Caetano de perto... rs
parabens, foi como se estivesse la
abraços
Nossa, Sinva, até eu teria inveja de mim, rsrsrsrs
Pois, não perca tempo e vá ao Rio, e, quem sabe, não calhe de Caetano estar fazendo show por lá.
Abçs
Zii e Zie em Madrid, você e eu por tabela, e os outros que, conduzidos por suas palavras, fomos transportados para o show... é nois e Almodóvar na fita. Beijos, te amo.
elisa queiroz · Vitória, ES 4/8/2010 21:30Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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