“Em 1953, quando o neoparnasianismo de 45 espalhava prodigamente suas flores de retórica, Zila Mamede estreou em livro, com Rosa de Pedra”. (Ney Leandro de Castro – com a devida citação). Começava ali a trajetória da poeta, como gostava de se intitular. De verso limpo, elegante, despido de exageros e redundâncias formais, profundamente ligada ao tema “terra-mar-infância-solidão”, Zila foi, antes de tudo, uma lutadora.
Final da década de 50, Zila trouxe na sua bagagem um diploma de bibliotecária para Natal. Pioneira e combativa, deu início a um trabalho novo, técnico e extremamente especializado, encarado por muitos como uma simples atividade de arrumar livros em estantes. Zila parecia falar grego para as pessoas de que dependiam concessões, autorizações e financiamentos.
Mantendo um fino trato com as palavras e com a biblioteconomia, Zila cometia seus versos na mesma medida que organizava os “livros”. Única bibliotecária da cidade, em 1958, foi nomeada chefe do Serviço Central de Bibliotecas. Nessa mesma época, SALINAS; seu segundo livro, repleto de solidão e até um certo desespero. A poeta avançava no seu domínio verbal e já incitava um certo apelo telúrico.
Pouco tempo depois, em 1959, O ARADO. Considerado um momento alto da poesia brasileira, Zila toma posse da lavra da terra, “substitui a vastidão envolvente do Atlântico”. Nessa hora, a poeta “faz do verso o instrumento com que molda” os objetos da poesia, tematizando sua infância de pedra, sertaneja, sua geografia sentimental...
O EXERCÍCIO DA PALAVRA viria mais de 15 anos depois. Esse período de latência, segundo os críticos não deixou o livro impune; “peca por falta de unidade, por dispersão temática”, mas traz a marca inconfundível da grande poeta, admirada por nomes como João Cabral de Melo Neto, Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade. Manteve com os dois últimos, intensa correspondência. Três anos se passam e Zila arremata com Corpo a corpo. Definido por ele mesma como “uma volta sem mágoa” a cada um dos lugares que marcam seu itinerário poético.
O mar foi um capítulo à parte na vida de Zila. Exercia um verdadeiro fascínio desde sua infância, mesmo não tendo visto. As crianças que voltavam de suas férias à beira-mar relatavam seus episódios praieiros. A Zila, só restava imaginar. Certa vez, viajando para Recife, viu uma superfície ondulada, que se movimentava ao sopro do vento. Perguntou ao pai se era o mar. Não. Era um canavial. Poucas horas depois a menina de 12 ou 13 anos estaria em frente ao oceano.
Desde então o mar passou a ter presença contínua. Todas as manhãs a poeta caminhava na Praia do Forte e dedicava alguns minutos à prática da natação. Até que em 13 de dezembro de 1985 Zila mergulharia para sempre. Foi levada pelo mar que tanto tamatizou em sua lírica. Corajosa e precursora, tornou-se, merecidamente, um dos maiores nomes das letras potiguares. Mesmo nascida na Paraíba, foi no Rio Grande do Norte onde Zila traçou suas linhas.
Banho (rural)
De cabaça na mão, céu nos cabelos
à tarde era que a moça desertava
dos arenzés de alcova. Caminhando
um passo brando pelas roças ia
nas vingas nem tocando; reesmagava
na areia os próprios passos, tinha o rio
com margens engolidas por tabocas,
feito mais de abandono que de estrada
e muito mais de estrada que de rio
onde em cacimba e lodo se assentava
água salobre rasa. Salitroso
era o também caminho da cacimba
e mais: o salitroso era deserto.
A moça ali perdia-se, afundava-se
enchendo o vasilhame, aventurava
por longo capinzal, cantarolando:
desfibrava os cabelos, a rodilha
e seus vestidos, presos nos tapumes
velando vales, curvas e ravinas
(a rosa de seu ventre, sóis no busto)
libertas nesse banho vesperal.
Moldava-se em sabão, estremecida,
cada vez que dos ombros escorrendo
o frio d'água era carícia antiga.
Secava-se no vento, recolhia
só noite e essências, mansa carregando-as
na morna geografia de seu corpo.
Depois, voltava lentamente os rastos
em deriva à cacimba, se encontrava
nas águas: infinita, liquefeita.
Então era a moça regressava
tendo nos olhos cânticos e aromas
apreendidos no entardecer rural.
O poema acima consta do livro “Os cem melhores poemas brasileiros do século”, Editora Objetiva – Rio de Janeiro, 2001, pág. 141, organização de Ítalo Moriconi.
Olá Filipe.
Interessante o texto. Acho que ficaria mais completo se você anexasse alguma poesia de Zila.
Abraço.
Pedido atendido Clara. Abraço.
FILIPE MAMEDE · Natal, RN 5/4/2007 11:39
Bacana saber dos pioneirismos de Zila, Filipe! Não pude deixar de notar os sobrenomes... :)
Uma vez na fila de edição: quinto parágrafo: Definido por ele (--> ela) mesma. Sétimo parágrafo: 'tamatizou'?
Abs.
Filipe,
Que se fale sempre comoi tu de poetas.
Que sempre vivam os poemas, lindos, de Zila.
Ter alguém assim na família não é pra todo o mundo...
Gostei do poema (a coletânea da qual foi tirado é muito boa...)
Abraço,
Interessante no texto é perceber que "tomar posse da lavra da terra" pode ter o simbolismo da construção que cada um vai realizando com sua arte, em sua própria vida.
Alê Barreto · Rio de Janeiro, RJ 8/4/2007 16:10Valeu Torinho, massa!!!
InDioZinHo · Currais Novos, RN 8/4/2007 23:10
Errata: no sétimo parágrafo seria "tematizou".
Quanto ao paretentesco, sou sobriho-neto de Zila. Apesar de não tê-la "conhecido" (eu tinha pouco mais de um ano) sinto saudade e orgulho acima de tudo. Para os que admiram sua lírica, pretendo escrever mais algumas coisas. Um abraço pra todos.
Muito bom ler sobre esse orgulho norte-riograndense...
Melhor ainda se você escrevesse sobre suas muitas outras facetas... Há aspectos interesantes em sua carreira e vida que valeriam belos textos.
"Aguardaremos, brincaremos no regato,
Até que nos tragam frutos, teu amor, teu coração"
Para outros tempos, refazendo tudo,
O inverso do sentido primeiro do verso
Viva Zila,
Viva tu, Filipe!
É mágico saber que a poesia e os poetas ainda encantam multidões...
bravo!!!
Olá Felipe!
Valeu por ter indicado este belo texto e, mais que isso, por me fazer conhecer esta poeta. Gostei muito e já indiquei para outro tanto de gente.
Grande abraço e viva Zila!
Mais uma vez... Parabéns, Felipe!!
Osvaldo · Olinda, PE 10/4/2007 12:05Obrigado. Espero que as pessoas procurem pelos livros, pelas poesias de Zila, esta que foi uma grande poeta, bibliotecária, jornalista e mulher, acima de tudo. ABRAÇO A TODOS.
FILIPE MAMEDE · Natal, RN 10/4/2007 14:42
Passei e adorei!
Como sempre!
Parabéns!
Abraços
Muito bom o texto, gostei muito! Grande abraço!!!
Explendido seu texto, e linda a poesia. Parabéns!
Alcy Filho · Jataí, GO 10/4/2007 17:46
Sempre bom relembrar e ler sobre os expoentes de nossa literatura... Obrigado pela dica!
Abraço!
Interessante a tragetória dela e a visão que tinha naquela época em relação ao trato com os livros. Parece que o "falar grego" sempre vai existir nesse mundo...
Gostei do texto! Falou tudo em ritmo suave.
gostei muito ,Felipe.
parabéns pelo post.
um abraço,
Fran
Belo texto...Bom post.Poeta Zila...
Curiosa estou...vou procurar sobre ela ...versos de emoção e vida de emoção. Leio e li muito, mas não me vem a memória ...como pode acontecer isso?
Mamede? Que honra hein?Abraços.
Adorei o texto. Adorei ter conhecido esta maravilhosa poetisa que foi Zila Mamede. Obrigada. Parabéns por fazer parte da família de Zila. Que a estrela da inteligência e criatividade que brilhou ( e com certeza ainda brilha) em Zila, posso brilhar em vc também.
Um forte abraço,
Priscila.
Até agora não achei nada de Zila, queria ler os poemas...Mas vou achar! Um abraço.
Cintia, neste link http://www.revista.agulha.nom.br/zmamede.html
você vai encontrar 8 poemas dela. Há outros que você pode encontrar via google.
FILIPE MAMEDE · Natal (RN)
Zila é pra gente se orgulhar.
Vocé por ser parente e nós por sermos seus amigos e admiradores, de vocé e dela, dois artistas das palavras usadas em poesias.
Parabéns pelo seu Trabalho muito belo e convicto. Zila lá do alto deve de estar orgulhosa de voce.
Valeu a pena.
Um tesouro da Família.
Voto merecidíssimo.
Com orgulho li o belo texto,deixo aqui meu respeitoso parabéns a vc e a Zilá
clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 28/3/2008 09:05Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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