ZILA: ROSA DE PEDRA LIQUEFEITA.

Acervo da família
ZILA MAMEDE
1
FILIPE MAMEDE · Natal, RN
8/4/2007 · 371 · 30
 

“Em 1953, quando o neoparnasianismo de 45 espalhava prodigamente suas flores de retórica, Zila Mamede estreou em livro, com Rosa de Pedra”. (Ney Leandro de Castro – com a devida citação). Começava ali a trajetória da poeta, como gostava de se intitular. De verso limpo, elegante, despido de exageros e redundâncias formais, profundamente ligada ao tema “terra-mar-infância-solidão”, Zila foi, antes de tudo, uma lutadora.

Final da década de 50, Zila trouxe na sua bagagem um diploma de bibliotecária para Natal. Pioneira e combativa, deu início a um trabalho novo, técnico e extremamente especializado, encarado por muitos como uma simples atividade de arrumar livros em estantes. Zila parecia falar grego para as pessoas de que dependiam concessões, autorizações e financiamentos.

Mantendo um fino trato com as palavras e com a biblioteconomia, Zila cometia seus versos na mesma medida que organizava os “livros”. Única bibliotecária da cidade, em 1958, foi nomeada chefe do Serviço Central de Bibliotecas. Nessa mesma época, SALINAS; seu segundo livro, repleto de solidão e até um certo desespero. A poeta avançava no seu domínio verbal e já incitava um certo apelo telúrico.

Pouco tempo depois, em 1959, O ARADO. Considerado um momento alto da poesia brasileira, Zila toma posse da lavra da terra, “substitui a vastidão envolvente do Atlântico”. Nessa hora, a poeta “faz do verso o instrumento com que molda” os objetos da poesia, tematizando sua infância de pedra, sertaneja, sua geografia sentimental...

O EXERCÍCIO DA PALAVRA viria mais de 15 anos depois. Esse período de latência, segundo os críticos não deixou o livro impune; “peca por falta de unidade, por dispersão temática”, mas traz a marca inconfundível da grande poeta, admirada por nomes como João Cabral de Melo Neto, Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade. Manteve com os dois últimos, intensa correspondência. Três anos se passam e Zila arremata com Corpo a corpo. Definido por ele mesma como “uma volta sem mágoa” a cada um dos lugares que marcam seu itinerário poético.

O mar foi um capítulo à parte na vida de Zila. Exercia um verdadeiro fascínio desde sua infância, mesmo não tendo visto. As crianças que voltavam de suas férias à beira-mar relatavam seus episódios praieiros. A Zila, só restava imaginar. Certa vez, viajando para Recife, viu uma superfície ondulada, que se movimentava ao sopro do vento. Perguntou ao pai se era o mar. Não. Era um canavial. Poucas horas depois a menina de 12 ou 13 anos estaria em frente ao oceano.

Desde então o mar passou a ter presença contínua. Todas as manhãs a poeta caminhava na Praia do Forte e dedicava alguns minutos à prática da natação. Até que em 13 de dezembro de 1985 Zila mergulharia para sempre. Foi levada pelo mar que tanto tamatizou em sua lírica. Corajosa e precursora, tornou-se, merecidamente, um dos maiores nomes das letras potiguares. Mesmo nascida na Paraíba, foi no Rio Grande do Norte onde Zila traçou suas linhas.




Banho (rural)

De cabaça na mão, céu nos cabelos
à tarde era que a moça desertava
dos arenzés de alcova. Caminhando

um passo brando pelas roças ia
nas vingas nem tocando; reesmagava
na areia os próprios passos, tinha o rio

com margens engolidas por tabocas,
feito mais de abandono que de estrada
e muito mais de estrada que de rio

onde em cacimba e lodo se assentava
água salobre rasa. Salitroso
era o também caminho da cacimba

e mais: o salitroso era deserto.
A moça ali perdia-se, afundava-se
enchendo o vasilhame, aventurava

por longo capinzal, cantarolando:
desfibrava os cabelos, a rodilha
e seus vestidos, presos nos tapumes

velando vales, curvas e ravinas
(a rosa de seu ventre, sóis no busto)
libertas nesse banho vesperal.

Moldava-se em sabão, estremecida,
cada vez que dos ombros escorrendo
o frio d'água era carícia antiga.

Secava-se no vento, recolhia
só noite e essências, mansa carregando-as
na morna geografia de seu corpo.

Depois, voltava lentamente os rastos
em deriva à cacimba, se encontrava
nas águas: infinita, liquefeita.

Então era a moça regressava
tendo nos olhos cânticos e aromas
apreendidos no entardecer rural.


O poema acima consta do livro “Os cem melhores poemas brasileiros do século”, Editora Objetiva – Rio de Janeiro, 2001, pág. 141, organização de Ítalo Moriconi.


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Clara Bóia
 

Olá Filipe.
Interessante o texto. Acho que ficaria mais completo se você anexasse alguma poesia de Zila.
Abraço.

Clara Bóia · Blumenau, SC 5/4/2007 10:42
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FILIPE MAMEDE
 

Pedido atendido Clara. Abraço.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 5/4/2007 11:39
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Julz Reb
 

Bacana saber dos pioneirismos de Zila, Filipe! Não pude deixar de notar os sobrenomes... :)
Uma vez na fila de edição: quinto parágrafo: Definido por ele (--> ela) mesma. Sétimo parágrafo: 'tamatizou'?
Abs.

Julz Reb · Canadá , WW 7/4/2007 02:23
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Adroaldo Bauer
 

Filipe,
Que se fale sempre comoi tu de poetas.
Que sempre vivam os poemas, lindos, de Zila.

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 7/4/2007 21:31
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Felipe Obrer
 

Ter alguém assim na família não é pra todo o mundo...
Gostei do poema (a coletânea da qual foi tirado é muito boa...)
Abraço,

Felipe Obrer · Florianópolis, SC 8/4/2007 13:45
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Alê Barreto
 

Interessante no texto é perceber que "tomar posse da lavra da terra" pode ter o simbolismo da construção que cada um vai realizando com sua arte, em sua própria vida.

Alê Barreto · Rio de Janeiro, RJ 8/4/2007 16:10
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InDioZinHo
 

Valeu Torinho, massa!!!

InDioZinHo · Currais Novos, RN 8/4/2007 23:10
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FILIPE MAMEDE
 

Errata: no sétimo parágrafo seria "tematizou".
Quanto ao paretentesco, sou sobriho-neto de Zila. Apesar de não tê-la "conhecido" (eu tinha pouco mais de um ano) sinto saudade e orgulho acima de tudo. Para os que admiram sua lírica, pretendo escrever mais algumas coisas. Um abraço pra todos.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 9/4/2007 08:58
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Cida Almeida
 

Gostei demais!

Cida Almeida · Goiânia, GO 9/4/2007 11:51
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Iva Kareninna
 

Muito bom ler sobre esse orgulho norte-riograndense...
Melhor ainda se você escrevesse sobre suas muitas outras facetas... Há aspectos interesantes em sua carreira e vida que valeriam belos textos.

Iva Kareninna · Natal, RN 9/4/2007 14:49
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Juliaura
 

"Aguardaremos, brincaremos no regato,
Até que nos tragam frutos, teu amor, teu coração"

Para outros tempos, refazendo tudo,
O inverso do sentido primeiro do verso

Viva Zila,
Viva tu, Filipe!

Juliaura · Porto Alegre, RS 9/4/2007 15:23
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Rakel de Castro
 

É mágico saber que a poesia e os poetas ainda encantam multidões...
bravo!!!

Rakel de Castro · Natal, RN 9/4/2007 21:01
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jjLeandro
 

Passei, Filipe. Abração.
.
jjLeandro
.

jjLeandro · Araguaína, TO 10/4/2007 08:46
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Júlio Canuto
 

Olá Felipe!

Valeu por ter indicado este belo texto e, mais que isso, por me fazer conhecer esta poeta. Gostei muito e já indiquei para outro tanto de gente.

Grande abraço e viva Zila!

Júlio Canuto · São Paulo, SP 10/4/2007 11:59
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Osvaldo
 

Mais uma vez... Parabéns, Felipe!!

Osvaldo · Olinda, PE 10/4/2007 12:05
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FILIPE MAMEDE
 

Obrigado. Espero que as pessoas procurem pelos livros, pelas poesias de Zila, esta que foi uma grande poeta, bibliotecária, jornalista e mulher, acima de tudo. ABRAÇO A TODOS.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 10/4/2007 14:42
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Fê Pavanello
 

Passei e adorei!
Como sempre!
Parabéns!
Abraços

Fê Pavanello · Brasília, DF 10/4/2007 16:02
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Aquinei Timóteo
 

Muito bom o texto, gostei muito! Grande abraço!!!

Aquinei Timóteo · Rio Branco, AC 10/4/2007 16:08
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Alcy Filho
 

Explendido seu texto, e linda a poesia. Parabéns!

Alcy Filho · Jataí, GO 10/4/2007 17:46
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adriomed
 

Sempre bom relembrar e ler sobre os expoentes de nossa literatura... Obrigado pela dica!
Abraço!

adriomed · Natal, RN 11/4/2007 09:53
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Vinícius Menna
 

Interessante a tragetória dela e a visão que tinha naquela época em relação ao trato com os livros. Parece que o "falar grego" sempre vai existir nesse mundo...

Gostei do texto! Falou tudo em ritmo suave.

Vinícius Menna · Natal, RN 11/4/2007 11:58
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John Lester
 

Nice.

John Lester · Vila Velha, ES 19/4/2007 02:29
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Francinne Amarante
 

gostei muito ,Felipe.
parabéns pelo post.
um abraço,
Fran

Francinne Amarante · Brasília, DF 19/4/2007 04:25
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Cintia Thome
 

Belo texto...Bom post.Poeta Zila...
Curiosa estou...vou procurar sobre ela ...versos de emoção e vida de emoção. Leio e li muito, mas não me vem a memória ...como pode acontecer isso?
Mamede? Que honra hein?Abraços.

Cintia Thome · São Paulo, SP 20/6/2007 22:51
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Priscila Silva
 

Adorei o texto. Adorei ter conhecido esta maravilhosa poetisa que foi Zila Mamede. Obrigada. Parabéns por fazer parte da família de Zila. Que a estrela da inteligência e criatividade que brilhou ( e com certeza ainda brilha) em Zila, posso brilhar em vc também.

Um forte abraço,
Priscila.

Priscila Silva · Cabo Frio, RJ 29/6/2007 12:29
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silvino
 

Belíssimo poema!!!

silvino · Reino Unido , WW 6/7/2007 11:13
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Cintia Thome
 



Até agora não achei nada de Zila, queria ler os poemas...Mas vou achar! Um abraço.

Cintia Thome · São Paulo, SP 6/7/2007 20:14
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silvino
 

Cintia, neste link http://www.revista.agulha.nom.br/zmamede.html
você vai encontrar 8 poemas dela. Há outros que você pode encontrar via google.

silvino · Reino Unido , WW 7/7/2007 04:02
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azuirfilho
 

FILIPE MAMEDE · Natal (RN)
Zila é pra gente se orgulhar.
Vocé por ser parente e nós por sermos seus amigos e admiradores, de vocé e dela, dois artistas das palavras usadas em poesias.
Parabéns pelo seu Trabalho muito belo e convicto. Zila lá do alto deve de estar orgulhosa de voce.
Valeu a pena.
Um tesouro da Família.
Voto merecidíssimo.

azuirfilho · Campinas, SP 5/3/2008 14:20
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clara arruda
 

Com orgulho li o belo texto,deixo aqui meu respeitoso parabéns a vc e a Zilá

clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 28/3/2008 09:05
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