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Zona com cheiro de laquê
Marcelo Damaso · Belém (PA) · 3/8/2007 14:22 · 139 votos · 1 comentários ·  
 
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overponto
De dia, o retrato de uma boca do lixo qualquer que pontua o centro da cidade: pessoas no corre-corre, relógios apontando atraso, prostitutas recolhidas, mendigos exalando descuido, camelôs, buzinas apressadas e o estresse correndo solto pelas ruas estreitas do centro de Belém. Próximo a um dos cartões postais da capital, a Praça da República, fica a rua Riachuelo, onde, na esquina com a travessa Primeiro de Março, de sexta-feira em diante o movimento começa a ficar um pouco mais intenso. No entanto, nada que remeta a uma zona do meretrício como manda a história. Lá, veteranas e novatas observam o movimento de carros com o olhar cansado sentadas na porta das pequenas casas antigas do bairro da Campina. Vagabundos rodeiam como urubus de olho num cachorro quase morto. Bêbados oriundos do Ver-O-Peso e trabalhadores dos portos da Cidade Velha são os eventuais clientes. Por ali não há glamour, tampouco diversão. Não há sequer a alegria de um local com putas, gente bêbada e brega no volume máximo.

Nesta mesma esquina, há cerca de um ano, o grupo de teatro Cuíra escolheu um galpão para montar seu espaço e, com isso, apresentar suas peças, ensaiar, fazer leitura de textos etc. “Somos um grupo que trabalha com artes cênicas. Há muito procurávamos um local para nos estabelecer. Para ensaiar, apresentar nossos trabalhos, ficar em cartaz pelo tempo necessário”, conta Edyr Augusto Proença, escritor responsável pelos textos encenados pelos Grupo Cuíra. Nessa procura, o grupo finalmente chegou ao local em questão e, como uma das divinas intervenções do acaso, pessoas dos arredores começaram a aparecer e perguntar o que diabos estava sendo “construído” ali. Este foi o primeiro insight para a criação do espetáculo teatral Laquê, em cartaz há quatro meses em Belém, sempre com casa cheia.

Edyr, que em seguida passou a colher depoimentos de prostitutas e moradores do entorno, conta que a primeira idéia nasceu desse contato. “Chegamos, passamos a limpar o local e as pessoas entravam, perguntando o que iria acontecer ali. A idéia de trabalhar com essas pessoas foi imediata”, revela o autor.

O enredo do espetáculo Laquê mostra a época áurea do endereço na metade do século passado, época em que “a zona cheirava a Laquê”. A história se passa em um carnaval dos anos 30, quando marinheiros franceses desfilaram nus protestando em uma greve no navio. O episódio faz parte da história real de uma das prostitutas do elenco. Ela, apaixonada por um cliente, descobre que ele vai casar com uma virgem rica e resolve levar as colegas para a igreja. Após a bagunça feita no casamento, elas são presas e retornam para a “casa da luz vermelha” onde viviam. Lá, a protagonista veste-se para uma noite de gala e toca fogo no próprio corpo.

O espetáculo, dirigido por Wlad Lima e pelo ator Cláudio Barros - um dos fundadores do Cuíra - tem duas horas de duração e junta atores profissionais, estudantes de teatro da Universidade Federal do Pará e dez prostitutas que vivem nas redondezas e passaram pela peneira das oficinas de teatro adulto, realizadas pelo grupo. Em novembro de 2006, a diretora Wlad Lima deu início às oficinas com várias que pessoas que, com o afunilamento natural das atividades, poucas foram ficando na peça.

Zê Charone, produtora do espetáculo e atriz do grupo Cuíra, diz que não havia como o Cuíra se estabelecer naquele lugar sem olhar para o entorno: “Ele era muito presente ali”. A princípio, a casa estaria aberta a outros projetos ligados à zona de meretrício, mas com a curiosidade e a vontade mostrada pela vizinhança, o processo natural foi se encaminhando para o surgimento de Laquê. “A gente não sabia o que ia acontecer”, revela Zê, que enfatiza que o aprendizado está sendo muito grande para os dois lados – prostitutas e grupo teatral.

O lado social, muito presente no projeto, surgiu de maneira genuína e honesta, sem forçar nenhuma barra para querer atrair os holofotes da imprensa e público. “O trabalho social, aplicado à zona do meretrício veio do convívio com o entorno. É o teatro que recebe todas essas pessoas, entre moradores, profissionais do sexo, de ambos os sexos, camelôs, enfim. Há oficinas direcionadas para o teatro e outras para o público em geral. Esse trabalho social entrou de maneira natural”, confirma Edyr.

As prostitutas que trabalham no espetáculo receberam cuidados maiores através de apoios conseguidos pelo grupo Cuíra, como tratamento odontológico, limpeza de pele, corte de cabelo etc. Em agosto, começa o trabalho de alfabetização adulta, pois várias meretrizes não sabem ler e escrever, como é o caso de Vitória, uma das maiores revelações do espetáculo. “Ela chegou aqui pedindo para ouvirmos as composições dela. Pedimos para ver a letra e ela disse que não tinha, mas que ia cantar a música. Hoje em dia, quando atua na peça, você não sabe diferenciá-la dos atores profissionais que estão no elenco”, conta a produtora.
Sobre a continuidade das prostitutas na carreira teatral, Edyr diz que “algumas dizem claramente querer se tornar atrizes.

Prosseguiremos com Laquê, mas já temos outro projeto, onde esse povo do entorno participará como coro teatral”. Zê complementa dizendo que “o que levanta suas auto-estimas e as transforma em cidadãs mantém acesa a vontade de continuar na carreira artística”.

Laquê ficou quatro meses em cartaz, inicialmente às terças-feiras, depois, graças ao sucesso de casa lotada em todas as exibições, passou para as sextas-feiras. O espetáculo deu uma pausa durante o mês de julho, onde Belém vira uma cidade sem vida cultural, e retorna em agosto, sempre às 21h das terças-feiras. O grupo Cuíra deixará a peça em cartaz durante um ano.

O Grupo Cuíra iniciou suas atividades no Pará em 1982, quando jovens atores, egressos de diversos grupos, encenavam peças de outras companhias de teatro paraenses. A partir de então, grupos paralelos se formavam e o Cuíra há 19 anos segue uma carreira bem sucedida com peças premiadas e sempre lotando teatros e espaços culturais por onde passa.

No novo espaço, Edyr diz que as portas estão abertas “para a vida que circula em seu entorno e dentro, se transforma em mágica, seja com teatro, música, artes plásticas. Fazemos teatro para mudar o mundo”.

tags: Belém PA artes-cenicas


 
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Marcelo, bem interessante essa parceria entre o Cuíra e sua vizinhança. Mais ainda porque parece que terá prosseguimento após a temporada de Laquê, e não ficará restrito ao teatro. Adoraria ter a chance de assistir a esse espetáculo.
Tenho um carinho especial por Belém. Aí, vivi uma experiência inesquecível e muito boa com um grupo de moradores de rua, que conheci quando passeava na cidade. Eles tinham como "endereço" um coreto, numa praça abandonada, perto do cais.
Abraço.
Tetê Oliveira · Nova Iguaçu (RJ) · 1/8/2007 19:52 
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