O cavalheiro acima é o responsável (na minha opinião) pela saudável e instigante confusão
generalizada da arte contemporânea, para quem não o conhece apresento-o, trata-se de Marcel Duchamp, que colocou de cabeça para baixo o mundo da arte, desconstruindo todos os conceitos anteriormente utilizados na definição das categorias artísticas, do que é arte e do que não o é, e instaurando de vez a cisão entre os iniciados/entendedores de arte (críticos, colecionadores, artistas, interessados em arte de maneira geral) e o público leigo, imaginem; se mesmo os iniciados neste campo artístico muita vezes escandalizam-se com as heresias da arte experimental e provocadora, o que dizer do público não habituado a tais manifestações.
A análise do campo artístico empreendida por Pierre Bourdieu cai como uma luva e confirma sua plausibilidade quando olhamos mais de perto casos como este e de outros artistas que são visionários, incompreendidos das artes em cada período histórico.
A arte classificada socialmente como verdadeira segundo o autor, têm como uma de suas principais características o fechamento em si mesma, como se ela se movimentasse em círculos concêntricos, e sua "evolução", apesar da palavra pouco adequada, dá-se a partir da constante ruptura com os cânones das artes anteriores, rupturas estas que tentam a partir de valores predominantemente estéticos e artísticos denunciar a arbitrariedade do campo e do que é considerado arte, segundo Bourdieu, quanto maior o grau de evidência e veracidade da denúncia, por mais contraditório que possa parecer, tanto maior será o grau de artisticidade do denunciante que estará fadado, na maioria dos casos, a tornar-se um grande expoente da vanguarda artística, isto por causa do efeito do que Lèví-strauss chamou de eficácia simbólica(para uma melhor compreensão pesquise a obra do autor intitulada, ANTROPOLOGIA ESTRUTURAL, capítulo "a eficácia simbólica"), pois a arte se caracteriza pela crença de todo o grupo participante de tal meio, na existência de qualidades quase xamânicas que se encontram nas mãos do artista iluminado, este através de suas qualidades carismáticas e seus poderes atribuídos pelo grupo, poderes os quais ele mesmo acredita(apesar de não ser condição fundamental), efetua a transubstanciação de tudo o que toca em arte, o campo possui homologias com o campo religioso, o campo da moda, dentre outros, onde um indivíduo portador de qualidades delegadas pela fé do grupo, transforma os mais diversos materiais em objetos sagrados.
O público leigo por sua vez, fica de fora deste jogo, pois, a arte "erudita" é uma maneira das classes dominantes distinguirem-se das dominadas, na medida em que é preciso estar a par dos constantes movimentos do campo artístico para compreender sua lógica, o que ocorre através da inculcação de valores estéticos, que se dá através do ensino escolar e da educação/socialização familiar, criando assim indivíduos cultivados/distintos, para os quais o convívio com a arte, sua história e seus movimentos, acontece de maneira naturalizada. Para classe dominada tal arte soa estranha e ilógica, pois não faz parte da socialização desta categoria social, seus gostos segundo o autor se constituem muito mais pela privação do que por escolhas.
Por estes motivos a arte tende a se fechar cada vez mais em si mesma, num eterno confronto de superação estética incompreensível aos não iniciados, principalmente os que se encontram na camada dominada da população, ela é produzida principalmente para seus pares, artistas, críticos, et cetera, entretanto alguns setores da burguesia (um tremo anacrônico mas o utilizarei) por não participarem deste meio, se apropriam da arte clássica como forma de distinção, enquanto a Arte segue seu rumo, solitária, hermética e alimentando-se de sua auto destruição.
a arte se auto alimenta ao mesmo tempo em que serve para a segregação social.
Bom o seu texto. votado
LAURO WINCK · Rio Pardo, RS 6/2/2009 20:24que texto maravilhoso amigo, fiz uma boa leitura, parabéns.votado.
O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 7/2/2009 08:55
Seu texto é muito pertinente. Sobretudo num momento, tecnologicamente revolucionário, como o que vivemos. Um momento em que o caos cibernético democratiza e ao mesmo tempo obscurece o papel da arte em geral. Sugiro a criação de um tópico no fórum sobre o assunto. No pouco que consegui navegar por lá, senti a ausência dessa discussão.
Estou disposto a interagir.
Sugiro tbém uma possível publicação de seu artigo no overblog.
Votado.
Valeu, estou tentendo levantar este tipo de debate, sobre o papel social da arte, como ela se constroi socialmente e como contribui para reprodução social.
Luiz Cabelo · Porto Alegre, RS 7/2/2009 21:51
Tbém reitero meu interesse. Qquer novidade emei-me.
Abç!
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