A natureza resiste à tecnologia através das sombras
Não com a intenção de destruir, mas de conflitar.
De criar um contraponto, para que não seja esquecido, para que sempre seja lembrado, o espírito mais ancestral, o mito da caverna, ou se preferir, nosso parentesco com os mamíferos alados que enxergam no escuro.
Existem várias maneiras de voar na natureza.
A consciência é só mais um fragmento de um sonho maior universal, o vôo.
Observando o mundo e a tecnologia, se percebe que mesmo que sutilmente, ao menos por enquanto, tudo e todos se curvam diante do maniqueísmo binário 0 / 1.
Urge que se imponha uma dialética onde o contra argumento mais radical seja alimentado pela desconexidade de fatores, a independência entre causa e efeito, a intensidade, autenticidade e integridade das escolhas se impondo ante à passividade confortavelmente conveniente de uma suposta normalidade que se revela tão resistente e consistente quanto uma bolha de sabão ao sabor do vento, voando em meio a uma floresta de pinheiros. Tão anacrônica quanto uma sanguessuga que se alimentando de si própria e esquecendo de si mesma, se apega com toda a força e intrumentos ao amparo frívolo e ilusório do senso comum e da insípida falsa autoridade de julgamento que jamais seria outorgada ou delegada a outros seres semelhantes e passíveis de cometer seus próprios erros por um ser realmente livre em seus sentimentos, pensamentos, atos e sonhos.
Intensidade e autenticidade sem foco, à mentira e à frigidez da alma e à frouxidão de caráter se equivalem. Não há abismo mais vasto, sombra mais profunda do que aqueles que podemos conhecer através da nossa parte mais autêntica e intensa desgovernada.
No entanto, há um paradoxo surpreendentemente positivo. Se é verdade que próximo a um buraco negro, tempo e espaço se desfazem, e nem mesmo a luz escapa, numa analogia que tem como objeto a consciência, quando em queda livre no suposto vácuo, pode-se teoricamente adquirir a capacidade de vôo, embora à primeira vista seja apenas mais uma possibilidade, ela se torna uma probalidade, mesmo que baixa, simplesmente por ser possível, ainda que seja uma em milhões de tantas outras antagônicas e desastrosas.
E mais, um retorno à fonte, ao início de todo o processo, uma análise clara, ou uma desconstrução dos passos certos e incertos, seriam o detalhe menos importante, porque um salto evolutivo estaria concluído - a natureza não é exata, a Terra não é redonda, mas achatada. Simples. Mesmo que nosso ego orgulhoso de transformar em poder suas certezas não aceite, a simplicidade é uma das regras de linguagem da natureza.
Simples. Como quando o primeiro mamífero alado caiu do teto da caverna e saiu voando ao invés de bater no chão(mesmo com o custo de tantas vezes outros ou ele mesmo terem batido, enquanto ao longo dos milênios membranas surgiam e se tornavam asas), sendo este fato fantástico decorrente da simples escolha do deconforto do alto da caverna e da persistência diante das incontáveis quedas inerentes ao processo evolutivo.
E isso sim, este salto, seria o verdadeiro propósito e a finalidade de tudo que aconteceu, ainda que houvessem tantos saltos a dar adiante(ou não), colocando a dor ou o deleite que se passaram como meros quadjuvantes num cenário onde o ator principal é a essência, na sua fluidez mais amarga, porém docemente pura, límpida e instigante - ampla, vasta, mesmo que entre suas cores haja matizes pretos e cinzas.
A tecnologia deve ser amada, respeitada, cultuada, é uma ótima aliada, mas não pode se sobrepor à natureza.
Não pode governar os passos do homem. Não pode definir seu tempo, seu espaço, ou sua velocidade, seu desafio, o cenário da sua sobrevivência.
Quem define tudo isso, a verdadeira e única autoridade é a natureza, e se o homem teima em negar esta verdade, ele tende a se tornar uma vítima desta negação, ou um ser docemente e pacificamente dopado e feliz, porém bem distante do que realmente poderia representar no mundo, pois as forças naturais não obedecem regras binárias ou newtonianas... elas são selvagens e por assim dizer, quânticas.
O homem deve governar e utilizar, apenas para seu benefício a tecnologia. E entenda-se por tecnologia, não apenas o domínio de técnicas e conhecimentos, mas todo o universo tecnológico que passou a influenciar sua busca pelo seu sentido no universo em existir já desde as cavernas, e com certeza praticamente o governa de forma cada vez mais autoritária desde que as máquinas se tornaram o alicerce de uma sociedade que num hedoísmo cego e numa crença em salvação eterna incoerente, convergiram numa competição hedionda de vaidade, egoísmo, ganância, busca pelo poder, enfim, um jogo de produção e consumo, do qual em seu final, possivelmente e lamentavelmente, ninguém sobreviverá, nem mesmo a Terra, nossa Mãe, a quem deveríamos amar integralmente.
É por isso que a sombra se infiltra na luz dos seus monitores. Pela sua própria sobrevivência, para obedecer o seu instinto e para que se canalize num mundo de tantos movimentos objetivos, a desvinculação de nexo, propósito e resultado dos sonhos.
É por isso que ela se despede de você neste dia nublado, com a sensação de ter acordado de um pesadelo, ou de estar vivendo um sonho que não é seu, mas que lhe tornou suficientemente humilde para reconhecer que talvez os morcegos não sejam cegos, apenas voem de olhos fechados, para não pretender conhecer nada que não possa ser um eco dos seus guinchos verdadeiros, ou talvez porque as quedas tenham lhes ensinado que mais importante que o vôo, mais importante que conhecer o mundo, é conhecer a si mesmo.
Uma ode ao morcego como ente mitológico, único mamífero alado em interposição com o mito da caverna de Platão, passando pelos cinco morcegos da mandala chinesa, o símbolo de renascimento xamãnico e finalmente, o cavaleiro das trevas, Batman.
Ai que alívio.... Agora não tenho dúvidas....Belíssimo texto, bem escrito e de uma pertinência e relevãncia atual e que trancende o tempo. Parabéns, aguardo a votação. Abraços.
Cristiano Melo · Brasília, DF 28/5/2008 22:04
°º° só esperando começar a votação - perfeito!
bjs bjs
Bem, eu sou mais otimista com relação à tecnologia, pelo menos à digital. Estou meio farto de distopias e visões pessimistas. Proponho uma nova utopia, mas com os pés no chão; uma que não vise a perfeição, mas o equilíbrio e pluralidade.
Não se pode, como os morcegos, querer somente enxergar o lado sombrio das coisas.
E eu que pensei em fugir de você! Quem diria que você iria se sair um belo ensaísta hein! Vou te dizer. Eu acredito realmente nessas todas possibilidades. Transito entre os dois universos. Tecnologia e caverna. Luz e sombra. O que era ainda é. E o que será já foi. É apenas questão de tempo pra que se descubra. É próprio da minha natureza "volátil”, do meu "ser pássaro" crer. Existem momentos que chego a me amarrar aqui na terra, a me prender por que realmente sinto que posso transpor até a mim mesma. Mas há horas que desejo realmente ir, então não me amarro não me prendo a nada, a nenhum conceito, daí descubro que não fui que não aconteceu. Que ainda estou aqui em mim mesma. Talvez até eu tenha ido e ainda não saiba, quem saberá?
Talvez eu ache minhas respostas junto aos "buracos negros" do meu próprio ser. Ou na caverna desses extraordinários mamíferos! Ou ainda quem sabe na caverna do próprio Batmam!Oh dúvidas desse ser tão humano!
Beijos alados meu querido e surpreendente Mustangue...
Dualidade elementar:
Partícula/Onda
Intensidade/Brilho
Sombra ou luz
Eternamente gravita
No campo das incertezas...
Quântico...
Meu coração é.
Adorei teu texto.
Abraços!
Mustangue · Porto Alegre (RS)
A sombra se infiltra na luz dos seus monitores
Saudação Amiga.
Texto é texto e este é bem feito e cheio de Fundamentação.
Tá no Ponto é uma destacada obra litarária.
Parabéns pela Criatividade e qualidade do seu Escritor.
Esta muito bacana e encantou aos meus amigos e a mim.
Tem todo merecimento. É Voto merecido.
A tecnologia não só não deve se sobrepor à natureza, como também, jamais poderá alcançar esse estado! A tecnologia é o reflexo do homem, e este, jamais terá a grandiosidade da Mãe Natureza!
JACK CORREIA · Crato, CE 30/5/2008 16:16
Olá Mustangue, Li teu texto extremamente instigante. Belo ensaio filosófico. Voltarei a ler.Votado.Me convide sempre.
Beijos gaúchos
Eu acho que voce tem razão. Toda evolução é apenas descoberta, descoberta para nós. Tudo já estava na natureza e na natureza permanece.
abraço
andre.
Pra quem começou como indio cê melhorou demais, rapá !
Seu texto é de um profundo bom gosto, rápido e rasteiro, deixa a gente ansioso e preenchido com o teu conhecimento, é uma aula, é uma conversa com um amigo, é uma viagem, Mustangue !
Adoro esse estilo de falar de um trilhão de coisas por vez e todas bem alinhavadas, um raciocínio brilhante e principalmente coerente, que faz sentido, sem fazer o seu leitor de bobo !
Sou teu macaco de auditório e também falo pelos cotovelos !
Um abraço !
PUBLICADAÇO !
Muito bom. O já estigmatizado Morcego volta a encantar. O mistério em torno desse lindo e expressivo mamífero é realmente intrigante. Falou bem por aqui. Bjokas Malu
MaluFreitas · Salvador, BA 30/5/2008 21:32
Olá amigo Mustang,
este teu text´tá muito bacana amigo. Meus sinceros aplausos e abraços.
Carlos Magno.
"Os morcegos estão comendo os abacates maduros"...
Muito interessante mesmo. Agradeço o convite.
Com Carinho,
Sander
Mustangue, brilhante tema e brilhantemente desenvolvido. A tecnologia é fruto da mente humana, seu poder imensurável de tentar dominar a natureza. Luz e sombras permeiam os caminhos da humanidade, se cruzam e entrecruzam. Quem não conhece a Sombra não saberá dar valor à Luz!
Prodigioso ensaio!
Desculpe a demora, a tecnologia falhou!
Abração!
Oseu texto é formidável, uma viagem em palavras e sensações bem escritas, de pensamentos superiores, voltados ao bem da humanidade.
Encantada.
Abraços.
Vivo chegando atrasada rs, votado
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