J. C. P. está deitado. As luzes estão apagadas. O mundo todo anoiteceu ao seu redor. Na rádio toca The Strokes. O olhar impassível mira-se na brancura da parede caiada. O corpo se contorce, enovela-se sobre si mesmo, até atingir uma estranha forma, semelhante a uma concha. Os olhos têm um brilho estranho, os declives do rosto mantêm o mesmo ar inanimado. Sente vontade de chorar, mas não sabe por que. Uma angústia o invade, as mãos se desenlaçam, tornam-se frias, o corpo todo se retrai para explodir numa lágrima.
Segundo dados da Organização Mundial de Saúde existem aproximadamente 340 milhões de indivíduos em um quadro depressivo, algo em torno de 17% da população mundial. J. C. P. é um deles.
“A depressão é caracterizada por uma dor interna, um vazio; que tecnicamente chamamos de sofrimento psíquico. A vida acaba perdendo o sentido”, explica a psicóloga do Barral y Barral, Deborah Cristina Melo de Oliveira.
Sentido! Os pós-modernos não precisam de sentido, eles apenas “estão”. A vida interior cercada por seus dramas e angústias acaba se transformando numa miríade de cenas, a vida “teatralizando” a vida. J. C. P. é um pária. Ele precisa insistentemente ser feliz ou pelo menos parecer sê-lo. A “sociedade pictural” exige isso. Não estou fazendo um elogio à dor. Não, não é isso, estou dizendo que a felicidade se tornou um ato “aparente” e ridiculamente caricatural.
“Para tornar inteligível o mundo que nos cerca, nós o ‘teatralizamos’ a todo instante colocando-nos, relativamente ao real, numa posição homóloga à do público diante da cena”¹, e dessa alteridade forjada, retira-se o substrato sígnico de construção identitária. Cada pessoa torna-se um signo da moda, o coquetismo engole a vida. O indivíduo e sua existência interior tornam-se uma irrisão, factível apenas sob o apelo da cena.
¹LANDOWSKI, Eric. Presenças do outro. São Paulo: Perspectiva, 2002. (Pág. 186)
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