HISTÓRIAS SEM PÉ NEM CABEÇA 1 TEORIA E PRÁTICA DA OUNÃONABILIDADE

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Bia Marques · Campo Grande, MS
14/8/2007 · 59 · 7
 

Ele anda à toa na cidade plana, saboreia uma vadiagem opcional que já foi crime previsto numa (das muitas) velhas leis desse lugar, faz hora até o destino final do dia: a casa dela.
Talvez devesse surpreender levando flores.
Não, deveras piegas.
Quem sabe chocolate, pode saborear junto.
Mesas e cadeiras na calçada contrariando o vento frio do inverno seco. O conhaque desce quente garganta abaixo. Abraço sem compromisso.
Horas seguindo seu ritmo.
Segue o rumo.
Esse céu absurdamente estrelado com a lua safada rindo à toa.
Imagina todo tipo de acrobacia sexual e toca o interfone.
Ela atende a porta com o olhar brilhante de choro recente. A pele, a boca, tudo convidando, mais acrobacias entre neurônios entorpecidos pelo calor do destilado. Abre os braços embevecido e acolhe. Exaurida de forças ela chora baixinho.
O berço.
Estática.
Como é que é?
O berço não entra...
Espera, berço? Que berço?
Não entra... Desenhado a nanquim pra acolher o rebento. Fabricado por um habilidoso doutor graduado em sei lá quantas universidades, com fetiche de marceneiro e... não entra.
Está lá na sala, criando uma cena surrealista que dava um quadro “o berço de estar”...
Ela já se soltou do abraço e anda aturdida em volta do objeto de tanto desnorteio.
Ele, pasmo, acocora e embasbaca.
E uma noite promissora de frutos proibidos se converte numa sessão de pânico e terror geométricos.
Uma semana depois e o berço lá, tão feito pra durar que é quase impossível desmontar.
Ele na poltrona ainda embasbacado tentando matutar como sair desse labirinto de ferramentas e agonia. Saudade do conhaque e da volúpia.
Vitoriosa, ela – e o imenso ventre já tão cheio de personalidade – adentram a sala com um alicate de pressão.
Aos pedaços o berço entra. Agora é só montar e...
Aos pedaços os dois adormecem de puro alívio.
Tudo é, já foi, pode ser, ou não...

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Autoria
Bia Marques
Ficha técnica
Essa é a história sem pé nem cabeça n° 1 que eu tentei achar pra colocar em minhas colaborações favoritas e não achei, daí republiquei...
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AZnº 666
 

Tô sem cabeça pra responder, mas acho que vai dar pé. Texto muito bem escrito, com o suspense suspenso até o final.
Mas o Alicate?
Talvez não devesse ter achado, mas já que achou...

AZnº 666 · Rio de Janeiro, RJ 15/8/2007 17:55
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Bia Marques
 

Quanto tempo moço!

Bia Marques · Campo Grande, MS 15/8/2007 19:05
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Cida Almeida
 

Adorei, adorei, adorei. Que venha uma sequência longuíssima de histórias sem pé nem cabeça. Delícia de leitura. Luminosa escrita!

Beijo grande!

Cida Almeida · Goiânia, GO 16/8/2007 10:42
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
crispinga
 

Bia, querida!
Acoooooorda esse povo!
Bjk
Cris

crispinga · Nova Friburgo, RJ 16/8/2007 10:56
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Bia Marques
 

Mulheres que sabem da vida e da coisa toda, amo vocês...

Bia Marques · Campo Grande, MS 19/8/2007 00:50
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Rangel Castilho
 

Salve, Bia!

Já havia lido, mas é bom ler mais uma vez!

Muito bom.

Abraço Pantaneiro.

Rangel Castilho · Anastácio, MS 16/12/2008 16:02
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Bia Marques
 

essa é a sem pé nem cabeça que eu mais amo Rangel...

Bia Marques · Campo Grande, MS 16/12/2008 23:29
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