Ele anda à toa na cidade plana, saboreia uma vadiagem opcional que já foi crime previsto numa (das muitas) velhas leis desse lugar, faz hora até o destino final do dia: a casa dela.
Talvez devesse surpreender levando flores.
Não, deveras piegas.
Quem sabe chocolate, pode saborear junto.
Mesas e cadeiras na calçada contrariando o vento frio do inverno seco. O conhaque desce quente garganta abaixo. Abraço sem compromisso.
Horas seguindo seu ritmo.
Segue o rumo.
Esse céu absurdamente estrelado com a lua safada rindo à toa.
Imagina todo tipo de acrobacia sexual e toca o interfone.
Ela atende a porta com o olhar brilhante de choro recente. A pele, a boca, tudo convidando, mais acrobacias entre neurônios entorpecidos pelo calor do destilado. Abre os braços embevecido e acolhe. Exaurida de forças ela chora baixinho.
O berço.
Estática.
Como é que é?
O berço não entra...
Espera, berço? Que berço?
Não entra... Desenhado a nanquim pra acolher o rebento. Fabricado por um habilidoso doutor graduado em sei lá quantas universidades, com fetiche de marceneiro e... não entra.
Está lá na sala, criando uma cena surrealista que dava um quadro “o berço de estar”...
Ela já se soltou do abraço e anda aturdida em volta do objeto de tanto desnorteio.
Ele, pasmo, acocora e embasbaca.
E uma noite promissora de frutos proibidos se converte numa sessão de pânico e terror geométricos.
Uma semana depois e o berço lá, tão feito pra durar que é quase impossível desmontar.
Ele na poltrona ainda embasbacado tentando matutar como sair desse labirinto de ferramentas e agonia. Saudade do conhaque e da volúpia.
Vitoriosa, ela – e o imenso ventre já tão cheio de personalidade – adentram a sala com um alicate de pressão.
Aos pedaços o berço entra. Agora é só montar e...
Aos pedaços os dois adormecem de puro alívio.
Tudo é, já foi, pode ser, ou não...
Tô sem cabeça pra responder, mas acho que vai dar pé. Texto muito bem escrito, com o suspense suspenso até o final.
Mas o Alicate?
Talvez não devesse ter achado, mas já que achou...
Quanto tempo moço!
Bia Marques · Campo Grande, MS 15/8/2007 19:05
Adorei, adorei, adorei. Que venha uma sequência longuíssima de histórias sem pé nem cabeça. Delícia de leitura. Luminosa escrita!
Beijo grande!
Bia, querida!
Acoooooorda esse povo!
Bjk
Cris
Mulheres que sabem da vida e da coisa toda, amo vocês...
Bia Marques · Campo Grande, MS 19/8/2007 00:50
Salve, Bia!
Já havia lido, mas é bom ler mais uma vez!
Muito bom.
Abraço Pantaneiro.
essa é a sem pé nem cabeça que eu mais amo Rangel...
Bia Marques · Campo Grande, MS 16/12/2008 23:29Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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