Num Universo onde mesmo as estrelas são ameaçadas, nascer já é um ato de coragem. E então o homem nasce, corajoso, inocente, nu, sem segredos. No início depende de todos para tudo, mas seu instinto de sobrevivência é mais forte e o guia numa corrente sem freios, movida pelo dínamo da necessidade: o homem descobre como caminhar e se comunicar. E começa a aprender. E nesse ponto tudo começa a se catalisar num panorama caótico, onde aos poucos uma identidade é formada e a entidade espiritual original é maculada.
O homem aprende, mas o aprendizado é um bombardeio, um verdadeiro feixe de raios gama, às vezes contínuo, às vezes intermitente, porém sem dúvida sempre contundente, na medida em que seu impacto o transforma, de um ser inocente, nu e sem segredos para uma nova criatura, mais elaborada, provida de cultura e de argumentos, capaz de se articular e, no entanto, frágil na medida em que algo foi perdido, algo que por toda a vida poderá gerar um vazio na alma do ser original, algo que talvez nem mesmo todas as possibilidades de pensamento e interação com o sagrado sejam capazes de resgatar na pueril caminhada do bípede pensante sobre a Terra.
Vários caminhos podem ser seguidos pelo ser em aprendizado. Várias são as ilusões que podem fazer com que ele se enxergue no espelho como um ser perfeito, um quase Narciso, que seria completo se não fosse a impossibilidade do mergulho no "lago de vidro" que reflete sua dúbia imagem. Defrontado com o que pensa ser ele mesmo, o homem se engana, nas múltiplas facetas que o instrumento responsável por iludir os povos ancestrais do continente americano é capaz de produzir.
A busca do poder sobre os semelhantes pode torná-lo tolo o bastante para seguir o caminho político e deixar seus demônios à parte do jogo, na medida em que sua vida passa a ser a busca da eternização na forma de um busto de praça, ou ser eleito o nome de uma rua, obra pública, ou avenida. Este caminho pode ser coberto de aparente glória, mas a verdade é que sua maior fragilidade, apostar na iconofilia, desconsidera o fim inevitável da existência, e mesmo as ruas, avenidas e obras serão incapazes de resgatar a essência da coragem de nascer no Universo onde nem mesmo as estrelas são eternas.
O hedonismo certamente o levará aos prazeres supremos da mente e do corpo, mas como é sabido, na natureza tudo tem um preço, e o vácuo dos intervalos das orgias e festivais, o colocará em um terreno perigoso, muito próximo ao limbo do niilismo amoral, que poderá contaminá-lo de tal forma, que apenas em estados alterados de consciência se perceberá livre. Cedo ou tarde a deterioração química e moral, pode conduzi-lo à crueldade e morbidez, e neste ponto, o fracasso surgirá inevitável como a Lua cheia em um céu limpo de verão, cobrando o que foi varrido para debaixo do tapete... o eterno círculo de luz e sombra em seu giro de equilíbrio dinâmico não falha em ajustar as contas em tom de elegia com os desmandos desmedidos do glamour.
O homem pode vencer a ambição e a luxúria e ainda assim tornar-se incapaz de enfrentar seus demônios. Num Universo de tantos caminhos que poderíamos abordar, se fundem em simbiose duas figuras excêntricas no caminho do mestre e do discípulo. Nele a dependência é a palavra chave e a liberdade é suplantada, talvez possamos dizer ocultada em meio a um jogo onde uma conduta só é aclamada como válida quando é aceita por um indivíduo que se submete ao grupo. É o jogo da mente forte sobre a mente fraca. Perdidos no mesmo infortúnio, pólo positivo e pólo negativo, às vezes de maneira deslocada(passivo-agressivo e vice-versa), alimentam um círculo vicioso, onde a doutrina deturpa qualquer possibilidade de discussão fundamentada em argumentos da realidade que se apresenta: não há espaço para debates profundos onde um se coloca acima dos outros pelo que "sabe"(mesmo que de forma sutil, onde há um mestre, há um degrau, onde o guru é a fonte da luz refletida pelos satélites da periferia) e estes se omitem do embate interno na certeza de que tudo que buscam poderá ser fornecido por uma fonte exterior. Ledo engano! Ainda que seguida com a maior das nobrezas e boas intenções, qualquer doutrina só libertará se for um caminho que conduza ao embate interno, ao âmago das inquietudes, onde talvez, aí sim possa ser resgatada a coragem do nascimento num Universo, que a despeito de delírios, nem sempre(ou quase nunca) conspirará ao favor dos anseios egocêntricos de um indivíduo.
De qualquer forma, e haveria muitas ainda a citar, talvez infinitas, o homem se curva ao bombardeio. E se contorce interiormente para manter um exterior aparentemente harmônico. As soluções "modernas" desta idade da pedra digital que vivemos se apressam em enquadrar o ser em um modelo que resgate imediatamente seu caráter produtivo(e consumista). A partir daí, se o ser se declarar vencido pelo modelo normatizado, poderá ser considerado "normal" e tudo que vier dele será passível de se prever o resultado que será quase sempre "adequado", portanto, ele escapa de ser Giordano Bruno e arder na fogueira e acaba sendo o não menos nobre e valente Galileu Galilei, que vive para contar a história com consideráveis concessões e alguma "sorte".
Pode ainda tornar-se uma vítima passiva e se declarar culpado no julgamento, sendo então conduzido à inquisição dos consultórios, onde receberá pílulas e instruções até que se convença da sua "cura", quando na verdade, a curvatura de seu caráter é que passa a ser perfeitamente imperfeita: encaixado no molde, domado, culpado e até mesmo anestesiado(ou será dopado?) por medicamentos, o homem vira o embuste ideal, adoradamente aceito pelo status quo, com seus demônios contidos pelo melhor que a rudimentar tecnologia medicamentosa e o tacanho(para não dizer tosco) paradigma do zeitgeist psicológico auto-indulgente pode oferecer. O homem se perde nos alívios sociais e para ser aceito coíbe sua essência. Sua coragem torna-se rala e insipiente, fechando os olhos para o fato gravíssimo de que ter coragem se traduz em primariamente agir em harmonia com o músculo sentimental - segundo a raiz etimológica da palavra(cordis do latim, coração)...
Surge o vácuo! O mesmo que põe fim às estrelas!
Mas enfim, restará ao nosso herói homem alguma alternativa? Certamente que sim!
A hipótese Asteca de que Deus emanaria do centro da galáxia ordens que são filtradas, interpretadas e transmitidas pelo Sol, hoje é vista como objeto de estudo concreto pelos cientistas entusiastas da física quântica. A radiação gama, de fato percorre um longo caminho sideral até encontrar nosso astro rei, que com suas tempestades, explosões e ciclos, redefine a cada momento nossa natureza(vide, por exemplo, o formato das folhas das plantas que garantem nosso oxigênio). Assim, porque deveria o homem fugir do inevitável? Porque não absorver o bombardeio e aceitar a mutação que pode advir dele? Porque preferir a racionalidade incapaz e passiva ao retorno ainda que desgovernado à sua essência, pagando é verdade o preço social, mas religando-se de fato ao seu estado primário de coragem, inocência e autenticidade?
A resposta está no preço citado acima. Quando torna-se capaz de negar o que percebe como falso, leviano e fútil nas convenções do mundo e disposto a lutar pela sua integridade, o homem está propenso a se distanciar cada vez mais do terreno comum das coisas; é um arauto do caos e do desconforto no "paraíso" insípido da "normalidade" vigente aos olhos desatentos, ou mesmo aos olhos que aprenderam a perceber o lucro e as vantagens de vários âmbitos que a fragilidade moral da maioria pode trazer. Então, o homem frágil e normalizado que existia anteriormente, agora é de certa forma forte e perigoso para todos e para si mesmo, neste ponto, se configura como ameaçador à "ordem natural das coisas", inconveniente e pouco tolerável, um verdadeiro monstro aos olhos amedrontados e/ou ardilosos que se prontificam em julgá-lo e rotulá-lo.
Monstro, do dicionário "tudo o que é contra a ordem regular da natureza, animal que no todo ou em algumas das suas partes se afasta da estrutura ou da conformação natural da sua espécie". Ao se tornar um monstro, o homem não quer mais ver a sujeira varrida para debaixo do tapete, quer conhecer sua natureza. Ao se tornar um monstro, palavras doutrinárias se tornam vazias para o novo animal que só entende estímulo e atitude(ainda que seja um monstro da consciência, o homem é capaz de administrar impecavelmente seus atos por ser ainda dotado de coração). Ídolos são renegados pelo simples fato de constituírem em algo vazio aos olhos do animal que agora vê a fraqueza e a contradição presentes mesmo entre os supostos avatares e mestres eleitos pelo senso comum. A moda também pouco significa, uma vez que se revela infinitamente vazia na sua eterna incongruência de sazonalidades. Símbolos que antes eram capazes de levá-lo à atitudes descabidas em meio a um grupo se tornam pouco mais que formas sem sentido. Tudo que ele sabia desaparece e se esvai na medida em que agora é governado pelos impulsos mais primais. Seus medos passam a ser sua propulsão. Seus demônios são aliados cruéis que o instigam à próxima batalha na busca pelo seu limite. Sua raiva e seu ódio passam a ser sua força motriz. E pasmem, mesmo neste contexto iconoclasta e selvagem, o homem-monstro é capaz de discernir entre o que é mau e bom, simplesmente porque seu coração volta a pulsar de verdade, vigorosa e autenticamente, como uma supernova que emerge do nada para afirmar sua explosão no vazio do cosmos. Sua nova moral monstruosa é postada em alicerces muito mais sólidos que a pálida falsa moral anterior.
Ao invés de se aproveitar das mentes mais fracas, o monstro as ignora, ou talvez pelo seu exemplo inconseqüente, possa até influenciá-las a algum questionamento. Ao invés de procurar a segurança e a conveniência dos grupos, o monstro liberto procura a dificuldade, pois sabe que dali virá a sua força. Ao invés de procurar agradar e assim garantir sua aceitação, o monstro se move pela sua verdade e não cederá a qualquer brilho fátuo que não venha de um olhar que realmente possa tocar seu sentimento.
Imerso em fúria e coragem, o monstro luta contra o desespero e a angústia ao invés de fingir que eles não existem, prefere o desconforto da espreita(sem se importar com vitória ou derrota) no campo de batalha ao conforto cínico da busca da adequação ao que é socialmente definido como "pleno"(falsa plenitude, o refúgio final dos fracos- os que abriram mão de lutar por ser o que realmente são). No início tudo se resume a isso, fúria, luta e incerteza, mas dentro do monstro ainda há o homem, capaz de extrair força das suas fraquezas e superar seus limites enquanto duvida de si mesmo e então um novo horizonte se expande.
Se um dia, ambos aprendem a trabalhar juntos, então emerge um ser capaz de atingir sua redenção, não com o apelo sedutor de um messias, mas com a certeza crua de um sobrevivente, não com a poesia idílica dos édens utópicos, mas com a concretude polarizada do cenário e da época; alguém capaz de lutar contra o mundo sem querer destruí-lo ou doutriná-lo, alguém capaz de agir pelo bem sem as concessões maquiavélicas que a harmonia hedionda e dissimulada dos hipócritas e ambiciosos pode impor; alguém capaz de ser bom e justo, ainda que na superfície possa ser julgado como ser "anormal" e incontrolável; e se isto for realmente factível, estaremos diante de uma nova fronteira que todos poderão pretender atravessar: o retorno consciente à coragem, com o emprego da essência do nascimento a cada momento e a cada segundo. Muito antes do que uma utopia, será um grande passo para o monstro-homem, ainda que para a humanidade nada de especial pareça ter acontecido.
É assim que se move o homem-monstro, em pequenos saltos ousados(sem deixar de lado a cautela) pelo mesmo caminho trilhado pela maioria em passos mínimos, medrosos e claudicantes.
Um ensaio que interliga a mitologia do gigante esmeralda, Hulk, o conhecimento ancestral Asteca, a física quântica e os aspectos da arriscada luta contra o senso comum. A tênue linha em o despertar e a queda diante da percepção da fragilidade da normalidade. O monstro emerge do embate entre autenticidade e conveniência após um longo bombardeio educacional e comportamental que pode ser comparado a um feixe incessante de raios gama.
"DEMASIADAMENTE HUMANO"...Meu caro, você passeia por várias linhas de pensamento humanistas e naturais, recheia com reflexões metafísicas e realistas... Um texto rico, sóbrio, bem escrito e que versa sobre algo tão pertinente como o destino da própria humanidade, suas origens e infortúnios... É muito difícil ser gente, sempre foi na história humana, para isso se tinha a inquisição... O bicho homem não é tão passivo, mas sofre da amnésia de ser gente. É uma luta árdua, mas impresncindível. Parabéns e aguardo a votação. Forte abraço.
Cristiano Melo · Brasília, DF 4/6/2008 16:39
Contudo, acho que estamos inaugurando uma nova era. Não a já velha e conhecida “new age”. Mas uma era que se impõe lançando sobre nós a nossa própria verdade. E nela nos enxergaremos tão crus e nus que talvez nem nos reconheçamos.
Pasmos dos nossos pré(conceitos) veremos nossas impudicas eras estampadas nos milênios
Ouviremos histórias contadas por nossa própria semente. Ínfimo e vil o homem se notará apenas como “partícula” e talvez aí então ele realmente comece a se enxergar.
O “narcísico lago de vidro” estilhar-se a e somente “monstros” sobreviverão.
Seres mutantes de si próprios...
Beijos e beijos meu querido e sempre surpreendente Mustangue!
Tenho o prazer de abrir a votação para esse texto rico em conteúdo. Abraços
Falcão S.R · Rio de Janeiro, RJ 5/6/2008 17:50
Mas como tudo na existência é um círculo,tudo deve terminar como começou
Um beijo e votando
Muito legal essa tua humanização desse personagem famoso !
Um abraço !
Mustangue, brilhante ensaio.
Belas descrições do homem, desde sua criação.
Dissertaste com maestria.
Parabéns.
me apaixonei por seu texto.Meus votos e carinho.
Do irreal, conduz-me ao real!Das trevas conduz-me à Luz! Da morte conduz-me à Imortalidade! (Upanishad).
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Um grande abraço. jbconrado
Gostei!!! Interessante e verdadeiro seu texto. O homem nunca vai deixar de ser um animal que aprende de acordo com a sua nescessidade e na maior parte das vezes explorando o senso comum, mas que facilmente esquece este aprendizado movido por interesses escusos, riqueza e poder. Meu voto e parabéns !!!
Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 7/6/2008 14:30Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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