O mundo todo está aqui dentro

Helmut Newton
1
Srta T. · Brasília, DF
5/7/2007 · 72 · 3
 

“ (...) tão longe estamos do mundo que não tarde que comecemos a não saber quem somos, nem nos lembramos sequer de dizer-nos os nomes, nenhum cão reconhece outro cão, ou se lhe dá a reconhecer, pelos nomes que lhe foram postos, é pelo cheiro que identifica e dá a identificar." Ensaio sobre a cegueira, pg. 64; 18° reimpressão - Companhia das Letras.

Uma das maiores expressões da bibliografia do escritor português José Saramago é Ensaio sobre a cegueira. Trata-se de um romance esmagador, capaz de derrubar os véus que encobrem a verdadeira face dos homens e suas regras. O leitor é impulsionado a encarar o reino cruel e implacável dos cegos por meio do “mal branco”, uma espécie de cegueira que se espalha por toda a cidade. O cheiro fétido das latrinas, o odor de suor acumulado, medos, as lutas por comida e sexo desvelam a face de um lugar visceral, um manicômio ou o labirinto racional que as cidades vêm se tornando.

O primeiro cego é um motorista que para no sinal. O segundo, o ladrão que o rouba o carro do primeiro. Aos poucos, todos os moradores da cidade serão acometidos pela mazela, menos “a mulher do médico”. Por ordem do governo, enquanto não são apuradas as causas e a cura do surto epidêmico de cegueira, denominado “mal branco”, os personagens da trama são isolados em um manicômio desocupado. Ali, serão obrigados a desafiar a perda da visão, seus próprios medos e conviver com os outros “sem mão de guia nem trela de cão”.

Saramago atenta ao fato de que nosso modelo social, o capitalista, se sustenta na percepção do mundo, tal como o funcionamento integrado de todos os nossos sentidos. Quando a visão, em escala catastrófica, desaparece frente à proliferação da epidemia, abala toda a maneira dos homens interagirem entre si. Esse “atuar encoberto pela nevoa branca” proporciona o homem agir com a ciência de que ninguém o verá. Aflorada a possibilidade de um agir sem restrições, os homens cegos passam a ter atitudes animalescas.

Um bom exemplo, é o forte cheiro de urina das camaratas. Um cego, ciente de que os outros não o notariam ao urinar, se permite fazer as necessidades em qualquer lugar, e isso compromete a todos os indivíduos que residem no manicômio. Saramago mostra que a hierarquia de valores reside na possibilidade de percepção das ações, tanto para as monitorar como para as punir.

Os personagens do Ensaio não possuem identidade. O primeiro cego, o ladrão do automóvel, o médico, a mulher do médico, a rapariga de óculos escuros, o rapazinho estrábico, o velho da venda preta, entre outros, saberão que ali isso não terá importância. Ao negar a identificação, José Saramago deixa o espaço para que o leitor faça suas reflexões e associações – ou apenas se coloque no lugar do personagem e assuma alguma responsabilidade diante dos fatos.

A mulher do médico é uma das maiores curiosidades do livro, pois funciona como uma espécie de alegoria da responsabilidade e da esperança. Diante de um mundo onde estão todos cegos e voltados si mesmos, a única que vê, têm tarefa de abrir olhos todo dia pelos outros.

Segundo a crítica, José Saramago é um homem pessimista e isso se reflete em sua obra. Ele esteve no Brasil em Outubro de 2005 para lançar seu 20° livro, As Intermitências da morte. Em entrevista teve a oportunidade ou o desgosto de retrucar mais uma vez aos insistentes “Não sou pessimista, o mundo que é péssimo”. Segundo o escritor comunista, seus escritos se orientam pela crítica ao mundo que ele vê - um mundo de crueldade e violência, demais insensível pra ser humano.

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informações

Autoria
Tamara Costa
Ficha técnica
Resenha da obra "Ensaio sobre a cegueira", de José Saramago
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Benny Franklin
 

Amigo, excelente texto. Blz. Pura inspuração. Abçs.

Benny Franklin · Belém, PA 1/7/2007 17:49
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paulinha bsb
 

excelente!!! o livro é desconcertante. provoca reflexões profundas... gostei da resenha.

paulinha bsb · Brasília, DF 4/7/2007 19:07
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Humberto Firmo
 

Ai, deu vontade de ler o livro.
já conhecia o Saramago por partes de textos na sala de aula

Esclareceu, vou ler.

Humberto Firmo · Brasília, DF 3/8/2007 13:20
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