ONDE ESTÁ UÓLI AGORA?
Nascido em São Paulo, décadas atrás, meu amigo Uóli conta que recebeu este nome, aportuguesado, dos seus pais, que eram fãs do personagem Wally, daquela série de livros “Onde Está o Wally”, lembram? Pois bem. Uóli decidiu largar a insegurança, a poluição e o trânsito de São Paulo e foi viver em um município deste Brasil. Vamos ver qual dos leitores adivinha onde está vivendo o meu amigo Uóli neste momento. Para isso, darei uma série de dicas valiosíssimas sobre a cidade, OK?
Trata-se de uma cidade com geografia de balneário e mentalidade de aldeia.
No verão, a maioria não é turista, é veranista, que vai para a tal cidade para curtir, mas muitos, muitos mesmo, depredam, fazem algazarra, dão tiros, promovem desordem, ouvem funk no último volume, enfim, não respeitam ninguém.
Quem vai para aquela cidade a fim de passar alguns dias ou uma temporada, ama aquilo lá. Aí, um ou outro, decide comprar um imóvel ali e mudar-se definitivamente para aquela cidade. Em dois ou três meses, o sujeito se arrepende. Uóli já conheceu alguns.
Quem é de cidade grande e vai morar naquela cidade sempre fica deprimido. Estatísticas que Uóli colheu ao longo destes anos todos nos muitos consultórios que freqüentou, principalmente os psiquiátricos.
Aquela cidade não chega a ter 300 mil habitantes fixos.
A religião predominante (não posso falar qual é) faz de muitos de seus fiéis fanáticos obtusos e tacanhos. Alguns, num certo programa de rádio, dizem que “acupuntura, ioga, meditação, enfim, essas práticas orientais, têm o demônio por trás”. Uóli ouviu isso e ficou calado, afinal como ele poderia argumentar contra cerca de 90% da população que segue a tal religião?
A cidade fica relativamente próxima (algumas horas de viagem, de carro) a grandes bacias petrolíferas, só que o litro da gasolina por lá chega a custar R$ 1,00 a mais que em muitos postos de São Paulo, capital.
O preço dos imóveis é absurdo, haja vista que aquela cidade, tirando as praias, não tem nada! Para se ter uma idéia, uma cobertura na praia principal, o point do verão, chega a custar o equivalente, em dólares, a uma mansão em Miami! Uóli sabe, pois ele está sempre antenado a essas coisas.
Alguns moradores da cidade chegam no comércio e não se dignam a usar as palavras “por favor” e “muito obrigado”. Eles acreditam que ficarão mais pobres se forem educados.
O preço da passagem de ônibus é um dos mais altos do país. E só uma empresa, apenas uma, presta serviço (serviço???) ao município e regiões vizinhas. Isso significa que, se amanhã, a empresa achar que a passagem deve subir para R$ 5,00, sobe e está acabado, pois tem o aval de meia dúzia de poderosos que governam a cidade.
Falando nisso, Uóli descobriu que aquela cidade tem meia dúzia de “xerifes”. O que eles decidem é lei, e ponto final. Câmara dos vereadores, para quê???
A cidade, pelo menos, tem um shopping. Ele é tão grande que Uóli tão logo chegou àquela cidade quis ir visitá-lo. Deu um passo e entrou no shopping; no passo seguinte, estava na rua, do outro lado.
O comércio é um lixo. O que prolifera são lojas de calcinhas e lan-houses. Muitas, o Uóli acha que só podem ser clandestinas, pois conseguem cobrar apenas R$ 0,75 a hora de utilização do computador e da internet!
Aquela cidade, pelo que o Uóli conta, é a que tem a 5ª conta de luz mais cara do Brasil. Por mais que Uóli economize energia elétrica, suas contas nunca vêm abaixo de R$ 100,00, enquanto o mesmo consumo apurado em São Paulo gera uma conta ao redor de R$ 55,00. E o que tem de gato naquela cidade (não estou me referindo ao felino doméstico) não é brincadeira!
Um dia, Uóli foi a uma farmácia atrás de uma simples esponja de banho. A balconista lhe informou que tal artigo estava em falta, mas que, na temporada, o teria disponível. Uóli, então, pensou: “O pessoal desta cidade só toma banho na temporada???”.
Uóli decidiu passar suas fitas VHS para DVD. Para isso, precisava de álcool isopropílico para limpar os cabeçotes do aparelho de vídeo-cassete. Foi à única loja que poderia vender esse produto e... segue o diálogo:
ÚOLI – Boa tarde! Tem álcool isopropílico?
DONO DA LOJA – Não. Acabou.
UÓLI – Faz tempo que acabou?
DONO DA LOJA – Uns dois ou três meses, eu acho...
UÓLI- Mas tem muita gente que ainda procura álcool isopropílico?
DONO DA LOJA – Sim, muita gente vem aqui atrás de álcool isopropílico...
UÓLI – Ah, que bom! Quando é que você vai fazer o pedido, para eu vir aqui e não perder a viagem?
DONO DA LOJA – Não sei.
O trânsito daquela cidade é terrível, mesmo ela sendo pequena. Na temporada, nem se fala. Para andar 10 centímetros, Uóli disse que seu carro demorou mais de 20 minutos. E eu acredito nele.
Uóli é jornalista. É, de verdade. Tem MTB e tudo. Aí, ele percorreu alguns jornais da cidade com propostas inovadoras. Além de não ser atendido em alguns, em outros foi elogiado por suas idéias, mas estas só vingariam se ele chegasse patrocinado, isto é, se ele, um jornalista, desse uma de captador de anúncios, e perdesse o dia todo na rua tentando vender anúncios. Entre as propostas que Uóli apresentou estavam: coluna de variedades, curiosidades, estatísticas, passatempos, palavras cruzadas, enfim, muita, mas muita coisa que nenhum jornal daquela cidade tem.
Mas pensam que o Uóli desistiu fácil? Não! Ele bateu perna pelo comércio da cidade e, entre outras coisas, ouviu o seguinte de um comerciante, um cara cheio do tutu na época: “Escreve lá a sua coluna, fala do meu comércio e, dependendo, eu anuncio, tá bom?”.
Uóli pensou em um programa de rádio. Investigou e foi até a emissora líder de audiência na cidade. Propôs um programa dominical, para o fim de noite, só com músicas do passado e instrumentais, justamente para relaxar o ouvinte e prepará-lo para a segunda-feira. O dono da rádio achou a idéia sensacional, mas disse a Uóli que ele teria que comprar o horário e correr atrás de anunciantes.
Foi aí que Uóli pensou consigo mesmo: “O esporte preferido dessa gente só pode ser corrida”.
Uóli, que nunca teve problemas para dormir (aliás, dormia até demais...), passou a ter insônia, pois foi obrigado a ter que agüentar a cachorrada da vizinhança latindo o dia todo, principalmente de noite e de madrugada. Foi aí que Uóli conheceu os famosos remédios de tarja preta. Está viciado neles. Gozado, Uóli tem bicho de estimação e o seu bicho não perturba ninguém...
Por falar em remédios, Uóli nunca gastou tanto dinheiro em farmácia como gasta naquela cidade onde mora. É que ele passou a ser depressivo, tem um problema degenerativo nos discos vertebrais, vitiligo, e por aí vai. Quando Uóli entra na farmácia o vendedor já esfrega as mãos, pensando na comissão que irá ganhar depois.
Uóli reparou que o povo tem o costume de colocar o carro sobre a calçada, o que é proibido pelo Código de Trânsito, em seu artigo 181. Trata-se de uma falta grave. Os vizinhos dele, mesmo os que não possuem automóvel, justificam que a rua é estreita e o dono do carro vai colocá-lo onde? Uóli morou numa cidade onde a lei existe e quem mora em prédios que não contam com garagem tem que se virar para estacionar ou guardar o carro. Se deixar na rua, é guinchado quase que imediatamente. Aí, Uóli, revoltado com essa permissividade toda, pensa em chamar a polícia, mas desiste, pois logo é informado que o cidadão X, o Y e o Z são “assim com os hómi”.
Ah, Uóli também não gosta dos supermercados da cidade. Não tem nenhum que preste. O “menos pior” é caro pacas; o que alega ser barateiro, além de cobrar preços absurdos (a população daquela cidade é de maioria humilde) tem o costume de desligar a geladeira onde ficam os hambúrgueres, pizzas, salgadinhos..., no final da noite, deixando apenas as lâmpadas acesas, para dar impressão de que a mesma está funcionando. O açougue é uma lástima, pois Uóli conhece uma pá de gente que comprou carne estragada lá. Uma mulher, inclusive, quase morreu por intoxicação: o frango, anunciado como "fresco" estava podre!
Outros dois supermercados fedem mais que gambá. E um desses não tem espaço suficiente para duas pessoas gordas andarem lado a lado na mesma seção. Ah, o açougue desses dois também não tem higiene alguma.
A violência existe, mas as autoridades locais fazem de tudo para que o povo e os que vêm de fora não fiquem sabendo. Só sai notícia de roubo, crime etc quando não tem mesmo jeito de esconder.
Qualquer um que esteja no poder não vale de nada, pois a cidade não progride, não cresce. Mas o pessoal daquela cidade não esquenta, não. Quer um exemplo? Toda vez que falta luz na casa do Uóli, é ele quem pega o telefone e fica quase meia hora pendurado, esperando ser atendido. Reclama das constantes faltas de luz, anota um protocolo, que é um número enorme, e a coisa ficava por isso mesmo. Só numa temporada, de janeiro e fevereiro, Uóli contabilizou mais de 30 interrupções, que variaram de 1 minuto a 3 horas, o que o fez perder vários no-breaks, fontes de computador etc. E o Uóli quando reclama com algum vizinho sobre isso, ouve pérolas como esta: “Isso sempre aconteceu aqui. Não esquenta”.
Uóli, um dia resolveu ir a São Paulo, mas de avião. Naquela cidade tem aeroporto internacional! Sim, é verdade. Então, Uóli telefonou para o Aeroporto Internacional e perguntou se havia algum vôo regular daquela cidade para São Paulo e vice-versa. O atendente disse que NÃO SABIA!
Aquela cidade já tem um porto, e pelo que Uóli apurou, até transatlântico pode aportar por lá. Mas parece que tem apenas o porto e nenhum comércio nos arredores. Ou seja: os turistas chegam e... não vêem nada, só os táxis que estão ali perto. Só.
Ah, ele nunca gastou tanto em manutenção de computador como naquela cidade. O povo é de maioria humilde, como eu já disse, mas o Uóli fica abismado como o preço das coisas é alto.
Um dia caiu uma chuva daquelas. Em 4 horas e meia, cerca de 150 mm. A casa onde Uóli vive ficou com 4 dedos de água de altura. Foi aí que ele perdeu mais dois no-breaks e um estabilizador de voltagem, livros importados, revistas, sapatos... Uóli, como é curioso, descobriu que a empresa responsável pelo abastecimento de água do município “simplesmente fechou as comportas para a água não ir para não sei que lugar”. Não fossem os bombeiros terem interferido e a maré, naquela noite, estar baixa, os prejuízos na casa onde Uóli mora teriam sido muito maiores.
Em suma, Uóli afirma que nunca morou tão mal em sua vida. Aí, os caros leitores vão perguntar, em coro: “Então, Uóli, por que você não vai embora?”. É que Uóli agora está sem dinheiro para viajar até a esquina. Ele, na verdade, caiu de pára-quedas naquela cidade, pois conheceu uma vigarista na internet, que encheu a cabeça dele de sonhos e mentiras e acabou levando-o para lá. Depois de quase dois meses, deu-lhe um chute no traseiro e, com muita lábia, o convenceu a ser inquilino dela, extorquindo de Uóli cerca de R$ 500,00 por mês. Esse valor era referente ao aluguel, despesas de luz e água (ele sozinho pagava por um batalhão na hora de dividir as contas) num lugar cheio de baratas, cupins, lacraias e até ratos, isso sem falar nas dezenas de goteiras que havia no quarto onde ele dormia.
Um detalhe: ele pagava aluguel para a vigarista supracitada, sendo que a mesma vivia, e até hoje vive, em regime de comodato numa casa secular, e a verdadeira dona da casa nem imagina que também foi lesada por essa cidadã (cidadã???) sem escrúpulos.
Hoje, Uóli vive com uma mulher decente, digna e honesta. Mas Uóli não é feliz naquela cidade. Nada ali o agrada. Ele não tem um amigo sequer. Conhecidos, tem aos montes, mas amigo, amigo mesmo, ele não tem.
E de quem é a culpa? Da vigarista já mencionada? Não! A culpa é do Uóli, que vai se abrindo como um leque para qualquer pessoa que entra na sua vida. Agora, agüenta, Uóli!
Apesar de estar na categoria FICÇÃO, o texto é totalmente verídico. É claro que foi feito um jogo de palavras com o personagem Wally, da série de livros "Onde Está o Wally".
Escreve mto bem.
és um escritor dos bons.
mas espero que a continuidade ( e tomara q haja)
venha em partes... o tempo é cada vez mais limitado, entende?
boa cronica.
bjssssss;)
Obrigado pelos elogios, Cláudia! Ah, com certeza a depressão que me assola (ou assola o Uóli?) vai fazer o meu espírito crítico-criativo derramar mais algumas palavras a respeito da cidade mencionada na crônica. Acredite, existe um lugar assim!
Beijão para você e... Feliz Páscoa!
André
Texto muito divertido, mas achei longo para uma leitura sem intervalos. Desvende o segredo desta cidade logo.
Um abraço afetuoso, Faraó
Faraó, o segredo, neste caso, é a alma do negócio. É um texto longo, sim, meio cansativo, pois só se vê crítica, parágrafo a parágrafo. Resolvi usar esse estilo para mostrar que é difícil escolher hoje onde viver: cidade grande ou pequena? Cada uma com suas qualidades e defeitos. Mas esta "onde o Uóli mora" supera todas, eu acho.
Obrigado por ler o meu texto até o fim, por ter feito um comentário e pelo abraço.
Abração e boa semana!
André
Vai ter continuação?
adorei! fiquei curiosa e com vontade de conehcer uóli e a cidade.
beijos
Andressa, obrigado por ler mais um post meu. Deve haver continuação, sim. A cidade onde o Uóli vive o surpreende a cada dia que passa. A última, ele ficou sabendo ontem: parece que a prefeitura demitiu 700 funcionários e para ocupar os lugares vagos só contrataram evangélicos!
Em São José tem algo parecido com a cidade onde o Uóli mora? Eu acredito que não, pois amo o povo do Sul. São educados, refinados e amigos. Nada contra as demais regiões do Brasil, afinal eu e o Uóli somos de São Paulo, capital.
Beijão!
André
Acredito que não tenha, tirando o fato de que aqui se encontra muita de gente 'de fora',mas que também são do sul (como eu que não sou daqui, mas do estado vizinho(RS) )
O Complicado na estória de uóli, é que da maneira como encontramos pessoas que agem como agem "aí" com ele, ele SÓ encontra pessoas assim.
Complicado, o comodismo é o pior dos pecados.
Aguardo ansiosa pela continuação.
Beijos, querido.
Obrigado pelo novo comentário, Andressa. Vou sair agora, mas depois te envio um recado te contando mais coisas. Principalmente as 8 depressões que tive nestes 6 anos aqui. É jogo duro!
Beijão!
André
Gostei
Será que Uoli mora no Rio de Janeiro onde tudo
se tece e acontece?
bjs
Doroni, obrigado por ler meu post. Você está chegando perto...
Beijos!
André
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