Quando os elefantes querem o céu

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Luiz Cabelo · Porto Alegre, RS
19/2/2009 · 122 · 16
 

Mais uma manhã como outra qualquer, o despertador soou as seis horas, ainda meio sonolento levanto da cama e tropeço ao tentar encontrar meus chinelos que conduzirão meus passos cambaleantes até o banheiro, ligo o chuveiro que é parceiro fiel na difícil tarefa de manter-me acordado, o xampu que escorre até meus olhos termina a labuta, acaba com qualquer resquício de sono que por ventura ainda rondasse meu despertar. O café já perfuma toda a cozinha, só quero sentir o meu paladar invadido pela pretura estimulante da cafeína, mais uma companheira dos meus inícios, meios e finais de dias sucessivos de pura repetição, algumas vezes agradáveis mas na maior parte do tempo puro devir, horas que se arrastam como um elefante com suas patas traseiras quebradas. Penso no ônibus que me espera e que daqui alguns minutos completará o peso de meu corpo sobre minhas patas quebradas; gente espremida com rostos mal dormidos como o meu, possuidoras de pés tão deformados quanto os que carrego e me carregam, uma manada de elefantes defeituosos, decrépitos, que movem e se movem no transporte coletivo, nas empresas, nos shoppings, deveríamos por fogo em tudo isso, pois foram eles os causadores de nossas deformidades.


Respiro fundo enquanto preparo um sanduíche de mortadela e queijo que será meu dejejum, um prazer simples que dissimula o meu destino previsto numa borra de café cética, ascética, meu único passo lógico a dar, é dado, uno as duas metades do pão divididas por fatias de meu prazer vulgar, levo-as em direção ao meu rosto, instintivamente ou talvez na intenção de saborear oniricamente o sanduíche, fecho meus olhos, abro minha boca, mas sinto os frios envolverem minha cabeça juntamente com o cheiro de pão, mortadela e queijo, dentes afiados parecem rasgar a carne de meu pescoço, daí em diante não sei o que aconteceu, apenas sei que acordei em uma arquibancada de circo, dormi sem querer no ombro de minha mulher uma elefanta, no picadeiro, bichos homens de quatro pés realizavam piruetas ao estalar do chicote, ao final do espetáculo, todos nós elefantes levantamo-nos, bípedes, com nossos filhos e esposas entramos em nossos confortáveis automóveis e conversamos durante o trajeto de volta para casa sobre, as condições dos bichos homens nos circos, nos zoológicos e nos trabalhos de carga.

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wancisco franco
 

Uma pérola, Cabelo!
Narrativa vigorosa e, interiormente, concisa.
Pinta um elefante a dançar na cristaleira, sem quebrar nada.
Parabén!

Ah, tbém tô em edição.
http://www.overmundo.com.br/banco/voo-de-galinha

abs

wancisco franco · São Paulo, SP 16/2/2009 21:26
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Elio Cândido de Oliveira
 

inicio seu votos. Mas o prazer de ler um texto belissimo.
Parabens meu amigo.
Bom dia

Elio Cândido de Oliveira · Ibiracatu, MG 18/2/2009 08:50
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raphaelreys
 

E um verdadeiro zológico humano meu caro cronista! Meu votos e meu abraço o elefante!

raphaelreys · Montes Claros, MG 18/2/2009 11:02
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Ivette G.M.
 

Utilizando o elefante como metáfora, você dá bem uma idéia do peso que nós, os modernos, carregamos, neste pesado mundo globalizado.
Parabéns e votado.
Ivette G M

Ivette G.M. · Cotia, SP 18/2/2009 12:11
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wancisco franco
 

Votando...!

wancisco franco · São Paulo, SP 18/2/2009 14:42
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alcanu
 

Um elefante nunca...
esqueci !

alcanu · São Paulo, SP 18/2/2009 15:14
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O NOVO POETA.(W.Marques).
 

texto maravilhoso amigo.votei com gosto.

O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 18/2/2009 15:32
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Cláudia Campello
 

...e a vida é mesmo um circo, onde cada um tenta representar o seu papel. E docemente e obedientemente (condicionados), tais como os elefantes, vamos à plateia...
é a roda vida... mas meu poeta, ñ somos melhores e mais felizes...por preguiça mesmo, né não ?!

adorei o texto.

bjsssssssssssss ;)

Cláudia Campello · Várzea Grande, MT 18/2/2009 16:27
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Luiz Cabelo
 

Obrigado pelos comentários sempre enriquecedores, que só comtribuem ao meu aprendizado!

Luiz Cabelo · Porto Alegre, RS 18/2/2009 21:08
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Wellington Coelho
 

O título já remete a tanta arte.
Votado parabéns!

Wellington Coelho · Belo Horizonte, MG 18/2/2009 22:42
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Flávio Guedes  - Pensamento Livre
 

Que... que.... sem palavras! Votadíssimo!!

Flávio Guedes - Pensamento Livre · Oeiras, PI 18/2/2009 23:25
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Stella Tuttolomondo
 

Luiz, escreva sempre, é uma delícia ler o que você escreve! Depois de horas e horas a fio de trabalho é muito bom relaxar com uma boa leitura. Obrigada e parabéns!

Stella Tuttolomondo · Rio de Janeiro, RJ 19/2/2009 00:01
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Raiblue
 

Fantástica metáfora da nossa sociedade!

Uma grande narrativa que nos envolve e nos faz pensar sobre esse circo que é nossa sociedade e o nosso papel nela(ou nele, o circo)
...de cidadãos a elefante...vamos nos arrastando pesademente nesse espetáculo sem aplausos nem magia...um globo da morte...

Adorei!
Parabéns ,Luiz,meu querido!!!
bjkitas azuis
Blue

Raiblue · Salvador, BA 19/2/2009 23:24
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N.Lym
 

Metáfora magnífica, Luiz! Fiz bem em vir aqui hoje. No fundo, ainda somos brutos animais mesmo...
Votado!

N.Lym · Fortaleza, CE 20/2/2009 00:42
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Luiz Cabelo
 

Obrigado pelos comentários tão enriquecedores, incentivam-me!

Luiz Cabelo · Porto Alegre, RS 20/2/2009 00:51
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autografado
 

Olá Luiz! Te leio pela primeira vez. Todo cotidiano nos leva a reflexão. Ser humano imcompleto. Todo esse gigantismo que nos cerca, comprime, incomoda. Muito bem feito seu texto. Voltarei.

X

abç
aut!

autografado · Presidente Prudente, SP 20/2/2009 18:01
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