Sempre assim: indecente

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Ramiro Bavier · Palmas, TO
3/1/2007 · 84 · 1
 

Quando penso em escrever algo e me fogem as idéias, palavras, me refugio no indecente, nesse escondido que a gente teima em tapar ao longo da vida, mas que cola em nossa mente como um chute para a criação. Se parto do belo, da conjugação ordeira das palavras ou do caminho linear das frases, me perco como as reticências - estas que deixam espaço para a omissão. Escolho as reticências ao inverso, as que nunca seguram os que não têm muito a dizer - os pobres de oração. Vim assim. Vejo-me assim: indecente.

Aproximo-me do Cântico Negro, do "prefiro escorregar nos becos lamacentos" do poeta José Régio. Eu aliciado, cortejado. Eu enquanto menino que ainda esticava, enquanto pernas e pêlos que ainda endureciam. Indecente, traidor. Foi dor. Era indecente, mas infinitamente apaixonante. Explodia quando não mais me deixavam agüentar, para depois voltar para casa, calado, aliviado, traidor.

Escrever assim parece avesso. Também dói – com a permissão do João Ubaldo Ribeiro. E não quero falar do vento, do próximo. Não quero falar de coisas, quero falar de gente, de mim, colado a mim, só a mim. Não pergunte o que digo. Toque. Experimente. Puxe a cortina, deixe a loucura te rasgar, mas não te entregues a ela. Entrega-te a ti mesmo, a pessoas, muitas, a cheiros, mãos, pernas, bocas. Depois volte a dormir. E antes do depois, ria de você, esfregando sua alma no banheiro.

Era eu ali, deitado num chão que não era o meu, sob e sobre um colo que há pouco e muito me espiava. Entro, saio, subo, fico, deixo, explodo. É indecente, mas é hoje e vai acabar. Volto para casa. Pelo caminho, sinto e dou risadas. Não vejo nada. Volto para começar de novo. Nascer de novo. Explodir de novo. E não me pergunte o que faço. Puxe a cortina. Nada estará mais lá. Eu, já em outros chãos, estarei à procura de mim, dos meus pedaços, inteiros. Um a um. Inteiro.

E assim me respiro indecente, para afogar a mim, numa tentativa de criação ou de qualquer coisa alguma. Mas exijo que me deixem no ar, suar, jorrar, pois só assim renasço, para me ver na janela, "pulando ela", fugindo dela, porque sempre me entreguei às e nas vielas.

E depois de ir e regressar, num ciclo vicioso de uma vida cheia de graça, me perco, me encontro, sem querer mais me achar. Nem mesmo a cortina estará ao meu lado, esta que o tempo queimou e apagou. Agora estarei nu, de pernas e pêlos esticados, puxando a mim mesmo. O que eu senti já se foi. É hora de chegar de novo, de me perder de novo, assim: indecente.

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Autoria
Ramiro Bavier
Ficha técnica
é jornalista
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Carlos ETC
 

Quanta verdade, companheiro! Gostei!

Carlos ETC · Salvador, BA 3/1/2007 01:38
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