Apaziguador de diferenças

Adriana Küchler
1
Demetrio Panarotto · Florianópolis, SC
8/3/2006 · 145 · 0
 

Música eletrônica autoral, é por essa praia que transita Nery Bauer. As influências em seu trabalho, segundo o artista, passam pelo jazz (Miles Davis, Thelonious Monk, Dave Brubeck, Stan getz), rock, música erudita (Karlheinz Stockhausen, Edgar Varése, Pierre Schaeffer, Erik Satie, John Cage), batidas, ritmos e artistas brasileiros (Cama de Gato, Nouvelle Cuisine, Egberto Gismonti, Hermeto Pascoal) e uma pitada de experimentalismos (Nery se dedica a tirar sonoridades de vários objetos, como panelas, chaves, brinquedos de criança, e essas sonoridades, independente do resultado, melódico ou percussivo, passam a dialogar com o universo musical do artista).

De que forma é possível juntar todas essas informações? A palavra que encontrei para pensar o trabalho deste apaziguador de diferenças foi diálogo. Ou seja, colocar elementos musicais que, aparentemente, não combinariam (será?) para conversar (discutir) e tirar destas conversas ruidosas simplesmente música. Claro que isso não é uma tarefa muito simples, pois os diálogos podem se esgotar e se tornar repetitivos, mas isso não ocorre, afinal de contas, o próprio artista, até o momento, não permite que isso aconteça, pois está sempre em busca de outras informações conflitantes que possam ser trabalhadas.

Vejam vocês, o trip-hop - Massive Attack, Morcheeba e Portishead - teve uma contribuição maior para a sua produção, mas foi perdendo espaço para outras referências que, aos poucos, foram incorporadas e serviram de informação, em especial, para os trabalhos recentes. Não que Nery tenha deixado de escutar esse estilo ou aquele, o que acontece é que alguns estilos que em um passado recente tinham uma importância maior nas inquietações do artista, neste momento, quem sabe, estão esgotados. Isso faz com que esse esgotamento, nestes últimos tempos, ceda espaço para outras experiências, outros diálogos, outras inquietações (Space Age - Martin Denny, Enoch Light e Les Baxter - é o estilo que, segundo Nery, ultimamente, merece atenção especial. Talvez possa interferir no trabalho ou, simplesmente, servir como uma porta de entrada para outras informações).

Essas mudanças que ocorrem gradativamente podem ser observadas nos trabalhos lançados. As inquietações musicais que poluem a cabeça do artista neste exato momento talvez sejam percebidas daqui a um tempo. Mas aquelas que faziam com que o artista perdesse horas de sono um tempo atrás podem ser notadas nos singles lançados pelo selo inglês Fluid Ounce. Ou ainda, na música Dolce far Niente, que integra a coletânea Future World Funk: Urban Brazil ? lançada pela gravadora Stern´s Music, em 2003, em Londres, e que conta com a participação de vários outros artistas brasileiros.

No primeiro single, lançado em 2003 - um EP com duas faixas: Diana by Starlight e Mercado do Porto - as músicas se apóiam exclusivamente em sample; por sua vez, no EP de 2004, com as músicas Maharaja, Transformnin e Blepharospasm, o sampler continua presente, mas desta vez dialogando com sintetizadores, voz, violão, guitarra e teclado (executados pelo próprio Nery), contribuindo de forma interessante para um desdobramento de informações. Isto é, no segundo trabalho, a musicalidade do artista apresenta uma outra forma de intervenção, por que não, mais impactante, atingindo sonoridades que permanecem, muitas vezes, conflitantes, em um sutil estado de tensão (coisa que, com as informações de agora, ganham desdobramentos nas músicas que ainda permanecem na gaveta, mas que devem ser lançadas, alguma coisa pelo menos, durante este ano de 2006 - insisto nisso, pois tive a oportunidade de escutá-las e esses desdobramentos estariam em um plano de observação).

Onde Nery Bauer se apresenta talvez seja a maior interrogação. As apresentações - Live - são escassas e, mesmo em Florianópolis, sua cidade natal, labuta com ardor para conseguir espaço para que elas aconteçam. Estas se dividem em dois momentos, um deles mais autoral, e o outro em que Nery trabalha com o repertório de outros artistas. No currículo, dois shows representativos, um em 2004, ano que se apresentou no Festival Isto é Música?/!, no Rio de janeiro, e outro em 2005, na casa noturna Dama de Ferro, também no Rio.

Além do trabalho solo, Nery tem em andamento outros dois projetos, Música Expandida (na companhia de Marcelo Birck e Dalner Barbi), projeto aprovado pela Lei de Incentivo a Cultura do Estado de Santa Catarina; e Solenóides, com Mario Cavalheiro, um projeto de música eletrônica com voz e carregado no rock and roll, funk e funk carioca. Compôs, ainda, a trilha sonora dos documentários catarinenses Metropol: Historias que a bola esqueceu (2001) e A Calçada (2002). Deste repertório citado, diante da dificuldade de encontrá-lo no mercado, alguma coisa está disponível na página do artista: http://www.nerybauer.com/#.

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