As Cores e a História de Cinema, Aspirina e Urubus

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bacamarte · Santos, SP
9/5/2007 · 170 · 7
 

Cinema, Aspirina e Urubus” é a história de dois viajantes. Um deles, um foge da guerra de seu país, a Alemanha de meados do século XX, outro, da seca do Nordeste de sempre. Talvez a idéias mais forte que o filme expressa seja a opressão do mundo sobre o indivíduo, sobre como o exterior define seu caminho. Essa linha de pensamento participa mesmo da construção da história - o modo que as cores são usadas, como as cenas são filmadas. E o segredo no título.

No filme, duas cores são predominantes: o branco e o preto - ou a luz e a sombra. Uma e outra definem onde está o foco: no ambiente (lugares por onde os personagens passam) ou na situação (seu estado psicológico). A ser explicado: a luz serve para definir a realidade da seca, que oprime quem vive nela; a sombra isola o personagem daquele contexto, torna-o individual.

O excesso de luz nas cenas em que se filma a paisagem torna opacas todas as cores. Contra o cenário de terra sem vida e árvores secas, a cor da pele de Johann, o alemão, quase se dissocia – e talvez seja exatamente isso o que o diretor queira expressar: uma série de pessoas engolidas pela seca, levadas mesmo que contra a sua vontade de um lugar para o outro. As únicas cores que se destacam estão na roupa dos personagens, em uma imposição social primária – novamente, poderia ser dito que são o contexto em que estão, acrescido da função que devem cumprir no momento.

Quando é dia, foca-se o trabalho dos dois, os comentários sobre o país, os negócios, as pessoas que encontram pelo caminho. Foca-se o contexto. Já quando é noite, acontecem os momentos mais pessoas, mais íntimos. É envolto pela sombra que Ramulpho, o nordestino, inventa uma história para a própria vida, assim como Johann conclui (após um pouco de frebre causada por veneno de cobra) que passou "a vida inteira juntando dinheiro" e talvez morresse sem aproveitar: é a primeira mudança de rumos, fugaz.

Entre outros exemplos, um que pode parecer fortuito ou definitivo, de acordo com quem lê: em certo momento, quando o Brasil entra na guerra e a volta de Johann para a Alemanha é exigida, o alemão disfarça seu carro, ele o pinta de preto. Destaca-o do contexto, se concordamos com o que foi escrito, e aí a pintura é apenas simbólica – o que se comprova, já que ele o faz para pouco depois abandoná-lo.

Forçando um pouco a interpretação, o segredo: pode-se enxergar essa relação entre o branco e o preto, a luz a e a sombra mesmo no título: de um lado, a aspirina, branca, onipresente na história, “cura para todos os males”; do outro, os urubus, aves de mal-agouro, comedoras de restos – surgindo no exato momento em que o rumo de uma vida se transforma pela segunda vez, desta vez de verdade e em definitivo. Em última análise, essa relação também está na palavra “cinema”: a luz possibilita a história, mas é sobre a sombra que ela ocorre. A sombra: o único lugar para o amor no filme. Sempre, à noite e à revelia.

Enquanto se observa as estrelas. Enquanto a primavera arde.

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Egeu Laus
 

Um "outro lado" desse filme que não tinha me ocorrido, Bacamarte.
Considero-o um dos grandes filmes "de interpretação" que vi ultimamente (o trabalho sutil dos atores é magnífico).
Aproveito para sugerir: coloca linhas em branco em cada parágrafo, irão dar uma "arejada" no texto...
Abraço!

Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 6/5/2007 23:06
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Guilherme Mattoso
 

reforço o pedido do egeu: dá um espaço entre os parágrafos!

Guilherme Mattoso · Niterói, RJ 7/5/2007 08:26
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Pedro Vianna
 

O filme é excelente.
Recomendo a todos os interessados.

Pedro Vianna · Belém, PA 9/5/2007 15:56
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Marcelo V.
 

Quero muito rever este filme, estava muito cansado quando o vi no cinema. Mas gostei bastante (no momento, considero-o superior a "O Céu de Suely", com quem compartilha parte do elenco).

Marcelo V. · São Paulo, SP 9/5/2007 19:32
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DaniCast
 

Achei interessante sua interpretação do filme, embora eu interprete de maneira diferente. Para mim, o sépia do tom do filme representa bem a "antiguidade" da história.
Notei que sua frase de início está praticamente idêntica a do release do filme, escrito pelo próprio diretor, que é "O filme é um original ´road movie´ ambientado no sertão nordestino dos anos 40 e conta a história de um alemão e um sertanejo em fuga. Enquanto o primeiro foge da guerra na Europa e vende aspirinas de vilarejo em vilarejo num caminhão, o segundo foge da fome e da miséria. "
Você podia ao menos ter escrito de um modo diferente, ficou parecido demais.

O que mais me encanta nesse filme é que foge de estereótipos e não é maniqueísta. O alemão tem momentos de verdadeira doçura na personalidade e o sertanejo foge do estereótipo do "ingênuo". De fato, os personagens invertem as características esperadas dele, e essa é uma das maiores sacadas do filme.

Recomendo assistir, é um grande filme.

DaniCast · São Paulo, SP 2/7/2007 15:09
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bacamarte
 

Não entendi seu conceito de "antiguidade"; aparentemente, quer dizer que a aparência é esta porquanto seja um indicativo da idade da história. Não creio, mas para ter certeza eu teria de saber mais sobre os costumes do autor. Quanto ao início do texto, se parece com o release porque ambos têm o mesmo princípio: resumir o enredo com extrema concisão. As palavras são as mesmas porque essa é a história do filme. É isso o que o filme é. Se fosse outra história, seriam outras palavras. Senti qualquer sugestão de que eu tivesse copiado o release; nem o tinha lido. Este meu texto saiu de uma vez só.
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Ademais: vou fazer uma reescrição ou ampliação deste texto no blog (http://obacamarte.blogspot.com), alguma sugestão de que caminho devo seguir?

bacamarte · Santos, SP 2/7/2007 18:52
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Regina de Araújo
 

Assisti 2 vezes esse filme. Gostei muito mesmo. Eu tb recomendo à todos.

Regina de Araújo · São José dos Campos, SP 26/4/2008 00:06
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