Bonde errado

Elton Marinho
Antropólogo colombiano Hugo Acero Velásquez palestrou em Florianópolis
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Elton Marinho · Florianópolis, SC
12/9/2008 · 54 · 2
 

No início de agosto, tomei o bonde errado. Estava no Estreito e desejava ir para Coqueiros, então embarquei no primeiro Circular que apareceu cheio da certeza que evitaria o transtorno de ir até a ilha para trocar de lotação e voltar ao continente. Foi aí que a casa caiu pro meu lado. O Circular fazia a linha Monte Cristo e para lá eu fui. Cientes da roubada em que me meti, motorista e cobradora foram atenciosos. “Tu podes descer nesse ponto aqui em cima, mas é perigoso. Te deixarei em uma rua lá embaixo, próximo a barreia que a polícia está fazendo”, adiantou o comandante da boléia.
De fato, ele me deixou a poucos metros de toda estrutura montada pelos policiais. Fiquei por uns 15 minutos, na companhia de um casal de jovens, a espera do próximo ônibus que nos levaria ao Centro de Florianópolis. Tempo suficiente para enxergar uma realidade que ainda não conhecia da capital de Santa Catarina. “Estamos no bairro Monte Cristo. Se tu não conheces o local é melhor ficares esperto”, alertou o atendente da farmácia em frente ao ponto. Pensei: perdeu playboy!
Volta um ano nessa história toda e, caro leitor, tu me encontrarias iniciando uma viagem pelos países andinos na companhia do querido amigo Maurício Haas. “Donde és usted?”, nos perguntavam os bolivianos. “Brassssil”, respondíamos esticando o ESSE para parecermos fluentes em espanhol. “Ahhhh, mayor país del mundo”, completavam sorrindo. Feição de deboche que só mais tarde fui entender. Afinal, os brasileiros costumam se autodenominar “maior do mundo” em quase tudo. Maior carnaval do mundo, maior estátua de cristo do mundo, maior rio do mundo, maior estádio de futebol do mundo...
“Maiores consumidores de drogas da América Latina”, acrescenta o sociólogo Hugo Acero Velásquez durante a entrevista coletiva que antecedeu sua palestra em Florianópolis na segunda-feira, 4 de agosto. Acero é consultor do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento na área de Segurança Pública e foi o cara que entre 1995 e 2003 enfiou a faca nas caveiras da criminalidade em Bogotá. Suas ações na Secretaria de Segurança da capital colombiana reduziram a criminalidade em quase 80% no período de uma década. Como fez isso? Não, não criou mais super-soldados do BOPE. Em poucas palavras: pôs ordem na casa simplificando o sistema. E, obviamente, não fez isso sozinho.
Antropólogo colombiano, Hugo Acero Velásquez (foto)

Made in Colômbia

Em 1993, Bogotá era uma das cidades mais violentas do mundo (começou a doer o cotovelo dos brasileiros). Tempos em que Pablo Escobar comandava seu cartel e eram registrados 80 homicídios para cada 100 mil habitantes (o dobro do Rio de Janeiro e quatro vezes mais que São Paulo). Eis que então surgem três personagens nessa história. A trilogia de prefeitos que, mesmo rivais em ideologias políticas, souberam tomar medidas (impopulares) para redirecionar o futuro da cidade. Hugo Acero Velásquez trabalhou na trinca de governos.
No ano em que a Seleção Brasileira de Futebol conquistou o quarto título da Copa do Mundo e o zagueiro colombiano Andrés Escobar foi morto no estacionamento de um supermercado depois de marcar contra o gol que desclassificou sua seleção, o ex-reitor da Universidade Nacional da Colômbia, Antanas Mockus, assumiu a administração pública da cidade. Suas principais medidas foram: colocou mímicos para interagir e repreender motoristas no trânsito; proibiu a venda de álcool a partir da 1 da manhã nos bares e criou impostos voluntários.
Sobre esse último item, Acero explica que, regularmente, empresários de Bogotá eram convidados para um passeio em áreas da cidade onde os recursos dos impostos estavam sendo aplicados. Dessa maneira, quem desejasse, poderia solicitar uma adição no valor do IPTU, colaborando com a mudança da realidade local. “Em pouco tempo tivemos grande adesão porque os empresários passaram a ver os resultados de sua contribuição”, explicou o sociólogo. Além dessas medidas, Antanas Mockus colocou as contas da prefeitura em dia.
Na sucessão dos governos, Enrique Peñalosa encontrou uma Bogotá modificada. A população enxergava a possibilidade de viver bem em uma cidade que, a partir daquele momento, voltava a ter dignidade. Hora de atacar outro problema dos grandes centros urbanos: o trânsito. Fazendo jus ao sobrenome, Peñalosa sepultou sua popularidade junto às grandes montadoras de veículos. Afinal, o governante desestimulou o uso dos automóveis ao retirar o espaço para a circulação de carros nas avenidas movimentadas.
Em contrapartida, criou mais de 80 quilômetros de corredores de ônibus e instalou estações similares as utilizadas no sistema de transporte coletivo de Curitiba. Peñalosa concedeu entrevista à revista Trip (edição 159) no qual disse o seguinte: “Se você gasta milhões para asfaltar as ruas, criar túneis e viadutos, você está estimulando que todo mundo use carro. E aí o trânsito vira um caos. O motorista só deixa o carro na garagem quando perceber que quem vai de ônibus, pela faixa exclusiva, transita mais rápido que ele”. E tem mais.
Em seu governo, foram abertos 300 quilômetros de ciclovias e decretou que mais de 100 quilômetros de avenidas fossem fechados ao tráfego de veículos todos os domingos, das 7 às 14 horas, para que virassem espaços destinados ao esporte e lazer. Em nossa viagem aos países andinos, eu e o Maurício nos impressionamos com a loucura do trânsito de La Paz. A cidade boliviana está situada em uma imensa cratera a 3 mil e tantos metros de altitude, não tem por onde escapar. Vielas disputadas entre veículos e comerciantes, turistas e locais. Um caos onde semáforos funcionam como enfeites e onde vale a lei de quem buzinar primeiro.
Voltando ao caso colombiano, Peñalosa chamou para uma conversa os melhores arquitetos do país. O assunto em questão era o de desenhar, projetar e construir três magníficas bibliotecas no circuito das ciclovias e o desafio estava em transformar os ambientes tão atrativos quanto os shoppings centers. Educação em todos os sentidos.
Por fim, Luis Eduardo Garzón assumiu a peleja de melhorar a habitação popular e intensificar as ações no quesito educação. Tudo indica que ele vem fazendo um trabalho respeitável e Bogotá já exibe com orgulho vários prêmios recebidos como modelo de gestão pública, da Bienal de Veneza à ONU. “O orçamento de Bogotá equivale a menos da metade do orçamento de São Paulo. Dinheiro não é tudo. E aí está o exemplo dos 4 bilhões de reais do Pan do Rio, que não melhoraram o transporte público, não recuperaram o magnífico centro histórico carioca, nem orquestraram uma recuperação econômica duradoura para a cidade”, concluiu o repórter Raul Justes Lores, na matéria citada.

Publicado em: www.perroitinerante.blogspot.com

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Bruno Resende Ramos
 

Uma bem fundamentada matéria, criticidade e conhecimento de causa. Votado!

Bruno Resende Ramos · Viçosa, MG 12/9/2008 23:50
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Eliana Pontes
 

Votado

Eliana Pontes · Florianópolis, SC 23/9/2009 18:57
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