Cineclubes: Construa sua própria sessão!

Ana Bárbara
Lá no Tin Tin cineclube, em um dos longos debates.
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Carolina Morena Vilar · João Pessoa, PB
3/9/2006 · 177 · 24
 

Quando se fala em salas de exibição de cinema, uma das questões mais pertinentes geralmente é o preço. Mas já faz tempo que aqui em João Pessoa essa reclamação chega a ficar em segundo plano. A grande questão mesmo, que está fazendo com que muitos cinéfilos deixem de freqüentar as grandes salas, é o caráter dos filmes exibidos: super produções hollywoodianas que muitas vezes tem por seu maior objetivo serem sucessos de bilheteria e deixam a desejar para os mais exigentes e de gosto cinematográfico que foge ao padrão comum. Nem a produção nacional tem muito espaço, vez ou outra é que podemos encontrá-las na programação e mesmo assim só quando é marcada como sucesso e tem uma mídia enorme em torno.

Cinemas com programação voltada para os filmes de arte, ou ao menos com caráter alternativo em João Pessoa ainda é sonho, e mais sonho ainda é a valorização da produção local em programas culturais que possibilitem a exibição para o grande publico.

Há tempos também que os cinéfilos de plantão buscam
alternativas para isso. A forma mais simples e que tem funcionado é a formação de cineclubes - grupos que se formam de maneira independente para ver e discutir cinema. A idéia é antiga. Desde o final dos anos 60, com a lei de legitimação do cineclubismo, se tem noticias aqui em João Pessoa desses grupos, mas ainda se resumia a algo caseiro e restrito a um só público.

Nos anos 80, Lucio Vilar funda o cineclube Cartaz Cinema, feito por estudantes de comunicação e interessados nos clássicos da época. Infelizmente não durou muito, mas deu base para o que está acontecendo hoje. E o que está acontecendo hoje?
Para te contar é preciso antes de tudo falar sobre a ABD-PB, (associação brasileira de documentaristas, Paraíba) uma instituição sem fins lucrativos, que funciona desde 1982 e que tem como principal objetivo apoiar a realização e produção audiovisual em vários suportes, principalmente ao curta-metragem. Desde 2004 a entidade foi contemplada com o Ponto de Cultura Urbe Audiovisual, financiado pelo Programa Cultura Viva do Ministério da Cultura, e realizado em parceria com a Universidade Federal da Paraíba. Dentro das atividades, da Urbe Audiovisual, estão a realização de oficinas de especialização, formação básica em audiovisual e, claro, a exibição de trabalhos nacionais em sua sede, localizada no teatro Lima Penante em João Pessoa. São exibições de curtas nacionais, feitas a partir do chamado “Tin-Tin” cineclube que acontece as quartas-feiras, faça chuva ou faça sol, contando sempre ao final com um debate sobre o que foi visto e a presença de algum especialista na área. Não há um formato especifico de discussão: é tudo feito de forma livre, sem restrições. O espaço é aberto ao publico, gratuito e freqüentado geralmente por cinéfilos, estudantes e envolvidos diretamente com cinema, o que possibilita um contato direto com os produtores da área.

Além da programação semanal, uma vez por mês é feita uma sessão especial chamada Assacine, com o lançamento de um curta e a presença do seu diretor. Ótimo espaço também para o que é feito por aqui: “O cão Sedento”, de Bruno Sales, premiado inclusive pelo cine PE de 2005 e Táxi, de Lorena Travassos, são dois exemplos de curtas paraibanos lançados pelo Assacine, tendo ótima repercussão entre os espectadores e crítica.

É, os cineclubes estão em alta. A partir do “Tin-Tin” e a influência também da ABD-PB, já podemos listar cerca de 12 pela cidade. Destaco o “Corte Seco”, do estudante de jornalismo Arthur Lins, que exibe quinzenalmente longas contemporâneos no departamento de comunicação da UFPB. Já passaram por lá filmes como “2046” de Wong Kar-Wai, “Last Days” de Gus Van Sant e “Coffee and Cigarettes” do Jim Jamursh. Pode apostar que se não fosse este cineclube estes longas só seriam vistos por quem realmente vai atrás, baixa na Internet ou encontra em alguma locadora. E vou logo avisando que periga você rodar a cidade inteira e não encontrar esta tal locadora com estes títulos. O bacana também do Corte Seco é que ele dispõe de um blog, onde a programação é divulgada, o debate a cerca do que foi exibido ganha mais corpo e você pode enviar a sua crítica já que a idéia também é despertar o senso crítico do telespectador e o interesse pelo cinema de qualidade.

Dá para citar ainda o Ócio Criativo, do Guilherme, com exibições na sua própria casa, o do cursinho da Zarinha, que dispõe também de palestras sobre cinema paraibano, o Cartaz Cinema (sim, o mesmo que citei no quarto parágrafo) que retomou as atividades depois de mais de 15 anos e tem por objetivo formar publico com exibição dos clássicos do cinema e documentários de grande repercussão nacional.

O número e a qualidade dos cineclubes crescem a cada dia e muitos falam que João Pessoa está passando pela dita “moda do cinema não comercial”, já que é bastante comum encontrar, principalmente nos corredores do curso de comunicação alguém que faça parte ou tenha um cineclube. Falar mal e encontrar problemas sempre foram coisas mais fáceis de se fazer. O fato é que nunca se teve tanto interesse e divulgação pelo que existe fora das telas do “cinema de shopping”. Sem contar que, na boa, antes fosse moda. Melhor moda de cinema de qualidade a tantos lixos comerciais que passam por aí. Fomentem essa idéia: Chame os amigos que adoram discutir sobre cinema, marque um dia da semana, escolham alguns filmes bons, talvez até um vinho com pão de queijo e... Boa sessão!

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Rafa oliva
 

carros pelos ares, explosões, correria...isso cansa, chega de filmes "sessão da tarde", já fomos bombardeados com eles desde pequenos, qd eramos passivos a maioria das informações.Apoio completamente a formação de cineclubes Carol ;)

Rafa oliva · Aracaju, SE 1/9/2006 07:49
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Pedro Rocha
 

Pode crê Carolina. Esse tipo de texto que traz panoramas, movimentos me deixam empolgados. São os melhores com certeza.

Força para vocês de João Pessoa e que esses cineclubes saiam das salas e chafurdem a cidade, mexam com a ciadade e suas concepções.

Pedro Rocha · Fortaleza, CE 1/9/2006 13:19
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Carolina Morena Vilar
 

É isso aí Rafa! O bicho pega por aqui principalmente porque simlesmente não há outras coisas nas salas d cinema, dá pra acreditar?
E Pedro, eu ouvi falar esses dias que o cinema municipal está pensando seriamente em abrir uma sala especial com filmes mais alternativos ao mercado cinematografico. Êba! Pode deixar que manterei vcs informados!

Carolina Morena Vilar · João Pessoa, PB 3/9/2006 09:09
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Fábio Maturano
 

Essa é a idéia! Iniciativas como estas têm q ser mais divulgadas, p/ que essa movimentação local da cultura alternativa não se resuma a algo passageiro... João Pessoa há muito já tem condições de consolidar uma cena underground, seja em cinema, música, teatro, etc.
Bela matéria Carol =]

Fábio Maturano · João Pessoa, PB 3/9/2006 09:56
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Fábio Fernandes
 

Sou fã de cineclubes! Muito sucesso pra vocês!!

Fábio Fernandes · São Paulo, SP 3/9/2006 10:52
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Carolina Morena Vilar
 

Pois é Fabio, mas eu acho que tem tudo para não ser algo passageiro... O trabalho sempre atrai mais gente, é interessante e divertido. Isso fortalece o público e público forte é publico presente!

Carolina Morena Vilar · João Pessoa, PB 3/9/2006 16:50
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Rodrigo Almeida
 

"Desde o final dos anos 60, com a lei de legitimação do cineclubismo"

onde eu encontro mais informações sobre essa lei?

Rodrigo Almeida · Recife, PE 4/9/2006 10:27
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Carolina Morena Vilar
 

Rodrigo, clica aqui! Mais informações sobre a lei!

Carolina Morena Vilar · João Pessoa, PB 4/9/2006 13:17
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daniel valentim
 

parabéns pela matéria, carolina. aqui em manaus houve um movimento muito forte de cineclubismo durante os anos 60, que deu origem a um festival nacional e resgatou a obra do cineasta silvino santos, mas atualmente há poucas opções de qualidade (pelo menos que eu saiba).

daniel valentim · Juiz de Fora, MG 4/9/2006 16:17
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Ana Murta
 

Aqui no Espírito Santo também teve um movimento cineclubista muito bacana nos idos de 70. Agora, ainda bem, o cineclubismo tá voltando com força por todo o país. Espero que o movimento cresça cada vez mais e que seja geograficamente democrático.

Ana Murta · Vitória, ES 4/9/2006 21:56
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David França Mendes
 

Muito bacana a iniciativa. Um dia desses preciso escrever um post contando o que foi, há 21 anos quase exatamente, a fundação do Cineclube Estação Botafogo, no Rio de Janeiro. Quem é mais novo e mora no Rio talvez pense que o Estação é um cinema como outro qualquer. Não é. Começou com um grupo de jovens que amavam cinema, e um cinema diferente, e que peitou corajosamente arrendar um cinema comercial para exibir filmes de arte. Na época, 1985, o Rio era tão mal servido de produçào não-Hollywoodiana quanto aparentemente João Pessoa é hoje. 21 anos mais tarde, o trabalho pioneiro rendeu em todo o país e principalmente aqui. O Rio é hoje a quinta cidade do mundo em número de salas de cinema de arte. À frente de Nova York, São Francisco e Madrid, por exemplo.
Torço para que vocês em João Pessoa, e em toda parte do Brasil, conquistem o seu espaço também.
E se quiserem bater uma bola sobre esse assunto, podem me escrever.

David França Mendes · Rio de Janeiro, RJ 5/9/2006 16:54
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Carolina Morena Vilar
 

David, que maravilha saber disso! É a prova que a reclamação e a ação dos adoradores de cinema com os cineclubes realmente tem força e podem resultar, além de tudo, em força para a possivel existencia de um cinema alternativo com estrutura, organização e aberto ao grande público. Vou espalhar a notícia por aqui!

Carolina Morena Vilar · João Pessoa, PB 5/9/2006 17:58
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Thiago Camelo
 

Sou do Rio e tenho mesmo que agradecer a geração do Davi por isso. Hj em dia, se quiser, tenho a opção de ir todos os dias a algum cineclube, seja em cinematecas, em grandes cinemas (como é o caso da Sessão Cineclube e às vezes o Cachaça, no Odeon), em campus universitários ou, até mesmo, ao ar livre, como é o caso do Beco do Rato. E o que não me faltam são filmes bacanas em cartaz, sejam os de Hollywood (alguém já viu o novo Super-Homem. Imperdível!!!) ou os de arte (particularmente, não gosto desse termo, mas, bom, acho que serve para essa conversa :))

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 5/9/2006 18:43
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André Dib
 

Cineclube é uma valiosa opção pra quem gosta de cinema para além do saco de pipoca. Não conhecia as histórias do cineclubismo de João Pessoa, cidade que realmente precisa de trincheiras como essa. Participei do cineclube Barravento aqui no Recife, e sei o quanto vale experiências assim, mesmo que efêmeras. Parabéns pelo texto!

André Dib · Recife, PE 5/9/2006 18:45
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David França Mendes
 

Thiago, obrigado a vocês por manterem vivo a amor ao cinema nas salas de cinema, em tempos de baixar bit torrent! (nada contra, acabei de baixar um Antonioni). Queria só chamar atenção para uma coisa: não só há todos os cineclubes que ele citou, mas a própria programação do circuito inclui coisas que seriam impensáveis 20 anos atrás. Filmes argentinos em cartaz? e em mais de uma sala? documentários brasileiros em tela de cinema, competindo com os longas de ficção? filmes coreanos, filmes de Agnes Varda, filmes de animação para adultos... tudo isso é possível hoje, e a gente tem que dar valor a isso.

David França Mendes · Rio de Janeiro, RJ 6/9/2006 10:43
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Rodrigo Almeida
 

Eu não consegui informações sobre a tal lei de cineclubismo. Na verdade, eu queria saber se eu posso passar em um cineclube, filmes baixados pela internet que não possuem cópias no Brasil como um monte de Godard, alguns de Visconti... e um milhão de outros.

Rodrigo Almeida · Recife, PE 6/9/2006 11:11
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Rodrigo Almeida
 

Sem problemas autorais, digo.

Rodrigo Almeida · Recife, PE 6/9/2006 11:11
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Sarah Falcão
 

carol, parabéns pela primeira matéria! ficou muito legal. bem você sabe que eu concordo com isso tudo, e que dou a maior força a essa onda de cineclubes. acho que isso é um movimento super legal, e que é sinal que as pessoas estão buscando coisas de qualidade.

Sarah Falcão · João Pessoa, PB 6/9/2006 13:20
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Sarah Falcão
 

ah,e você nos localizou na foto? rs

Sarah Falcão · João Pessoa, PB 6/9/2006 13:21
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Carolina Morena Vilar
 

Rodrigo, to te mandando um email agora pra te explicar, certinho?

Carolina Morena Vilar · João Pessoa, PB 7/9/2006 11:29
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Carolina Morena Vilar
 

E Sarah... Nos localizei sim! E obrigada pelos parabens!
rs...

Carolina Morena Vilar · João Pessoa, PB 7/9/2006 11:30
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Carolina Morena Vilar
 

E Sarah... Nos localizei sim! E obrigada pelos parabens!
rs...

Carolina Morena Vilar · João Pessoa, PB 7/9/2006 11:30
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Carolina Morena Vilar
 

Opa... Rodrigo, no teu perfil não tem teu email! Eu ia mandar uns arquivos...
Se tiver mesmo interessado me manda um email, ok? Que eu te respondo! Até!

Carolina Morena Vilar · João Pessoa, PB 7/9/2006 12:15
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CUFA DF
 

CINE PERIFERIA CRIATIVA

Estão abertas as inscrições para o festival de Vídeos e Cultura Cine Periferia Criativa. As inscrições podem ser feitas até o dia 20 de outubro, e toda a comunidade poderá inscrever seus vídeos para serem exibidos nos dias do Festival. É necessário apenas que o tema do vídeo seja relacionado com temas ligados à periferia. A ficha de inscrição e o edital podem ser retirados no site Já que os jovens das periferias das grandes cidades brasileiras não têm condições ($) de ir ao cinema, o audiovisual começa a freqüentar essas áreas carentes de cultura, lazer e educação, mas ricas em linguagens e tentativas. Isso, diga-se de passagem, em todos os lugares do País.

Uma parceria da Central Única de Favelas do Distrito Federal (CUFA)com o SESC/DF promove o projeto Cine Periferia Criativa Itinerância, cujo objetivo maior é democratizar o acesso à produção audiovisual e incentivar a participação de produções locais.
O movimento que chegou agora ao nosso quintal começou no mês passado e vai até outubro. Funciona assim: de 15 em 15 dias, será realizada a apresentação de filmes nacionais para as comunidades das Regiões Administrativas do Distrito Federal. A primeira edição foi realizada no dia 12 de julho, no Jardim ABC e a segunda no dia 27 de julho, no Recanto Emas. O Cine Periferia chega em agosto em Itapuã e Ceilândia; em setembro vai para Arapoangas e Fercal; em outubro em Santa Maria e Varjão.
Os filmes, licenciados pelo SESC-DF, são exibidos das 19h às 22h, para adultos e crianças em espaços comunitários. Durante três horas, o público tem a oportunidade de assistir curtas e longas metragens com duração que varia de 8min a 1h30min. Após a exibição dos vídeos, os técnicos da CUFA e do SESC-DF abrem espaço para debates sobre os temas transversais abordados nos filmes.
No período de 11 a 25 de agosto, das 19h às 22h, na Fundação Athos Bulcão, será realizado um curso de capacitação, ministrado pelo cineasta Adirley Queiroz, em linguagem audiovisual destinado às equipes do SESC-DF e da CUFA. Haverá também um festival de clips em outubro no Teatro SESC Paulo Autran, Taguatinga Norte; e Teatro Newton Rossi, Ceilândia.
O projeto chega ao auge com o Festival de Cinema e Cultura Cine Periferia Criativa previsto para acontecer nos dias 7, 8 e 9 de novembro, das 14h às 22h, no Teatro SESC Newton Rossi, do Centro de Atividades SESC Ceilândia.

www.cufadf.com.br/cinecufa/homecinecufa.swf

Mais informações pelos fones: 61-3224-6557 e 8465-0639(Assessoria da Cufa)

CUFA DF · Brasília, DF 30/7/2008 18:12
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