Eu nunca fui muito sortuda. Das balas de um balão de festa estourado às notas perdidas pelas ruas desse Brasil: nunca me deram o prazer de encontrá-los. Loteria, dedos cruzados, jogos de tabuleiro, pique-esconde, nome da professora no congelador. Nenhum desses acasos geralmente estavam do meu lado.
Porém, hoje o meu marido trazia do trabalho não só o costumeiro cansaço, como também havia com ele uma raspadinha. Pediu que eu tentasse a sorte e eu sorri, pegando o objeto das suas mãos. Desde que conquistei coordenação motora suficiente, meu pai despejava um rio de raspadinhas, Tele-senas, Mega-senas, Jogo do bicho e Papa-tudo em cima de mim, na esperança de ganhar um premiozinho que fosse. Nunca. Necas. Soprava tudo quanto era sena, lançava números a torto e a direito, quebrava unhas raspando as danadas das cartelas, até que me acostumei com a frustração de não ser tão sortuda assim. Peguei a cartela da mão do marido sorridente e comecei a raspar, cética. A última coluna primeiro. Nada. Então, a primeira coluna. E voilà! Eu ganhei! GANHEI! O trio de "dois reais" alegrou não só a minha noite, como me devolveu, também, o direito de acreditar.
Não sou uma pessoa muito supersticiosa. Não evito escadas, gatos pretos ou desviro sandália pra mãe não morrer. Mas não sou um caso totalmente perdido: isolo na madeira, pulo 7 ondas e visto branco no reveillon. Mas não que eu acredite que se não o fizer, terei vários anos de azar. Faço pelo mesmo motivo que as pessoas jogam na loteria: não é pelo "não" que eu já tenho, é pelo "sim" que eu posso ganhar.
Mas o que é a sorte? Não me leve a mal, sou um tanto cética a respeito de certos assuntos. Gosto de chamar sorte de acaso. Não acredito em pessoas "sortudas", prefiro acreditar que todos temos chances de conseguir o que se quer (seja dinheiro em prêmio acumulado, recompensa por encontrar gatinhos perdidos ou casar com o príncipe encantado), tudo depende das nossas escolhas. Desde o ônibus que vamos pegar até os números que vamos arriscar. E pra ganhar é bem isso mesmo: ter coragem de correr riscos. A viagem dos sonhos, um amor impossível, o emprego em outro estado. Não é sorte se der certo. Tampouco será azar se der errado. É a consequência de uma escolha que tinha 50% de chances de arrasar ou fracassar. Não deixe de acreditar que você pode fazer aquilo que já perdeu as esperanças. Você é extremamente capaz. Faça a escolha certa e siga em frente. Sorte é uma tentativa que deu certo. Basta dar o primeiro passo!
Agora, com licença. Tenho dois reais a receber.
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