Folião culto

Arquivo do artista/divulgação
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Edson Wander · Goiânia, GO
9/6/2006 · 107 · 8
 

Domá da Conceição bebeu nas fontes do rock e dos filósofos alemães para reencontrar seu porto seguro na música folclórica em Goiás

Depois de exibir seu primeiro e único disco como um troféu, o cantor, compositor e violeiro goiano Domá da Conceição comemora outro feito na carreira de mais de 20 anos: ter exibido na França um documentário contando sua vida e obra. O curta Anjo Alecrim, homônimo ao CD dele lançado há três anos, foi produzido e dirigido por Viviane Louise e recupera passagens importantes da vida e carreira do artista, um dos mais destacados representantes das folias de reis do Centro-Oeste.

O filme foi exibido em Paris, em outubro do ano passado, na programação do Ano do Brasil na França. São 21 minutos rodados em película de 35 milímetros cuja trilha, assinada pelo protagonista, ganhou prêmio de melhor trilha sonora no Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (Fica), realizado em junho de 2005 pelo governo estadual em Goiás Velho, cidade histórica que virou Patrimônio da Humanidade há quatro anos.

Domá da Conceição conheceu Viviane na época em que buscava patrocínios via Lei Municipal de Incentivo à Cultura para gravar seu primeiro disco. Passados dois anos de conversas e planejamentos, o documentário foi filmado em uma semana. Com textos do próprio Domá e da diretora, o roteiro mistura fato e ficção. As cenas repassam o início da carreira em Abadia de Goiás (vilarejo então ligado a Trindade, município a apenas 17 quilômetros de Goiânia), passa pela capital, de onde Domá iniciou a carreira em festivais, e volta às origens, no sítio da família em Abadia, hoje emancipada, onde Domá redescobriu sua matriz musical. O objetivo do violeiro e folião agora, conta ele, é lançar o documentário em DVD.

Lindomar Alves da Conceição, ou simplesmente Domá da Conceição, chegou ao primeiro disco redescobrindo a vocação ancestral de sua música. Ancorado nos ritmos da folia de reis, catira, guarânia, do chamamé e da congada, Anjo Alecrim é uma reunião de peças de domínio público e composições próprias que Domá burilou ou mesmo recuperou depois de se desvencilhar da influência pop que o marcou por anos. O CD foi produzido pelo violonista Luiz Chaffin, contou com bons músicos nas gravações e a participação da folclorista Ely Camargo, grande incentivadora do cantor, que canta com ele numa das faixas (Está Dito). Ele compôs quatro das 11 faixas do disco.

“Nos festivais da década de 80, comecei a tocar violão de 12 cordas depois que vi Jimi Page (guitarrista da extinta banda inglesa Led Zeppelin) fazer o mesmo. Tinha vergonha de falar que tocava viola caipira”, confessa Domá. Era década de 70. Lindomar Alves da Conceição, então com 17 anos (hoje com 46), chegava a Goiânia na esperança de seguir carreira musical. Na bagagem, a cultura arraigada da viola e a voz marcada pelas toadas que aprendera com o pai violeiro limpando roça em Trindade. A mãe de Domá, Olívia Maria, tecelã que também tem veia de foliã, ainda sobe aos palcos acompanhando os filhos.

Cantor, instrumentista e compositor, Domá da Conceição iniciou a carreira em festivais de música em Goiás e outros estados. Essas apresentações traziam a marca de uma influência desconexa que mais tarde ele não reconheceria mais. “Bebi de tudo com vontade, de Bob Dylan a Iron Maiden”, diz. Na década de 80, em Uberlândia, onde Domá morou por um tempo, veio o primeiro safanão. Ele viu Juraíldes da Cruz e Genésio Tocantins, dos dois mais reconhecidos cantores e compositores populares do eixo Goiás-Tocantins, apresentando-se em festival da cidade. “Quando olhei para eles no palco, com aquelas roupas simples, violão na mão e sandálias nos pés, aquilo mexeu comigo”, revela Domá.

A retomada das folias e dos ritmos da infância veio devagar. Domá continuou sua peregrinação pelos festivais durante os anos 80. Era o auge do rock rural defendido por Zé Rodrix, Tavito, Sá & Guarabyra, 14 Bis e outros. “Mas ainda usava a viola roqueira de 12 cordas. Foi nessa época que ganhei muitos prêmios em Inhumas (interior de Goiás), Minas Gerais e São Paulo”, recorda.

Abadia e Nietzsche
Prêmios em festivais, no entanto, não significavam mais garantia de sucesso imediato como antes. Os festivais começavam a dar os primeiros sinais de esgotamento. “Aí me frustrei, perdeu a graça. Comecei a beber muito, fiquei deprimido e voltei para a roça, em Abadia”, relata, lembrando que o irmão (João Anacleto, o Nenzinho da Viola, que aprendeu com ele a tocar e hoje segue carreira solo com dois discos gravados) o ajudou a construir um “ranchinho” no local. Domá passou a receber visitas freqüentes da folclorista Ely Camargo.

Foi com Ely que Domá da Conceição teve seu segundo e definitivo “insight”. “Quando ela disse que meu trabalho era educativo, esse termo me chamou tanto a atenção que comecei a sonhar com palhaço, criança e a cantoria de meu pai”, afirma. A partir daí, Domá deixou o violão, que ainda o acompanhava no rancho de Abadia, pegou a viola caipira e começou a percorrer escolas mostrando os ritmos tradicionais do interior.

A tradicional folia de reis de Abadia de Goiás voltou a receber a voz rascante e a figura carismática de Domá. Nos shows, passou a usar as fitas coloridas que tradicionalmente enfeitam as folias e máscaras que ajudam a compor seu figurino único. Dos périplos pelas escolas, surgiu a idéia do disco e outros convites para apresentações. Um deles importante: o da Universidade de Brasília (UnB), onde Domá ficou como convidado por quase um ano, em 1999.

Morou com estudantes e participou de atividades acadêmicas, inclusive debates de filosofia, além de divulgar a folia, catira, chamamé, congadas e outras toadas. A vida de eremita (ele ainda vive apenas na companhia de uma cadelinha e um gato vira-latas) levou Domá aos livros e à religião (passou a ser devoto da Ordem de Rosa Cruz). Goethe e Nietzsche, filósofos alemães, passaram a ser hábito de alguém que não passou da 5ª série. “Quanto mais leio esses caras mais me convenço de que preciso continuar tocando minha violinha”, diz em tom confessional. Nas folgas, diz que gosta de ouvir música clássica. “De preferência Bach.”

A volta às folias, diz, é para valer. “Só apresentarei esse disco quando puder colocar toda a banda no palco e com boa produção, é o que espero conseguir em 2006. Chega de improvisos”, promete a si mesmo sobre novos shows. O cantor mandou algumas cópias do CD para Itália e Suíça e mostra-se otimista com a ampliação do espaço da cultura popular. “É tal a nossa saturação musical hoje em dia que não vai demorar muito para esses rituais terem espaço cativo, inclusive nas rádios”, arrisca, meio que sonhando.


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Helena Sut
 

Fiquei curiosa para ouvir as composições de Domá da Conceição e ver o documentário, ainda mais com o nome de Anjo Alecrim. O texto é a perfeita notação dos acordes do folião culto.

Helena Sut · Curitiba, PR 5/6/2006 15:36
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Edson Wander
 

Oi Helena,
Estou convencedo-o a colocar algumas faixas do disco e imagens do vídeo no banco de cultura deste Overmundo, vamos ver.
Grato e abraço,
EW

Edson Wander · Goiânia, GO 7/6/2006 11:01
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ronaldo lemos
 

Edson, muito bom o texto mesmo. Conheço Abadia de Goiás (ia sempre lá por perto) mas não conhecia o Domá. Quem sabe da próxima vez que aparecer por lá não dá para pegar uma cópia autografada do disco!

ronaldo lemos · Rio de Janeiro, RJ 10/6/2006 14:21
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Edson Wander
 

Ronaldo,
Deixei esse disco do Domá com Hermano, pegue com ele para matar sua curiosidade. Estou conversando com o artista para liberar uma música e cenas do documentário sobre ele. Ele reluta mas já consegui balançá-lo, vamos ver.
Grato e abraço,
EW

Edson Wander · Goiânia, GO 10/6/2006 16:43
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Lagarto
 

Alguem pode me conseguir alguma contato via internet com o Domá ou com a sua produção pra mim conseguir o disco dele?

Obrigado.

Lagarto · Amorinópolis, GO 11/6/2006 14:18
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ronaldo lemos
 

Valeu Edson, vou falar com o Hermano para ouvir o CD. Abs!

ronaldo lemos · Rio de Janeiro, RJ 12/6/2006 15:35
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Rodrigo Teixeira
 

Edsonnn... o Brasil dito amador quer se profissionalizar. Escuto muito isto por aqui no Matão do Sul dos artistas mais populares tb. parabéns por revelar esta figura. abs

Rodrigo Teixeira · Campo Grande, MS 14/6/2006 19:55
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Andréa Teixeira
 

Edson,
Parabéns pela matéria. O Domá é um dos nossos grandes músicos. Merece ser mais conhecido.
Abs,
Andréa Luísa

Andréa Teixeira · Goiânia, GO 2/10/2006 10:57
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