Padecer no paraíso

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Rafael Mazzucco · Sombrio, SC
30/6/2006 · 1 · 0
 

O sol que havia aparecido a semana toda resolveu, sábado, não dar às caras e ainda mandou a chuva para cobrir a folga. Por isso, o passeio organizado pela prefeitura de Timbé do Sul, e a coordenadora de turismo da Amesc Ana Lucia Lopes de Lima, que passa a fazer investimentos no turismo, em uma trilha ainda ‘virgem’ ganha novos elementos para divertir e dificultar o percurso. Parte do grupo de ‘exploradores’ já aguardava em frente ao prédio do executivo municipal escorados nos pilares ou sentados no degrau da calçada enquanto a chuva caía. Aos poucos, outros membros da expedição iam se juntando ao grupo até que, finalmente, todos entram na van que levaria ao início da trilha. Indo por uma estrada de chão, atravessando pequenos córregos e cercados de verde, os trilheiros já entravam no clima do passeio. Na casa simples, emoldurada por um verde de encher os olhos, mais a composição da neblina que cobria o cume da Serra e colinas menores, seu Valdevino Alano aguardava a trupe que iria guiar. Todos para fora do veículo, já começam a sentir a chuva nas cabeças. Quem podia, usava a capa de chuva (inclusive o repórter aqui, grato às caridosas jornalistas que abriram mão de suas capas para que eu não encharcasse. Ô dó) para proteger as roupas e os equipamentos de fotografia. A comitiva parte e já encontra o primeiro obstáculo. Uma cerca que todos tiveram que pular, literalmente. Lançados à estrada, começamos a caminhada à mata e ao início da trilha guiados pelo mateiro Valdevino, o homem que conhece cada pedaço daquela terra e um conversador nato. Destino: cachoeira do Escorpião, que tem esse nome pela marca, como se fosse uma cicatriz na pedra, parecida com o animal. Com o início da caminhada, vem também a lama. Muita lama. Em fila indiana seguimos Valdevino, condutor ágil dos ainda sorridentes caminhantes. E começa a subida. A primeira parada é em uma furna. Contam que na época da Segunda Guerra Mundial, famílias de italianos e alemães eram levados para esse local, onde ficavam protegidos de possíveis ameaças que poderiam sofrer por serem descendentes dos países nazi-fascistas. Reza a lenda que muitos ‘tesouros’ foram enterrados no local. O fato ainda alimenta a imaginação de caçadores que procuram, com detectores de metal, encontrar algumas dessas fortunas. Mas nunca encontraram. A subida segue, e até não é muito difícil. Só que é muito cedo para comemorar. Finalmente o grupo chega ao Escorpião. Culpa da estiagem, apenas um fio d’água corre do paredão de cerca de 45 metros de altura. O visual compensa o esforço. Paramos alguns minutos para ouvir estórias. Depois descemos, com a ajuda de todos os santos. A próxima parada foi em mais uma furna. Uma espécie de túnel era a passagem para o outro lado da trilha. Um tanto claustrofóbico no início, por ser muito baixa a entrada, mas amplo por dentro. Foram 25 metros de caminhada praticamente às cegas debaixo da terra. Já do lado de fora, uma pausa para o lanche. Os primeiros a experimentar o cardápio que será servido aos futuros turistas que se aventurarem por Timbé do Sul. Dois sanduíches de presunto, queijo, tomate e mais algumas coisas, uma barra de cereal, uma garrafa de água, duas frutas (banana e laranja) e duas balas. Todos procuram um banheiro. O próximo passo, melhor, os próximos passos levam o grupo para a parte mais difícil da trilha. Uma subida forte, entre pedregulhos, leva até a cachoeira das Bromélias. “O nome fui eu quem deu”, disse Valdevino, o modesto. Apesar de ter um volume maior de água que a do Escorpião, a estiagem também prejudica a queda d’água. Água por sinal, limpa e cristalina. Bebida direto do córrego. Agora é a melhor parte. As dores musculares tomam conta. O cansaço prejudica o raciocínio e os santos ajudaram demais nessa decida de volta. O repórter aqui foi ao chão duas vezes, e em vez de encontrar uma mão amiga para ajudar a se recompor, risadas estridentes chegavam aos ouvidos. Sem problemas. Muitos outros caíram, inclusive quando já havia saído da trilha. Contabilizando tombos, arranhões, lama, e dor, tudo saiu bem. Para apaixonados por esse tipo de turismo, as trilhas são bem fáceis. Para amadores e jornalistas sedentários, um verdadeiro calvário.

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