Ronald Augusto
Hans Magnus Enzensberger, em ensaio cuja referência já não sei mais onde recuperar, põe em causa a pretensa periculosidade e os índices de subversão por meio dos quais se representa a poesia. E, talvez, como crença nesse meio-entendimento que nos foi legado por Platão – hoje um lugar-comum –, de que o gênero em questão seria perturbador da ordem e que por isso mesmo se justificaria, por exemplo, a expulsão do poeta da república do poder, acabamos por não dar o devido crédito à problematização irônica levantada pelo poeta e crítico cultural alemão. Inclusive porque, ao longo da história, não são raros os episódios, patrocinados pelo estado ou pela sociedade, em que poetas e escritores são submetidos à censura, às perseguições judiciais e políticas, ao exílio, etc.
Segundo Enzensberger, isto não prova, no entanto, o efetivo conteúdo periculoso, insurgente, da linguagem poética, ou artística, contra o pano de fundo do controle social. Na verdade, esses fatos nos revelam como certas superstições, encontráveis à primeira vista, apenas em algumas culturas ditas primitivas, persistem de maneira transformada na trama mental das assim consideradas altas e modernas civilizações. O que se pretende dizer é que os argumentos favoráveis à existência de uma metafísica força explosiva congenial à arte da poesia, capaz de dissolver – se fosse essa a sua intenção –, o objeto representado, são tão questionáveis quanto à “convicção” compartilhada por alguns povos de que o mero ato de deixar-se fotografar significaria a perda, o aniquilamento da alma do indivíduo que posasse, como modelo, para a realização de tal registro.
Ao pôr em cheque a presunção de subversão que se atribui à poesia, Hans Magnus Enzensberger, por meio dessa suspeita irônica, nos convida a fruir as idiossincrasias do gênero a partir de uma dimensão menos altissonante, ou menos ingênua em relação ao seu poder transformador.
Na invenção verbal greco-latina, a imagem da poesia entendida como um discurso quase que definitivo seja de condenação, seja de absolvição de personalidades ou de acontecimentos, pode ser verificada com facilidade. O poeta consagra e dessacraliza, ele se antecipa ao julgamento dos poderes divinos e terrenos, e pretende ler o pensamento de Deus antes de destruí-lo. Algo parecido se dá na poesia oral africana. Na poética peregrina dos griots, por exemplo, esta característica é marcante. O epíteto de “Boca do inferno”, pelo qual também nos referimos ao poeta barroco Gregório de Matos, é exemplar a propósito do assunto aqui discutido.
O poder, a cultura média e as idéias feitas do senso comum reivindicam para a poesia tanto o direito à periculosidade, quanto a condição de “droga estética que paralisa a vontade de resistir”.
Um mundo fundado na palavra grafada – quer pelo calígrafo, quer pelos tipos gutenberguianos –, que admite livros inspirados divinamente, isto é, livros sagrados, é que, ao fim e ao cabo, fez com que superestimássemos a poesia tanto em termos de corrupção e revolta, quanto a partir de uma recepção onde ela surge como drogadição anestésica de fundo alienante.
Finalmente, desde um ponto de vista semiótico, de um lado temos a parataxe da poesia: uma precipitação para a analogia, a arte, a forma, a síntese, etc. De outro, a hipotaxe, seja à direita ou à esquerda do leque ideológico: um pendor para os aspectos lógicos, a ciência, o “conteúdo”, a análise, etc. Em outras palavras, em relação ao policiamento hipotático dos poderes estabelecidos, sempre ciosos de seus acordos e interesses – sejam estes corretos ou não -, a inutilidade da poesia continuará sendo tolerada, mas sempre como linguagem sob suspeição.
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Ronald Augusto nasceu em Rio Grande (RS) a 04 de agosto de 1961. Poeta, editor, músico, letrista e crítico de poesia. É autor de, entre outros, Homem ao Rubro (1983), Puya (1987), Kânhamo (1987), Vá de Valha (1992) Confissões Aplicadas (2004) e No assoalho duro (2007). Dá expediente no blog: www.poesia-pau.zip.net
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(*) Rosa Marques, acrílica e óleo sobre tela, 2000.
Olá Ronald, tenho quase certeza que o título do ensaio de Enzensberger que vc cita é "Modesta proposta para proteger os jovens dos produtos da poesia" que está no livro "Mediocridade e Loucura e outros ensaios" da Ática. Pode ser que não, mas o que li na "Modesta proposta...", que adorei, tem tudo a ver com o que vc coloca sobre a suposta periculosidade da poesia.
Pra refrescar sua memória, neste ensaio Enzensberger, que tb é poeta, manifesta sua indignação contra a tendência da escola de supervalorizar os efeitos da poesia, com o que acaba afastando os alunos dela. Ironicamente, ele revela os maus tratos que lhe foram inflingidos pela mulher do seu açougueiro por causa do desempenho insuficiente da filha deles na escola. Cito o pedaço pra vc rir um pouco:
"Sem desconfiar de coisa alguma, eu interferi na vida da filha do açougueiro, que está quase terminando o curso secundário. Na aula de alemão, deram a ela algum velho poema meu e ela teve que tecer alguns comentários sobre ele, por escrito. Resulatdo: um D como nota, lágrimas, uma discussão na casa do meu açougueiro, olhares acusadores que parecer perfurar meu corpo e um filé extremamente duro na minha frigideira."
Também adorei seu Poesia-liberdade: vigiada.
Abraços
ize, você me salvou, é este o ensaio, mesmo: "Modesta proposta para proteger os jovens dos produtos da poesia". quando li o título lembrei da leitura que fiz numa tarde ensolarada no instituto goethe de porto alegre. nem vou editar o artigo, você já o fez com perfeição, fica como uma espécie de parceria, diálogo farterno. abraços!
RonaldAugusto · Porto Alegre, RS 21/1/2008 10:28Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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