Um cine que resistiu ao shopping

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Documentário relembra os tempos de ouro do cine Palladium, de BH
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Fernanda C. Castro · Belo Horizonte, MG
1/3/2013 · 0 · 0
 

“Quem nunca viu, sofreu, chorou por um cinema fechado tem coração de pedra”. Foram esses versos de Carlos Drummond de Andrade que impulsionaram o professor de cinema e historiador Ataídes Braga a pesquisar e publicar um livro sobre a decadência dos cinemas de rua de Belo Horizonte. A capital mineira já abrigou diversas salas em seus bairros, mas quase todas fecharam e migraram para os shoppings. “Foram raros os cinemas que duraram mais de 40 anos em Belo Horizonte; as salas sofreram sua decadência nas décadas de 90 e 2000. Com a chegada do vídeocassete o grande público sumiu das salas de cinema”, explica Braga.
Uma iniciativa ou outra consegue romper o ciclo de fechamento dos cinemas de rua de BH: o Cine Brasil, que está em obras há cinco anos, será reaberto em setembro deste ano e nos últimos dias foi anunciado que o Cine Pathé, que hoje abriga um estacionamento, será reformado e voltará a funcionar, após um acordo entre o Conselho Municipal de Patrimônio de Belo Horizonte, a Farkasvölgyi Arquitetura e a PHV Engenharia. Além dos dois espaços, há um ano e meio o Palladium, fechado em 1999, voltou a funcionar como centro cultural administrado pelo SESC (Serviço Social do Comércio), trazendo nostalgia aos ex-frequentadores daquela que já foi uma das três mais importantes salas de cinema do país.
“O Palladium surgiu na década de 60, quando houve a efervescência do cinema em BH”, destaca Braga, principal entrevistado do documentário “Um certo cine Palladium”, que tenta explicar por que o cinema das poltronas alaranjadas foi tão marcante para toda uma geração de belo-horizontinos. Produzido no ano passado por jovens mineiros, alunos de Publicidade e Propaganda da Faculdade Promove, o documentário traz, além do depoimento do professor, as memórias de ex-frequentadores do cinema do centro de Belo Horizonte, fechado em 1999. Reinaugurado pelo SESC, o Palladium deu lugar a um centro cultural. A antiga sala de projeção foi transformada em um grande teatro. Além dele, o espaço abriga ainda galeria de arte, teatro de bolso, café e uma sala de cinema, bem mais acanhada do que os mais de 1.500 lugares do antigo Palladium.
Inaugurado em 1963, além de uma localização privilegiada, por estar no centro da cidade, da sala ampla e confortável, o Palladium tinha outro diferencial: um som de alta qualidade. O cinema chamou a atenção nos anos de 1970, quando começou a projetar seus filmes com o sistema de som Dolby Stereo, que distribuía o áudio em quatro canais, uma inovação para a época. Braga também lembra que o Palladium privilegiava as comédias românticas, os filmes de amor, o que fez do cinema um ponto de passagem obrigatório para os jovens casais de namorados das décadas de 1970 e 1980: “Vivi grandes momentos da vida ali, namorei muito no Palladium”, recorda Paulo ventura, físico e professor. Depois da fita, havia o segundo tempo, conforme lembra o publicitário Robson Fontenelle: “Antes de ir ao cinema era o preparo, o encontro com a turma, a conversa na fila antes de entrar na sala; depois, era hora de reunir e comentar o filme”.
O contraponto às comédias românticas, que inspiravam os jovens casais de namorados, eram os festivais de cinema. Braga lembra que o Palladium, mesmo sendo “um cinema comercial tinha afeição pelos cineclubistas”, tornando-se um importante espaço de divulgação das produções alternativas de Belo Horizonte: “O CEC [Centro de Estudos Cinematográficos de Minas Gerais]fazia festivais dentro do Palladium. O cinema recebia os cineclubistas, os alternativos, todo mundo que começou a carreira nos anos 50, 60, participava dos festivais”.
Os entrevistados comemoram a reabertura do Palladium, mas têm suas nostalgias em relação ao clima, a objetos e personagens da antiga sala. Relembram do hall de entrada, da sala suntuosa, das poltronas alaranjadas e até de uma figura marcante dos antigos cinemas: “Fui ao Palladium a vida inteira, lembro até do lanterninha”, diz a jornalista Guga Barros.
Segundo o professor de cinema, a ausência de salas de cinema de rua não é um problema somente da capital mineira. Ainda há muito o que se fazer pela sétima arte em todo o país: “O ideal é que muitas salas do Brasil fossem revitalizadas, muitas estão abandonadas. O país já teve seis mil salas, hoje são 2.800 mesmo com os incentivos do governo. É fundamental que existam esses espaços”.

Confira:
Documentário “Um certo Cine Palladium”

Livro “O fim das coisas - as salas de cinema de Belo Horizonte”. Ataídes Braga - Secretaria Municipal de Cultura, Centro de Referência Audiovisual (CRAV), 1995.

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