Foi no feriado de sete de setembro fui assistir Zuzu Angel, de Sérgio Rezende, que está em cartaz na cidade há pouco mais de um mês. Confesso que estava evitando o filme por não ser muito chegada a cinebiografias, uma especialidade do cineasta, habituado à encenação da vida de personalidades que, movidas por razões e métodos diversos, se insurgiram contra poderes estabelecidos em suas épocas: O Homem da Capa Preta (1986), sobre o polÃtico Tenório Cavalcanti, Lamarca (1994), protagonizado pelo lÃder guerrilheiro Carlos Lamarca, Guerra de Canudos (1997), sobre o lÃder religioso Antônio Conselheiro, e Mauá - O Imperador e o Rei (1999), sobre o pioneiro da industrialização no Brasil. Nenhum deles me impressionou.
Acho que foi PatrÃcia Pillar o maior chamariz para assistir Zuzu Angel. E foi justamente a interpretação que me fez rever o filme agora em DVD. A interpretação de PatrÃcia Pillar é um banho de sensibilidade. Sérgio Rezende também me surpreendeu, porque, mesmo que Zuzu Angel tenha o perfil histórico dos personagens retratados em seus filmes anteriores, o cineasta se abstém de dar uma aula de história, ou mesmo de contar uma história linear.
O grande mérito de Zuzu Angel é o fato de Sérgio Rezende não se preocupar em dar uma aula de história. Antes sim, ele conta a história densa de uma mãe em busca do filho, vitimado pela ditatura. Zuzu tinnha uma caracterÃstica que a diferenciava dos outros cinebiografados por Rezende; sua luta começou de forma involuntária. Ela teve sua consciência despertada para o que se passava nos porões dos quartéis em 1971, após o desaparecimento do filho, Stuart Angel Jones (interpretado por Daniel de Oliveira), jovem militante do movimento estudantil que aderiu à guerrilha armada. Até então, Zuzu era um promissora artista que lançava a moda do Rio para o mundo. Via a militância do filho como um inconseqüente e inócuo ato de rebeldia. Em uma cena Stuart lhe cobra estar costurando para vestir mulher de general. Com graça e naturalidade , ela responde ao filho que, assim que ele ganhar a revolução, ela passará a vestir as mulheres dos "companheiros".
O filme começa com Zuzu apresentando sua saga em flashback a partir dos momentos que antecedem sua morte em um mal explicado acidente de carro. É um recurso narrativo que se mostra acertado para acentuar a tensão de algumas cenas, em especial a exasperante seqüência em que Zuzu lê a carta que confirma a morte de Stuart. Ponto alto da dramaticidade do filme, em representação e montagem, faz um contraponto entre a tortura fÃsica do rapaz e a tortura emocional da mãe.
Se há uma seqüência dispensável em Zuzu Angel, ela é o encontro de Zuzu com o ex-marido, a quem procura atrás de informações sobre o filho, pretexto para ela lembrar momentos diversos da vida do rapaz . Há quem diga que o cineasta exagerou ao promover um encontro que não houve, da mãe com o filho morto, numa cena delirante em que é o filho quem embala a mãe, livrando-a de suas culpas e traumas em relação a ele num diálogo imaginário. A cena parece uma referência a música Angélica, que Chico Buarque de Holanda escreveu um ano depois em homenagem a Zuzu Angel,a mulher cujo filho "mora na escuridão do mar. Zuzu só queria embalar aquele filho, que sequer pôde enterrar.
Fatos
A história dá conta de que na madrugada de 14 de abril de 1976, a estilista Zuleika Angel Jones despediu-se de amigos em Copacabana e embarcou em seu Karman Ghia rumo a sua casa, na Barra da Tijuca. Na saÃda do túnel Dois Irmãos, em São Conrado, o carro despencou em uma ribanceira, e Zuzu morreu na hora, aos 54 anos. Poucos dias aantes ela tinha enviado uma carta a Chico Buarque de Holanda. A carta dizia " Se algo vier a acontecer comigo, se eu aparecer morta por acidente, assalto ou qualquer outro meio, terá sido obra dos mesmos assassinos do meu amado filho`. Para Chico, ainda acrescentou a lápis: - Esteja certo que não estou louca. Chico não duvidou. Quando soube do desastre, Chico chamou os amigos, e eles datilografaram cópias da carta, destruindo a máquina de escrever para não deixar rastros. De diferentes postos do Correio, enviaram envelopes anônimos a polÃticos e jornalistas. Depois, esquadrinharam cada canto dos jornais, mas, sob censura, só Alberto Dines cobrou investigação séria sobre a morte de Zuzu na Folha de S. Paulo. - Para denunciar o assassinato de Zuzu, fazia falta outra Zuzu - disse Chico anos depois.
Ainda não entendi o que quis dizer sobre o filme ?
Higor Assis · São Paulo, SP 9/1/2007 17:11Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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