A eletrizante história dos Kimbundos de Angola
em sua saga no maior quilombo do Brasil
Quilombo de Palmares. Letra de Samba enredo? Historinha de livro infantil? Ou seria 'loa' cantada em roda de capoeira? Os livros escolares não aprofundam a questão, passando 'batidos' por um tema que, para muitos, não passa de mais uma dessas bem urdidas lendas brasileiras. História oral, inculta só por que não foi escrita e sendo portanto, improvável.
Mito recorrente, sempre carregado pelas tintas fortes da pieguice desta esquisita cordialidade brasileira, na hora de contar a sua história procuraram enfatizar (talvez deliberadamente, quem sabe?) muito mais a versão do que o fato, mais o pitoresco que o analítico, o documental. Afinal de contas, era a história de 'pés rapados', quem iria ligar?
Teria sido assim que páginas e páginas foram escritas, no Brasil e em Portugal, acerca da obscura e romântica trajetória de Zumbi de Palmares o herói negro mais popular que, segundo contam, como um Jesus Cristo preto teria sacrificado a própria vida para nos salvar, se atirando do alto de um penhasco, ao se descobrir derrotado, mais ou menos como rezava a remota – e também suposta- lenda de
Spartacus, o branco escravo da mitologia greco-romana: 'Epopéia! 'Tróia negra!'. Teria sido mesmo assim?
Pode ser por esta razão que nos livros de história do Brasil de nossas escolas, se encontram muito mais dados e informações concretas sobre a cor das ceroulas de
D. João II (que reinou em Portugal antes mesmo de o próprio Brasil existir) do que sobre certos personagens que, apesar da importância transcendental à formação de nossa ainda precária nacionalidade, continuam relegados à obscuras posições no lado B de nossa História.
Coisa parecida ocorreu com a bem articulada mulher que foi
Xica da Silva, popularizada nos livros - e até no cinema - como um espécie de mulata esperta que, fazendo bom uso de seus atributos sexuais, conquistou o homem branco bom partido (inaugurando o mito da mulata sambista que casa com o turista europeu) ou mesmo
Xico Rei, que podendo ter sido um escravo alforriado que se transformou num bem sucedido empreendedor, acabou confundido nos livros com uma espécie de improvável contrabandista de ouro em pó que, de grão em grão, libertou seus parentes e amigos mais chegados da escravidão.
Você já parou para pensar no que está contido por trás destas eventuais 'histórias da carochinha'? Como elas são construídas (se é que são) – e porque o são- até se tornarem espécies de verdades estabelecidas, cristalizadas como História 'real' do povo do Brasil?
Esta conversa foi muito recorrente na época da Ditadura Militar tanto que, com a Abertura Política, uma onda de revisionismo histórico varreu nossas universidades, com muitas teses acadêmicas sendo escritas para recolocar fatos e personagens em seus lugares de direito. Alguns mitos no entanto, por alguma razão, até hoje não foram revistos.
A idéia é simples (para o bem ou para o mal):Tirar do armário e inserir no desfile (sem alegorias de carnaval) toda esta gente boa, por alguma razão escondida na cozinha deste nosso Brasil- brasileiro- mulato- insoneiro.
Luzes nas coxias, por favor.