Quando jovem, Adelaide não entendia porque não a aceitavam. Pagava os impostos em dia, não se metia na vida dos outros e cuidara dos pais até a morte de ambos: a mãe de câncer e o pai de complicações decorrentes de um derrame cerebral.
Sabia que sua aparência assustava ou deixava indignada muita gente, mas aos 47 anos havia se acostumado a tudo isso. Era como tinha de ser e acabou. Adelaide acreditava que no mundo as pessoas nasciam, viviam e morriam. Simples assim. Por isso tocava sua vida sem grandes mistérios e complicações.
Dona de uma pequena, mas confortável casa, trabalhava na área administrativa de uma agência dos correios no Centro de São Paulo. Não tinha irmãos ou parentes próximos. Raramente assistia ou lia jornais.
De vez em quando saía com Carla, uma puta bem arrumada e que adorava mulheres mais “arrojadas” como ela. Era assim que ela falava:
– Adelaide você é uma mulher arrojada. Podia ser meu homem. Não quer casar comigo?
Não. Adelaide não queria casar, Adelaide não queria ninguém. Adelaide era feliz em sua vida triste e solitária. Isso era decente: cuidar de si mesmo.
Chegou agosto, mês do cachorro louco, mês em que Vargas se matou e Elvis morreu. Após o banho Adelaide pegou sua calça jeans “five pockets”, sua pólo bege, calçou seus mocassins masculinos, penteou cuidadosamente os cabelos curtos e lisos. Seus cabelos negros e fortes eram seu orgulho, sua vaidade secreta e pessoal. Passou um pouco de gel para “assentar”. Seu pai sempre lhe disse:
– Homem elegante é aquele que sabe se arrumar nos detalhes.
Ao ver sua figura "paquidérmica" refletida no espelho, achou-se bonita. A camisa pólo para dentro da calça, o cinto combinando com os mocassins brilhosos, o cabelo bem penteado sem um fio fora do lugar. Sim! Sem dúvida alguma, Adelaide via no espelho um homem elegante.
Naquele dia conheceu Vanusa, auxiliar administrativo em sua seção. Vanusa era um desses pêssegos gostosos, cálidos, úmidos. Moça bonita. Uma mulata de corpo perfeito, sorriso aberto. Quando ria, jogava graciosamente a cabeça para trás, desprendendo de seu pescoço aquele cheiro adocicado, suado, que só moças como ela tinham.
Sua pele era de uma cor indizível. Uma cor que Adelaide nunca soubera definir. Café? Não. Café seria muito bruto para uma dama como ela. Ah! Adelaide gostara também daquele par de olhos verdes. Hipnóticos, brincalhões, que volviam de um lado a outro e depois voltavam de novo para te encarar e quando você achava que ia descobrir algum segredo profundo dentro deles, os danados fugiam em um gostoso jogo de esconde.
Os dias passavam e Adelaide não conseguia desgrudar os olhos da mulata, esta por sua vez a provocava de diversas maneiras: tocava suas mãos sem querer, falava com ela pertinho como se fosse beijá-la, chamava-a de “querida”.
Até que um dia encontraram-se na sala do almoxarifado. Um cubículo escuro, na penumbra de uma lâmpada fraca e cabeçuda. Cheirava a mofo também. Lá caberiam com muito esforço três pessoas bem magras e ainda assim não poderiam se mexer.
Pois lá estavam uma de frente para a outra: Adelaide e Vanusa. Respiração ofegante, Adelaide sentia seus seios unirem-se aos de Vanusa, tocando um ao outro, subindo e descendo em um balé descompassado. Do decote de Vanusa elevava-se uma fragrância misteriosa como aquelas heroínas dos livros que lia.
Seus rostos começaram a aproximar-se, respiração cada vez mais forte, o verde dos olhos de Vanusa acarpetando o castanho dos olhos de Adelaide. Um verdume feito mar do Caribe. Como nos livros. Até que seus lábios uniram-se um ao outro como selo em carta. E quando dera conta estavam se amando dentro daquele armário mofado.
Abriu a blusa de Vanusa, afastou o sutiã, beijou e chupou seus seios. A companheira ofegando, agarrando seus cabelos negros e brilhosos. Adelaide levantou sua saia, correu a mão nas suas coxas, agachou, abaixou sua calcinha e beijou seu sexo. Era quente, gostoso, molhado, tenso. Cheirava bem. Meteu sua língua. Nunca quisera tanto uma mulher como quis Vanusa. Vanusa gemeu, mexeu, sofregou, agarrou as paredes, seus cabelos e gozou em sua boca. Quando deu por si, alguém gritava seu nome em desespero. Adelaide apenas se arrumou, passou a mão na boca, deu as costas e foi-se embora. Simples assim.
Mas depois e nos dias que se seguiram, as duas saíram. Adelaide um perfeito cavalheiro, tratava Vanusa como uma rainha. Vanusa por sua vez, aceitava a proteção e carinho do seu homem. Adelaide tinha uma poupança generosa, fruto de seu trabalho e uma pequena herança de seu pai que guardava em casa, debaixo da poltrona da sala. Bancos não eram decentes. Uniram-se e Vanusa foi morar com Adelaide.
Era um casal feliz, completavam-se. Até o dia, em que uma “gurizinha” de seus 18 anos mudou para a rua. Boné, bermudão, cabelos raspados, magra, quase sem seios debaixo daquelas camisetas largas, completando o visual uma tatuagem em volta dos braços. Aquela visão incomodou Adelaide.
Vanusa por sua vez era só carinho e afeto, chamava Adelaide de “nenê”, cozinhava, lavava, passava. Adelaide era grata à sua maneira com presentes, proteção, amor e dedicação. O que mais poderia fazer por sua mulher?
Havia reformado a casa conforme o gosto de Vanusa: jogou fora móveis antigos de seus pais, tirou as fotos de família da sala e dos quartos, pintou, acarpetou. Colocou o imóvel em seu nome também.
Certa manhã de sábado, quando estavam a caminho da feira, a “gurizinha” topetuda cumprimentou Vanusa pelo nome. Adelaide brigou com ela. Isso não era decente, não era coisa de mulher casada fazer. Onde já se viu? Vanusa disse que era apenas uma vizinha de rua e nada mais, porém se Adelaide assim quisesse não a cumprimentaria mais.
De outra feita, Adelaide chegava em casa e qual não foi sua surpresa quando pegou sua heroína conversando com a “talzinha” no portão. Olhou dos lados, apertou o passo debaixo do tênis Nike que Vanusa lhe dera de presente, grunhiu um “boa tarde” catou a esposa pelos braços e foi-se embora. Simples assim.
Naquela noite brigaram, Vanusa esperneou, chorou, xingou, pediu perdão, fizeram amor. Acabou percebendo a inocência da parceira. Vanusa tinha que ser educada por ela. Em sua ingenuidade dava “trela” demais a estranhos, sempre pronta a ajudar, a emprestar uma xícara de açúcar ou colher folhas de guaco para os vizinhos mais adoentados.
Os dias correram, voaram, voltaram ao normal, mas Adelaide sentia-se invadida por algo que não sabia precisar. Vanusa dizia que era o trabalho, o “stress” da agência de correios. Próximo ao Natal ainda? Coitado de seu “nenê”.
Uma noite, enquanto jantava, Adelaide curvou-se, levou as mãos ao peito e gritou. Um grito forte, espremido, doído. Nunca sentira tanta dor assim. Vanusa acudiu com um copo d’água. Bebeu, engasgou, cuspiu, caiu da cadeira.
Chorou, gemeu. Não sabia onde doía, o que doía. Sentiu-se patética, idiota em sua imobilidade. Não estava enxergando direito. Via apenas sombras. Ouviu a voz de Carla:
– Num te disse que era pra casar comigo, Adelaide? Vanusa, tô saindo fora. Agora você cuida do resto. A gente se encontra depois do enterro...
Adelaide sentiu vertigens, um tremor rápido passou pelo dedão do pé indo para os olhos estatelados de horror e decepção. E murmurou:
– Vanusa, isso não é decente...
– Pode não ser decente nenê, mas é simples assim...
Conto
Parabéns pela sua narrativa, ela prende até o fim.
Tive uma tia com esse nome, Adelaide, acho um nome muito forte !
Um beijo, Alcanu
Vim a convite do Alcanu.
É um conto intenso e intrigante.
Abraço.
Kris,
Gostei muito.
Um belo conto.
Votado.
Um abraço mineiro.
Olá Kris!
Parabéns pelo conto!!Bem escrito e consegue nos envolver até o fim....gostei!
Votado!
bjks bluezen
Rai
ps.Se puder,visita meu cantinho tbém,tá?
bjks blue
Rai
A todos, muito obrigada! Estarei, na medida do possível, acompanhando o trabalho de cada um.
Afinal de contas, escrever é um árduo ofício (um parto, eu diria) e devemos valorizar e apoiar o trabalho um do outro.
Obrigada mais uma vez e abraços!
Kriz,
Sorvi de um fôlego.
Intenso.
Bonito.
Arrojado e singelo. Simples assim.
Alcanu me convidou e um convite dele éuma ordem,,mas olhe adorei o texto mesmo
votado!
Amei teu conto, voto mais que merecido!!
beijos
Como já disse o Alcanu, dua narrativa nos prende.
Muito bom meeeesmo.
Tanto o texto quanto a abordagem.
Parabéns!
Voltarei para os votos.
bjO
Eita como eu to lerda hoje!rs
Eu juro q pensei que tava na edição.
kk
Votadíssimo!
Kriz, é bom ler textos assim poraqui. Pra equilibrar com a quantidade de poesias. Muito massa, viu!
bjo.
Belíssimo conto!!!
Votadíssimo!!!
Abs
beto
Poxa, que preparaçao das duas, hein?
Não tinha ainda notado a sua maneira perfeita de escrever, a sua prosa leve e suave, trama bem amarrada do começo ao fim. Um trabalho de quem sabe o que escreve e como escrever.
Interessante que despertei para visitar seu perfil e suas publicações pela sua matéria sobre o Rio de Janeiro que agora está na home do Overmundo. Sei muitos outros talentos aqui passam despercebidos para muita gente. É muita coisa publicada a um só tempo, que prejudica.
Parabéns
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