BAQUE SECO

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CABIDELLI · Belo Horizonte, MG
29/11/2010 · 1 · 0
 

Era uma segunda-feira se bem me lembro. Não dormia há três dias e meu corpo começava a sentir o peso da falta de sono. Meus olhos ardiam, minhas pernas não acompanhavam os comandos enviados pelo cérebro e tudo havia tomado uma aparência granulada e suja, como num filme de Sganzerla.

Eu ainda me agüentava em pé graças às anfetaminas que havia conseguido com Juan, um filho de bolivianos criado nas ruas enquanto seus pais cantavam músicas típicas por qualquer trocado no centro da cidade. Quanto às pílulas, restavam ainda duas ou três para continuar seguindo em frente, mas isso não me incomodava. O mundo andava girando muito rápido nas últimas semanas e dormir era, definitivamente, perda de tempo.

Naquela época, não passava de um inapto e desatento estudante de jornalismo e vislumbrava nesta “profissão†uma maneira simples e honesta de garantir meu suprimento mensal de entorpecentes. Dividia meus dias e noites entre o mundo sujo e sórdido das ruas da capital e o ambiente almofadado, cheirando a roupa lavada com amaciante da universidade. Não possuía grandes sonhos ou aspirações, o momento me bastava. A unidade eterna de tempo, quando se sabe viver.

Já passava das duas da tarde. Estava em casa, pensando qual de meus amigos desempregados poderia chamar para tomar uma cerveja e jogar conversa fora em um bar qualquer, quando toca o telefone. Era o editor de um pequeno jornal para o qual prestava serviços esporádicos. Um homem repugnante que exalava um cheiro insuportável de creme de barbear e perfume barato. Ele me pedia para apurar uma denúncia de biopirataria em um parque ecológico da cidade.

Como não estava em condições de recusar qualquer trabalho, pois as contas a pagar insistiam em se acumular na mesinha ao lado do telefone. Peguei meu velho gravador, minha caneta tinteiro, única herança deixada por meu pai além das dívidas e do gosto pela vadiagem, e sai em busca da grana.

Tinha os endereços e telefones das fontes nas mãos e sabia que aquela ocupação medíocre não me daria nada além de um câncer ou, com sorte, uma velhice deprimente. Resolvi então passar na casa de Hilary, uma prostituta que morava no centro e havia se tornado uma grande amiga nestes tempos insanos. A coitada havia, de fato, nascido com esse nome, Hilary dos Santos. Não há mesmo outra alternativa para alguém que já nasce com nome de puta.

Cheiramos duas ou três carreiras, conversamos, ela contou sobre um cliente. Um velho seboso que lhe obrigava a vestir as roupas de sua mãe enquanto trepavam. Eu era tão jovem e já havia perdido toda a capacidade de me chocar com qualquer coisa que fosse. Escutava suas estórias com a mesma complacência de quem ouve o sermão de um padre em uma missa dominical. “Tenho que irâ€, disse a ela. Hilary, como de costume, ofereceu uma chupada em troca de um papel, mas não aceitei dessa vez. Estava atrasado.

Desci as escadas do prédio pensando no rumo que as coisas haviam tomado. Segui pela avenida fumando um cigarro, minha dose particular de poluição urbana, enquanto escutava a sinfonia insana da cidade. Os carros, as pessoas se esbarrando, os vendedores de rua aos berros...

Entrei no ônibus e o trocador, talvez enganado pelas cores do meu casaco que nada tinham a ver com futebol, perguntou com a solicitude típica dos imbecis:
“e o galo, será que desce esse ano?" Eu espero que esse time de merda se foda, respondi com educação e procurei um lugar onde pudesse observar o movimento da avenida.

Em alguns minutos estava no parque, como sempre, fechado às segundas. Apenas um idiota como eu não cogitaria essa possibilidade antes de sair de casa. Por sorte, funcionários responsáveis pela manutenção permitiram a minha entrada e me conduziram até a administração, onde fui apresentado a Emilson, um biólogo que passava seus dias comendo cogumelos alucinógenos colhidos no parque e fazendo campanha para o Partido Verde. Era responsável pela preservação e manutenção das espécies ameaçadas do local.

Comecei a apurar a matéria e logo vi que os perigosos "biopiratas internacionais" que ameaçavam nossa fauna e flora não passavam de favelados que moravam no entorno do parque e roubavam alguns animais silvestres para vender no mercado central por míseros trocados. Percebi que estava perdendo meu tempo ali. Então, fui dar uma volta pelo parque, acompanhado do biólogo.

Passeamos pela mata em busca de cogumelos, enquanto fumávamos um bagulho de merda que cheirava a bosta de vaca, assim como Emilson. Não encontramos nada. “Época boa é de chuva, tá ligadoâ€, dizia aquele hipponga imbecil. Então ele resolveu me levar ao moderno laboratório de pesquisas naturais que havia no parque. De fato, o lugar parecia extraído de um filme de ficção científica, com suas máquinas e equipamentos de última geração.

Não havia ninguém no lugar, então Emilson resolveu apresentar o que ele chamava de "a menina dos olhos" do laboratório. Uma orquídea tailandesa, espécie raríssima, da qual só existiam cinco em todo o mundo e uma delas estava ali, cultivada in vitro. Ele mostrou um pequeno tubo com seis sementes dentro e disse que aquilo deveria valer milhões de dólares.

Mas não é possível que um maconheiro de merda como ele pudesse ter uma fortuna daquela nas mãos, enquanto eu juntava moedas para comprar um maço de cigarros. Não era justo! Pensei em todos os dias de minha vida insípida; em todos aqueles que ainda viriam pela frente e não tive dúvidas.

Lancei mão de um microscópio pesado como chumbo que havia em cima de uma das mesas e pronto. Foi um baque seco e o corpo logo estava no chão ao lado da poça de sangue que se formava. Peguei o tubo com as seis sementes e sai calmamente do laboratório.

Passando pela portaria um dos guardas perguntou o que era aquela mancha de sangue na manga do meu casaco. “Meu nariz sangra muito nessa época do ano, por causa do tempo†respondi, tentando esconder minha paranóia. Ele então resmungou qualquer coisa sobre o tempo e abriu o portão.

Foi o suficiente. Passei por ele e mandei tudo e todos à merda. O aluguel, as dívidas, o jornalismo, todos à merda. Aí então, pude colher os frutos de minhas seis sementes no mercado negro. Nosso saudoso Emílson estava enganado, elas valiam mais de quatro milhões! Dinheiro suficiente para mandar o mundo inteiro tomar no cú por pelo menos três ou quatro gerações.

Hoje, quase cinco anos depois, sentado nesse paraíso tropical perdido na Indonésia. Enquanto Ema, minha amante tailandesa, aliás, capaz de fazer as maiores e melhores depravações com os músculos pélvicos, nos prepara um cachimbo de ópio, eu me divirto pensando no dia em que tudo isso aconteceu.

Era uma segunda-feira se bem me lembro...

Sobre a obra

Literatura suja, suada e sacana

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Edwaldo Cabidelli
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