“Nesta rua tem um bosque que se chama solidão
Dentro dele mora um anjo que roubou meu coração...”
Trançava as fitas coloridas, dessas miúdas, bem fininhas, ordinárias à vista grande, restos de tecido velho da avozinha. Iria cobrir e enfeitar a boneca, companheira colada das brincadeiras em tardes longas.
Dia nascido era sempre igual ao ontem.
Nenhuma diferença no puxado dos homens, café amanhecido em panelinha gasta de alumínio, horas que pingavam nos ais da mãe. Não lhe apetecia trabalho, descascar mandioca, subir barranco trazendo água, destripar peixe, sentia dó de animal morto. Ainda que fosse peixe.
Nunca pensou que gente viesse a nascer sem dar para nada. ”Para tudo se acha serventia”, ladainha da mãe.
Mas pouco importava com que o mundo iria querer dela. Talvez o mundo até a esquecesse, deixasse de rodar o tempo. Continuaria correndo, se escondendo dos que caçoavam de seus modos de passarinho solto, despenteado.
No fundo da mata se fazia alegre, catava as pedras, mastigava fruta madura dividindo com os bichos, se caísse do chão, mal não fazia. Soprava a terra, rindo alto com seus dentes branquinhos, e se esparramava depois nas folhas mornas, os pés sentindo a força do igarapé.
A casa acolhia de noite o cansaço das mãos que tinham rasgado o leite das seringueiras, desfiado, costurado, batido nos filhos, mãos queimando ao sol e descansando somente para enxugar o suor.
Para escapar dos ralhos da mãe, Aneci buscava abrigo no colo da avó, única a guardar doçura. Com seus dedos leves, abria caminhos na cabeça da neta, desfazendo os nós, e cantava baixinho até a menina fechar os olhos.
Obrigação de achar serventia, sombra a perturbar a correnteza de Aneci.
Ajudava no que podia, mas logo o espírito voava e quase sempre era um copo rachado, líquido escorrendo, e a reprovação dos adultos. Espremida entre os irmãos não era de idade certa. Sabia que era de feitio menor porque acertava em seu corpo os vestidos de Arlinda, filha dos lavradores vizinhos. Tinham nascido com um dia de diferença, mas Arlinda já despontava em exuberância, grande, vistosa.
O sonho de Aneci era de um dia desembrulhar qualquer coisa de novo, que não necessitasse remendo.
Quando o regatão encostava na beira do rio,era o tempo dos negócios.Melhor preço para a borracha,cortes e aviamentos trocados por castanhas,couro e outros produtos.
Tempo de agrado às mulheres se desejo existisse em noites esquecidas da rudeza do trabalho. Acordo selado entre homens, destino que não traz cor...
Encostada na parede, sentadinha no chão, ajeitava a boneca sem notar o convidado, comerciante solitário, olhar escorregadio feito pedra limosa. As palavras foram ditas aos sussurros, "mui magra, não parece ser resistente”, "pequena, mas, de grande adianto caseiro. Faz de um tudo”, e a mãe chamou a menina.
Mal se agüentava de manhã. O primeiro grande passeio, talvez fosse verdade o amor da mulher. Que nunca sorriu ou derramou lágrima.
"Posso levar a boneca?”. "É. Pode”. De longe acenava para a avozinha, os bracinhos esticados, alegres, o regatão puxando o barco cheio de carga nova, rindo por dentro, saliva a escorrer pelo canto da boca.
De longe nem se apercebia do véu de tristeza nos olhos da velha cabocla...
Desembarcaram em terra e Aneci encheu a vista. Tanta gente reunida. Ganhou pacote de doce, tirou foto montada em cavalo de madeira, quando ele estendeu um embrulho amarelo. O que viu era o vestido mais lindo, de tão formoso que parecia ter todas as cores do mundo. Foi sua última alegria.
Mal voltando ao barco, não houve explicações.
Pobre escudo de ilusão, o vestido foi a primeira coisa a ser rasgada. Descobriu, fascinado, o corpo da menina, apertou em suas mãos sujas e enormes os cantos inocentes. Ela emudeceu tamanha a dor do abandono.
Então para tal se nasce, para descobrir o desalento. E no final dessa festa enegrecida, suado diz o regatão:
“Agora, limpa tudo! Cedo a gente parte”. Limpar o corpo manchado e mordido. Nunca mais aquelas flechas iriam sair. O riso secou, a música da avó secou, o que ouvia era as palavras da mãe...cedo ou tarde se acha serventia...
Não queria ter crescido.
Cada filho veio porque o tempo é mais forte, gira mesmo sem vento. Vez ou outra se pegava olhando a fotografia gasta.
Lembrança doída. Como do dia seguinte que cavou a terra, enterrando a boneca, e deitou sangue três dias seguidos. E ainda assim, ele não se incomodou.
Mas, mesmo que se esconda, a inocência continua a existir.
E basta um dia para que ela apareça. Apenas mais um dia comum. Aneci nem mais olhava a cor do céu. Não lhe interessava. A trouxa cheia de roupas, se acomodou na beira do igarapé. A água veio mansa, inundou sonho.
Um homem cor de prata rompendo ao entardecer.
Suave beijou-lhe os ombros morenos, descobriu pela primeira vez o corpo fustigado de tristeza e mágoa. A vida, então queimava. Ele se perdia entre seu corpo, seus seios e seu sexo.
Ela provava alucinação. Ele soprou música. Que já não se encontrava. Ela retornou, a menina que corria,sujava a mão, chamava os bichos, tinha finalmente se tornado mulher. Pela vontade.
Não precisava mais do mundo.
Foi a última vez que a viram. Disseram que tinha se afogado na escuridão.
Mesmo que se esconda a inocência continua a existir...
Que belo conto. Pertinente para uma discussão sobre o rito de passagem do feminino, tema que abordas nos seus escritos de maneira tão original e peculiar, estou "viajando"?rs
Cito aqui: "Dia nascido era sempre igual ao ontem."
Como passagem bem construída e contraponto de seu texto, inspiração para se deixar a criação/transformação se assuceder...
Perfeito.
Parabéns
beijo
Não é viagem nenhuma,Cristiano,rsrsrs...Me interessa o castelo feminino,refúgio de onde temos que aprender a sair.Aneci é menina,infelizmente arrancada da sua infância.não me faça corar com elogios,e ainda bem que temos essa proteção virtual,pra não ficar tão exposta,mão suada,e sem saber o que dizer.Ah,sim,obrigada! Beijos.
Luciana Nabuco · Rio de Janeiro, RJ 14/7/2008 17:31Rascante, seco contraste com a umidade dos igarapés. Muio bom.
Marcos Pontes · Eunápolis, BA 14/7/2008 18:21
Marcos,obrigada! Secura da alma da mulher,secura de amor de mãe,secura por não conseguir soltar sonho na vida...E disso Aneci tinha,tinha sonho,chão bom,mas uma hora ou outra se é arrancado do paraíso como se fosse erva daninha,como se a gente fosse manchar,destoar da perfeição dos que nos querem encaixados,rígidos e embalsamados na sem gracice da vida...Um beijo
Luciana Nabuco · Rio de Janeiro, RJ 15/7/2008 00:30Votos para as Anecis que perderam o gostinho bom que a vida pode ter.
Marcos Pontes · Eunápolis, BA 15/7/2008 13:01
Um castelo de sonhos.A alma em busca,sonhos arrancados.e o paraiso era logo ali.
Lindo minha querida.
Aceite meu carinho.
Votos mais que merecidos, continue!rs
beijos poéticos na face vermelha...rs
Aneci nem mais olhava a cor do céu... E são tantas Anecis, não é? Tantas...
Maravilha de texto, Luciana, como todos os teus que li até agora.
beijo
Nydia
Fantástico texto Luciana. O final amarrado ao inicio com uma leve e sutil escrita. Voltarei.
Abraço autografado
Luciana
Triste conto, relata a relidade de tantas Anecis, com mães desnaturadas e uma vida ingrata .
bjsssssss
Estou no aprendizando do reconhecimento dos sonhos...Olhando do altinho desses meus anos de vidas,fazendo uma média de 212 anos...ai minha coluna,filho,cadê meu chinelinho,é...olhando minha ninhada(podem acreditar que é mesmo uma ninhada!!!),meu casamento que está virando a página,meu coração esmigalhado,em tantos anos de dedicação e acreditar,mas e a hora em que não se é mais ninguém,ou o que é pior,que não nos lembramos mais do refúgio da infância e de quando se sonhava...O que vale então? O que se leva desse mundo por vezes sorrateiro e por vezes encantador? O que se leva,o que se carrega são os nossos sonhos,e por mais miúdos,jamais podem ser desprezados por nada.Nem ninguém.Se terei que ser condenada qual uma ímpia e maldita à solidão,então não negarei minha paixão.Sour ser da àgua,donzela da lua incostante,Salomé a desejar o impossível,mas que seja então essa pequena...que eu volte ao passado e ainda consiga rever a criança inocente a olhar o céu e sua primeira estrela...Para isso nascemos,para jamais esquecermos de qual estrela forjamos os nossos sonhos.Obrigada,mil vezes,gracias e gracias,é meu jeito envergonhado de abarcar esse carinho todo e despejar um pouco de mim.Obrigada pela minha querida Aneci...
Luciana Nabuco · Rio de Janeiro, RJ 16/7/2008 03:13
"Pesso licença" para dar-te meus elogios...
Narrado com um forte vento... arrastando e assegurando-me o final,
cujo muito bonito...
Adorei..
Luciana.
Que legal, menina!
Fiquei emocionado com essa leitura.
Parabéns
Cantiga Para Aneci
Luciana Nabuco · Rio de Janeiro (RJ) ·
Em texto admirável
Carinhosamente estou aqui votando pelo talento no trabalho primoroso.
Narração de emocionar
Parabéns tem todo mérito.
Abração Amigo
Em tons de lenda...uma realidade cruel e real....que final incrível,Luuu!!! LINDO DEMAIS!!
Mesmo que se esconda a inocência continua a existir na escuridão da alma... porque está impregnada no espírito...
Narrativa cheia de tons...quase pintura das paisagens e personagens de tão bem descritos...pintados na tela de sua imaginação tão bela!
Super parabéns,minha linda!
Emocionantee!
um beijinho azulzenmístico...
Raiblue
"Então para tal se nasce, para descobrir o desalento." Quanto desalento, menina! Mas o conto é bem escrito, parabéns.
Beijos.
E como dói a perda dos sonhos e do paraíso.
Luciana, gostei do seu conto.
Beijo.
Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
Está no ar o blog de pesquisas do Instituto Overmundo. Você já pode encontrar lá os primeiros dados da pesquisa “Análise de modelos de negócios... +leia
Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!
+conheça agora
No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!