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Desconto

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wam nick · Recife, PE
11/6/2010 · 1 · 0
 

Descontos.
Era senão uma mesa de bar típica do centro, numa noite de quinta, destas animadas, com todos da mesma turma de teatro, de dança, de música, uns empresários de outras áreas e duas ou três mulheres, namoradas e esposas dos mesmos comemorando em total afinidade o sucesso de estréia de um novo espetáculo. Ao todo eram doze ou mais. Sorriam e lembrava-se de como era divertido em outras épocas os tais programas juntos. Eram raros os encontros entre eles. Um deles, Pablo estava de bem com a vida e evidenciou certo desconforto ao ser indagado sobre o paradeiro de Helena, jovem bailarina com quem mantinha um caso amoroso e não estava ali aquela noite. Cabulou-se e passou as mãos nos cabelos castanhos, claros, brilhantes e cuidados. Apoiou as costas ao assento. Soltou à fumaça de cigarro. Regurgitou:
- Deve estar em casa. Pior é que não dá nem pra tentar uma ligação.
-Por quê? Chama ela aqui... Vamos juntar todo mundo pra comemorar os velhos tempos - Osório indagou distraído.
- Ta viajando mesmo, irmão? Esqueceu que a mulher é casada?
-Éeee, Caramba... Foi mal... Caracas, ela ainda tá com aquele “carinha”?
-Aquele mesmo. Ah anos.
-Mas eles não tem nada haver, meu velho. Nada haver. São como água e óleo...
-Mas os opostos se atraem, não dizem?
Risos.
Helena conheceu o cara num trampo. Ele produtor musical de origem pobre, mas que acertou em alguns trabalhos e emergiu, morando agora num bairro de classe média. Ela bailarina, atriz, cantora, de boa criação, tendo freqüentado boas escolas e convivido com a elite desde cedo. Paixão de verão, destas que nem se sabe onde começa, mas começa. Fim só Deus sabe como dar. Deste encontro vieram três filhos. Em escadinha, um após o outro. Nisso vieram os problemas. O desgaste natural se pronunciava ainda mais com a crise econômica e cultural do país aquele ano. Sem conseguir trabalhos mais rentáveis, com o ramo da música decaindo, ele atenuava-se em silêncio e inquietude severa. Era a sua maneira de repensar os erros da carreira e acertar as coisas até que surgisse uma idéia salvadora. Conservador e pouco sociável, de certo machista. Criado em família de muitas mulheres.


Peculiarmente dedicado e caseiro. Preferia viver em família, visitar os poucos amigos com quem estava sempre. Evitava novas amizades e intervenções. Protegia-se assim. Cuidava da casa e dos filhos como uma galinha velha. Lavava a louça, varria a casa, arrumava as camas e contava estórias pras crianças dormirem.
Poucos amigos de Helena o viam pessoalmente. Mas os que o viram o consideravam estranho. Quieto e amargo. Parecia castrador, desconfiado do mundo. Não sabiam o que ela tinha visto naquele homem. Não era em si mal apanhado, era de um olhar inquietante.
Como se deslocado dela, de sua vida, de sua maneira. O imaginavam assim.
Helena era um protótipo de “pseudo-burguesa” que se pretendia não envelhecer nem perder determinadas regalias.
A maior delas com certeza manter-se dentro dos vícios, na noite, indiferente aos filhos e a nova vida de maiores responsabilidades que contraíra irresponsavelmente. Tinha babá pra cuidar deles. A idade das noitadas não passava, era Helena uma eterna adolescente. Precisava daquilo. Ele, no entanto odiava com todas suas forças tal postura. Tolerava por amar, pela família, pelos filhos. Seguia firme. Sempre que podia contestava tal proceder e criava com isso um tumulto. Discussões e cobranças sucediam-se. Ela o expunha ao ridículo. Cuspira em seu rosto. Traia-o a olho nu. Ele abatia-se com o passar de cada dia. Como uma velha árvore ao vento, ruindo em migalhas apodrecidas, descascando ao corrosivo efeito da dor.
Uma muralha de fé e esperança de que tudo poderia mudar com os novos ventos.
Ela cética demais. Ele crédulo demais. Quase ingênuo.
Mulher muito bela de dotes artísticos inegáveis, Helena era revisitada sempre e, portanto por seus amigos. Seus ex-amores acumulavam-se. Lidar com aquilo era bem difícil a ele. As amizades dela não ajudavam. Aquela gente toda afetada, drogada, fazendo terapia, com a maconha portátil. Sempre á mão. Zumbis sistematizados.
Pablo entra na vida dela anos antes que o então esposo. Conheceram-se durante um festival de dança em Minas. Rolou um clima e deste algumas noites ardentes. Ele bem casado, se viu em dificuldades em manter uma relação aberta com ela. Mas os encontros se sucederam. Sempre que podiam se pegavam. Atracavam-se. Falavam-se vez ou outra por telefone. Mesmo enquanto grávida eles se viam. Até transavam. Mesmo grávida ela o encontrava em segredo.
Ela o havia advertido da desconfiança do marido. Este interceptara telefonemas, adivinhava encontros, pressupunha tudo como um radar cego. Não tinha o alvo certo, atirava as pedras às vezes em pobres coitados, a esmo... Mas um dia poderia acertar. Isso ela temia. Combinaram por verem-se menos. Era prudente.



Daí as crianças cresceriam e ela poderia dar-lhe um chute nos fundos e voltar às rodas de amigos, as farras noturnas, aos novos amores. Era esperar um pouco e a coisa rolava. Tomaram uns anos nesta expectativa macabra.
-Garçom, traz a melhor aguardente aqui pro meu amigo cauterizar um amor.
-Huhuahuahuahuahauahua..._Quer matar a saudade com cana meu chapa?
-Mulher da porra. Moreira. Mulher da porra.
Pablo lembrou neste momento num “flash” um dos encontros com a bela Helena num motel ali perto. Sexo ardente. Fumaram um baseado, sentaram-se a cama, ainda desnudos, contaram suas passagens a tempo. Ele levantou-se a ir ao lavabo. Ela, da cama, confessou:
-Tu és muito gostoso. Andas como um Deus.
-Eu? Tás babando aí é?
-Lá em casa quando o outro levanta da cama,nem bunda tem, só a ceroula franzindo nos fundos.
- Tás fazendo o quê com um merda destes?
Ela deu um gole na cerveja. Apanhou o controle da TV e mudou de canal.
Referia-se Helena ao esposo num tom de desprezo que magoaria até o papa. Pablo sorriu e seguiu ao banho. Ela logo se atou a ele. Abraçando-o pelas costas. Mordendo-o com desejo e com malícia. Passaram ao sexo outra vez ali mesmo. Esgotavam seus desejos e sua libido em quatro horas de intenso labor adúltero e furioso gozo.
Ele pareceu flutuar em outra realidade e acordou na batida seca do copo miúdo na mesa, e no fluido de álcool e fermentado de cana-de- açúcar que o garçom acabara de propiciar ao seu olfato, enquanto enchera até a borda o recipiente. Tomou num gole único e fez careta enquanto o líquido lhe aquecia a garganta e corava-lhe as bochechas.
Logo depois ergueram suas tulipas cheias de boa cerveja e brindaram o encontro. Um baseado corria sorrateiramente a mesa. De mão em mão.
Passaram a falar de outras estradas, de outras passagens. O riso e a crítica saltava-lhes da boca como confete em dias de carnaval.
Imperceptivelmente dois ou três homens aproximaram-se deles. Bem vestidos. Saudáveis. Sentaram numa mesa próxima. Pediram uma bebida. Sorriam e conversavam animosamente.
Ficaram ali pouco mais de quarenta minutos.


Pablo só percebeu que um deles estava próximo quando este o abordou.
-Sr. Pablo Ximenes?
-Sim, sou eu?
Cinco tiros de calibre 45 foram disparados em seu peito e face. De tão perto que queimara a pólvora sua camisa de boa seda. Rápido, frio, seguro o algoz parecia estar sozinho em meio a uma multidão apavorada que corria e saltava ao chão em pânico absoluto.
Da mesma maneira com a qual surgiram como fantasmas os três se foram.
Pablo morreu primeiro em coragem, depois em carne quase que imediatamente.
Em sua mente apenas uma imagem se mantinha, e não era inesperadamente a de helena, nem de suas noites de sexo ardentes recém citadas aos amigos, nem de qualquer outra mulher que o fizera gemer em gozo. Era a clara imagem de sua esposa e filhos sentados a sala de sua casa numa tarde de domingo. De pipoca e refrigerante. De um chão fresco que lhe servia de palco pra brincar com o mais novo, alçando-o ao alto, mordiscando-o as bases da costela, sentindo suas contorções e ouvindo seu riso incontrolado provocados pelas cócegas. Felicidade genuína. Impagável. Riqueza tantas vezes relegada.
Balbuciou em meio a bolhas de sangue que teimavam em jorrar de si, de sua face antes bela e agora desfigurada frase curta e inacabada de suas ultimas palavras:
-Eu... Viveria mais se pudesse... Pra cuidar de vocês... Meus... Meus Amores...
Helena só foi avisada dias depois. Uma amiga ligara informando-lhe tal dissabor.
Ela não soube o que pensar nem exatamente o que dizer. Desligou o telefone. Muda.
Foi ao quarto e deitou numa cama que parecia afundar com todas as toneladas de culpas empilhadas que lhe eram atribuídas por memória cruel e desfigurada. O marido a esta altura já se havia ido de casa, pediu divórcio. Já há muitos meses não se viam ou se falavam. Dava a pensão das crianças e resumia-se nisso.
Helena não conseguia chorar.
Pretendeu voltar pra terapeuta o quanto antes.



Wamberto Nicomedes Junho de 2006.

Sobre a obra

Conto do cotidiano desta nova era de tanto desconforto e nenhuma moral. Lembra a vida como ela é mas é mera INSPIRAÇÃO.

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