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Estou desencantado. Parece que entrei numa bolha e perdi a saída. As horas vagam lentas, a cabeça pesa e a vontade é de acender um cigarro, mas, eu nunca fumei. Quem me garante que isso não seja algum sintoma? Um aviso, um prenúncio de qualquer coisa. Sei lá se boa ou ruim. Mas também não quero que ninguém me garanta nada, não quero contato, ou que me vejam.
Uma sensação de fracasso com preguiça e falta de coragem. As costas arqueiam como a querer revelar uma corcova inexistente, os olhos embaçam e remelam. Não tenho nenhuma vontade de despir o pijama ou sair à rua, mas, mesmo assim, fico nu. Quero a escuridão, mesmo sabendo o quanto ela me fará temer mais ainda o que desconheço. Detesto telefones, puxei o fio da parede há dias. Nem sei que horas são, se dia ou noite, tanto faz, durmo quando tiver sono e pronto.
Brigo com os meus fantasmas que, cometem uma performance indigna das suas famas e, nem me assustam mais. Não há diálogo entre o que eu quero e o que existe, uma vez que falamos dialetos perpendiculares. Encho-me de uma coragem vazia, visto a capa de chuva e decido enfrentar a garoa gélida, apenas para ter certeza de que ainda estou vivo. Vou visitar alguém no cemitério.
Ponho-me, em desencanto, de frente a sepultura, não sem antes olhar os pássaros pululando entre as árvores. Abutres seriam mais apropriados ao meu estado de espírito. Já há uma lua alta, gorda e tenebrosa no céu. Baixo a cabeça e mergulho no turbilhão das memórias.
“Divirjo senhor! Divirjo de tudo que seja proferido pela sua boca, com enfeites de cárie e hálito de mamute. Divirjo da tua carne bem passada, da tua roupa mal passada e, do teu passado assim assado. Divirjo do teu gosto de não ter gosto pra coisa alguma. Isto posto, me considere teu mais ferrenho e menos abstêmio opositor. Beber pra agüentar é coisa de um século remoto, portanto faz tempo que alguém proferiu verdades no mais honroso pileque. E, cá todos são pilhados pela falta de uma sobriedade que nunca existiu, ébrio ou não. Vivemos eternamente em tempos de guerra. O potro nasce dando coices e, tudo que é singelo, fere. Basta descascar o inofensivo que, lâminas e garras conferem suas presas. Divirjo senhor da tua fala mansa dando ordens de morte. Divirjo dos teus gestos de fins letais. Divirjo até do seu epitáfio: `Aqui jaz um nobre pobre que trouxe mais duas almas ao mundo para recuperar a dignidade perdida`. Pois sim, duas vidas, duas filhas, ambas pobres prostitutas!”
A dignidade não está no bordel, creio eu, mas, vamos procurá-la. Segui na mesma hora, a pé, cortando a fina garoa que agora enregelava os meus nervos, até o Coisa Fina, o bordel mais caro do lugar. Acomodei-me no bar, após pendurar a capa de chuva na recepção e, sentado ao balcão, pedi um uísque. A decoração kitsch ofuscava o meu bom gosto, mas, algo me dizia que nada ali poderia ser melhorado. Olhei atentamente ao redor e lá estava a mais velha, Veridiana. Pus o meu ouvido esquerdo a trabalho do fiapo de diálogo que se desenrolava entre a mulher e, o nerd branquelo com cara de psicopata.
“Não temos fantasia de Mickey senhor”
“Não estou lhe pedindo uma, eu trouxe a minha própria”
“Vai precisar de queijo no quarto?”
“Você já têm o camembert pronto que eu quero, portanto não há necessidade de ordenhá-la”
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