O cesto azul me olha. Gosto dele, quando está vazio. É lindo, viro satisfeita, útil, organizada, mulher-maravilha, vencedora belicosa, vingadora e doce, que detesta e idolatra o inimigo. Missão cumprida.
Vencê-lo é uma batalha masoquista envolvendo turbilhão de atividades cognitivas que oscilam entre o tédio, a ansiedade e a prazerosa satisfação.
Começa com planejamento. Duas horas livres, é agora? Acho que passa aquele programa sobre extração de minério de ferro, vai ter que ficar para depois do documentário da tartaruga tigre-da-água e do leilão de potrinhos.
Em poucos minutos ouve-se o gemido suplicante, pobrezinho está jogado no canto, sobre o gaveteiro de plástico e encostado no azulejo gelado de galhozinhos marrom-escuro. Pelo menos está perto da janela, tem vista bonita, pára de reclamar, caramba!
Quando o silêncio retorna é uma bênção. Esqueço completamente de sua existência, exceto pelos malditos lapsos de memória que explodem quando é preciso ultrapassar a segunda metade da cozinha, que dá acesso àquela-região-que-não-falamos-o-nome. Após uma série de setenta e dois episódios como esse é preciso encarar o bicho.
O equipamento de apoio é precário, manco e há uma semana perdeu parte do revestimento, o que agora me obriga a ajeitar, inutilmente, a abinha de tecido do canto arredondado a cada segundo e meio. O armamento até que é jeitosinho, não há do que se queixar, embora na maior parte do tempo imploro em silêncio para que algum dispositivo interno pife e nunca mais venha a funcionar, só assim tenho uma desculpa plausível para voltar a assistir o descarrego das seis. Imagina quando minha avó usava os de lenha? Hum... tomara que hoje o Zé tenha piriri e não vá buscar os toco – bem mais cruel, com certeza.
Não há momento mais inspirador quanto os encontros semanais com o cesto azul: por que não paro de sonhar que entro por engano no banheiro masculino? Deve ser uma crítica auto-machista por ter acertado em cheio o feijão de ontem, no próximo coloco folhinha de louro, vai ser de matar. Como se escreve beufór roxo? A lua deve influenciar o humor das pessoas. Se cortar franja fico com cara de menininha. Ainda tenho visa-vale, genial!
Confesso, cada movimento é um lindo e inesquecível aprendizado. Curvas deslizantes bem-sucedidas, jogada esperta de manga para o lado ou coreografia milimetricamente formulada para a dobradura ficam para sempre no coração de quem vive essa arte. Finalizar sem um risco sequer de amasso é a redenção.
Vida longa ao cesto azul.
.. o que seria dos cestos azuis se não fossem as super mulheres maravilhas mães modernas múltiplas meta-capazes ..
Israel Prochmann · Curitiba, PR 20/11/2006 16:31É inegável a praticidade valiosa que nos dias de hoje o universo virtual nos proporciona. Porém, nossas vidas continuam as mesmas sob outras perspectivas...
Angelo · Campo Grande, MS 30/11/2006 16:36
muito bom Alina, belo trabalho.
Carlos Magno.
Isso me faz pensar que para algumas pessoas o cesto possa parecer meio cheio, enquanto que para outras, meio vazio... hehe
Gostei bastante do texto! quando vai botar aquele seu blog no ar, han?
Ronaldo
Pois é, pois é, o blog... está quase! Prometo!
Carlos e Ronaldo:
que bom que gostaram do texto! Ainda vou postar uma série sobre tantas outras atividades domésticas... aguardem :-)
Beijão.
Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
A Revista Overmundo está chegando ao fim de sua primeira temporada e você não pode perder a oportunidade de colaborar! A edição nº 6 da revista,... +leia
Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!
+conheça agora
No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!