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O Último Dia

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Luciana Nabuco · Rio de Janeiro, RJ
7/8/2008 · 142 · 17
 







De repente a alma se invade por qualquer tipo de lembrança... Até que acredita ser real os sonhos mentirosos que dançam em volta dos olhos.
Salustiano sempre foi ordeiro, correto no trabalho, funcionário dos correios há mais de anos, obediente em casa, dos seus a bem dizer era um capacho e daqueles bem grosseiros que os outros esfregam as solas com vontade...

Sua única transgressão era quando na feira ia atrás da mulher, levando o pesado, e furtivamente mergulhava as mãos nas sacas de feijão escondendo o punhado no bolso para em seguida com petelecos certeiros, mísseis vegetais, atingir os traseiros gordos daquelas pomposas.

Mas naquela sexta-feira, às portas do carnaval, ele voltava para casa mais encolhido do que de costume. Perdeu o emprego para aquele rapazinho, ele, Salustiano, que na sua bondade tinha inclusive ensinado o pulo-do- gato!

Solitário no meio daquela gente leve, que se espalhava cantando refrões de velhos sambas, ele retardava seu passo à medida que avistava o fúnebre portão descascado da casa em Madureira!
Dentro do bolso do paletó o envelope pardo que já tinha como destino as mãos ávidas de Ernestina.
E o que ela diria, quando soubesse que ele foi largado como uma meia puída? “Inútil, velho, acabado, não vale a manteiga que passa no pão!”.
Nessa linha invisível do seu caminho ele previu a mudez que o sufocaria dali em diante, e lembrou-se de quando em criança desfolhava uma flor só lhe restava o malmequer...

Abatido e resignado, tateava parado à procura da chave, quando um calafrio eriçou os pêlos do braço.
Um assobio longo esquentou o sangue congelado de Salustiano, e um homem distinto, de terno claro e panamá muito aprumado faiscava em sua direção do outro lado da rua como se fosse a última árvore do paraíso, de frutos que se oferecem sem pudor.
Ele se viu tentado a fugir daquela vida oca.
Quando se deu conta já tinha entrado no ônibus que o levaria à Praça Onze tendo como companheiro o tal homem reluzente, sempre de longe, que alisava o bigode e lhe sorria cúmplice da grande travessura de Salustiano.

Começou com duas notas retiradas do envelope.
Gastou num boteco na Carioca, e em pouco tempo já havia se tornado amigo de fraldas do dono do estabelecimento e de quebra de todos os bebuns perdidos à procura de molhar as palavras...
Tudo de ruim desaparecia porque Salustiano voava longe, sem desejo de ser encontrado. Iria findar até o último tostão os míseros anos trabalhados no encantamento de um carnaval que pulsava estridente a lhe exigir toda vida que lhe fora negada.

E dentro dele um calor que não podia mais ser retido. Suas faces se avermelhavam porque lhe respigava entre odaliscas e colombinas tropicais o hálito da verdadeira alegria que não tem vergonha nem pede licença, que corre no riso frouxo e mesmo infantil e que premia com um beijo o folião desgarrado...

Sentiu-se importante pela primeira vez, legítimo homem, seu corpo tomou nova forma, como se tivesse ampliado para dar mais espaço a esse novo ar que de tão puro lhe entorpecia e bambeava as pernas e as fazia rítmicas, dançarinas, sonho das mulheres de sandálias douradas!

Não lutou mais contra a música, seguia e cantava naquele movimento frenético como se incorporasse as almas soltas dos sujos e esquecidos.
Sempre foi a ovelha gentil e recuada que se deixava tosar até descarnar a pele, com o prato de comida na mão esperando uma caridade e nunca chegava sua vez. Nos seus pesadelos jamais alcançava a mesa que medonha ia se distanciando e lhe pondo atrás, sempre atrás dos outros...

Quando chamou o menino de canelas finas que vendia as máscaras, chapéus, buzinas e confetes, ria por fora e por dentro naquele doido prazer de gastar o dinheiro em algo não atrelado à realidade.
Que somente é fantasia desmanchando ligeira como açúcar nas veias de Salustiano...
E seguia o cordão desabrochando pelas ruas em sonoras gargalhadas. “Esse carnaval eu atravesso sem dormir! Sem dormir!”.
Vestiu-se de fogo decidido a cumprir a promessa e já era dono das rodas, abraçado às mulheres, requebrando-se nas ancas daquelas jóias preciosas. A batucada comia solta e Salustiano sem missão, sem pressa, fauno de pele curtida que exalava agora perfume de bem querer...

Mas no clarão da madrugada o dono da rua se fez visível aos olhos ardidos de Salustiano. E o dito brilhava sabedor da sua faceirice mulata, espanando o panamá com suas mãos longas...
Ao mesmo tempo em que gingava na direção do espantado homem paralisado e em duas piscadas sóbrio como um padre.
Que sustentou o olhar, não abaixou a cabeça. Não cedeu aquele medo perpétuo dos covardes. Não sorriu. Estava apenas em frangalhos, o corpo moído, e perdido no mundo. Súbito, porém, reconheceu o amigo.
A sombra dos seus sonhos que batia para fora do peito e Salustiano não poderia mais escondê-la.

No amanhecer azulado daquela quarta-feira morna, rodopiava em cores cintilantes e ferozes toda a beleza daqueles poucos dias chupados até a última gota que agora se desfaziam na alma de Salustiano.
Virado pelo avesso, inocente e enfeitiçado pela vida, lentamente por fim ele fechou os olhos sem deixar de sorrir...

Sobre a obra

O encontro de Salustiano com um encantado em um carnaval esquecido...

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Luciana Nabuco
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Renato de Mattos Motta
 

Sensacional!
Quem nunca teve em algum momento um ataque de total irresponsabilidade? Ainda mais num momento em que o mundo parece ruir à nossa volta?
Adorei!

Volto pro voto!

Renato de Mattos Motta · Porto Alegre, RS 4/8/2008 19:06
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Luciana Nabuco
 

Renato,gracias pela correção!! Ah...o Salustiano precisava de toda essa fuga,não é? Um beijo!

Luciana Nabuco · Rio de Janeiro, RJ 4/8/2008 19:17
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Marcos Pontes
 

Foi-se feliz. Não é essa a função do Carnaval? Fuga e ilusão na felicidade eterna? Salustiano tirou até o último sumo dessa função.

Marcos Pontes · Eunápolis, BA 4/8/2008 19:38
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joe_brazuca
 

"...sentiu-se importante pela primeira vez..."
Formidável!
abs
Joe

joe_brazuca · São Paulo, SP 5/8/2008 13:21
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Wellington Coelho
 

Luciana,

Um "de repente" no início da sua narrativa introduz um conto interessantíssimo onde envelopes, portas que não se abrem e um amanhecer vão representando os passos da grande ousadia da personagem: permitir-se ser feliz.
Parabéns
Abração

Wellington Coelho · Belo Horizonte, MG 5/8/2008 19:31
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Luciana Nabuco
 

Queridos,Salustiano é um personagem bem atado no meu interior,quis render homenagem ao homem massacrado em seus sonhos,subjugado por uma vida medíocre,o homem que não vê mais razão de ser amado como puro animal...Me sinto lisonjeada e lá vamos nós de novo,rosto sem graça e faces coradas....Grandes homens,eternos meninos que procuram seus castelos...Um beijo à todos,Marcos,Joe e Wellington

Luciana Nabuco · Rio de Janeiro, RJ 5/8/2008 21:22
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Cristiano Melo
 

Luciana,
Que fantástico, tenho uma queda por contos com essa temática, do extraordinário. Triste realidade com a fantasia no pano de fundo. Gostoso de ler como marchinha de carnaval e uma porrada satírica...
Parabéns por mais este conto.
beijos

Cristiano Melo · Brasília, DF 6/8/2008 15:30
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Marcos Pontes
 

Devida e merecidamente savramentado.

Marcos Pontes · Eunápolis, BA 6/8/2008 17:02
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Cristiano Melo
 

carimbado...rs

Cristiano Melo · Brasília, DF 6/8/2008 17:37
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O NOVO POETA.(W.Marques).
 

votado esse lindo trabalho,parabéns.

O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 6/8/2008 19:05
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Renato de Mattos Motta
 

Luciana,
confirmando com o voto tudo o que eu já tinha dito

Renato de Mattos Motta · Porto Alegre, RS 6/8/2008 20:06
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clara arruda
 

Oi minha linda amiga.De repente tudo fica assim.
Maravilhoso em seu texto.
carimbo meu carinho.Beijos em seu core.

clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 7/8/2008 16:15
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alcanu
 

Quem não queria estar na pele de Salustiano, nem que fosse só num Carnaval ?
Um Beijo !

alcanu · São Paulo, SP 7/8/2008 16:25
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azuirfilho
 

Luciana Nabuco · Rio de Janeiro (RJ)
O Último Dia
Uma Leitura de muita maravilhosae a satisfação de votar no seu merecimento.
Uns nem tem consciéncia mas, estamos todos de alguma forma lutando para melhorar akguma coisa.
Parabéns pelo tema e o Trabalho táo bom.
Abração Amigo

azuirfilho · Campinas, SP 8/8/2008 16:17
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carlos magno
 

Muito lindo este teu texto minha amiga Luciana. Adorei mesmo.
Meus sinceros aplausos e beijos.
Carlos Magno.

carlos magno · Rio de Janeiro, RJ 22/8/2008 23:05
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Ailuj
 

Adorei esse texto
Maravilhoso!
Um beijo e nunca é tarde pra se votar num belo texto

Ailuj · Niterói, RJ 3/9/2008 22:37
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Falcão S.R
 

Luciana,

Seus textos sempre terminam deixando um gosto de, quero mais!!!

Valeu!

Beijos

Falcão S.R · Rio de Janeiro, RJ 14/10/2008 02:53
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