luiz gonzaga é um monstro. um outro pessoa. são como os monstros que pairam sobre nossas cabeças. o que fazer quando os homens parecem ser maiores do que são? reis são feitos para terem as cabeças cortadas. me diz todo o ser iconoclasta. o provocador faz perguntas curtas-irônicas. rennó e amélie escrevem nos outros críticos, tudo pequeno e modesto, mas carinhoso. a maioria das pessoas trata as minhas músicas com carinho e respeito, mas claro, já encontrei muita gente tola pelo caminho. um irmão-amigo que chora com minhas palavras e canções me mandou uma letra, nada amorfo era o título. li aquilo algumas vezes e fiquei espantado, esse cara é um craque. peguei a letra – que é uma coisa gigante e difícil – e fui colocando os meus acordes dissonantes, fui inventando minhas dores sobre as suas esfinges-palavras e saiu uma canção que achei genial no momento, hoje já nem a toco mais, mas ainda é uma linda música, talvez a mais bonita que já fiz com o meu irmão-amigo. peguei uma carona numa tarde de domingo e cheguei até a casa dele, pus o violão nos braços, ao meu lado estava um desses caras tolos, por acaso tinha um balde de plástico bem aos seus pés, então comecei a tocar nada amorfo, a bela letra do spaceboy que coloquei música e até um pedaço de letra, uns versos religiosos: “que reza pra pedras, que grita: pena de morte!”. o poeta ficou atento e deu um sorriso de contentamento com o que fiz com o seu poema, nem ele nem eu esperávamos que pudéssemos transformar aquelas palavras em música popular, mas fizemos. o idiota que estava com um balde de plástico aos pés pôs o balde na altura da boca e fez um sinal como se fosse vomitar, vomitar de tão ruim que era a música. essa foi uma das atitudes mais canalhas e torpes que já vi alguém fazer ao ouvir uma música, e logo aquela música, e logo aquela... algo queria ser dito nesse vômito infantil. o autor de nada amorfo disse pro cara que a música era legal, eu não falei nada, fiquei quieto e com minhas mãos pegando fogo, isso aconteceu há mais ou menos cinco anos atrás, eu soube que o cara do balde de plástico é fugitivo da polícia ou de alguns drogados das redondezas, mas aí é outra estória. o autor de nada amorfo é um monstro, mas não quer assustar ninguém com a delicadeza de suas palavras, preferiu o amor e a casa, as orações e as máquinas, a paz e a estrada tranqüila. boa sorte a ele. eu sigo nesse caos que é a vida-música-poeta-letras. salivar é neologismo... transformar em verbo nossas angústias, nossas palavras, repetir a palavra palavra é uma repetição propriamente dita e nessa semana escrevi tantas bobagens, tantas, e me dão notas, não entendo muito o esquema, mas sigo escrevendo, o que se há de fazer? danço essa dança insana e vou colhendo verbos de cá e de lá, beleza de lá e de cá, quem sabe eu consiga captar alguns desses sinais. a mulher pequenina me falou rapidamente que há chances reais de eu me apresentar no vão-pátio. a ver, como diz aquela menina de lá.
nada amorfo – letra: joão paulo & carlos gomes
música: carlos gomes
a sua flecha...
flor aberta, vou te ofertar
procuro as flechas
flores tuas, metas sem par
seja desejo, pólen fecundo
fruto fugaz, língua de fogo
fome, enfado
frase mordaz
a flor tomando forma
pudera algo mais te oferecer
a flor formando cor
aberta as pétalas no peito de outro ser
senhor, terra sem forma
fruto dos filhos teus
guerra, deus, sombra
exala o aroma
eco de um mundo ateu
que reza pra pedras, que grita: pena de morte!
a sua flecha...
flor aberta, vou te ofertar
a cura, o coro, terra volvida
tua vulva, coração
a terra no fundo
errata, mortais, mortalha
nada... amorfo
nada... amor, flor
(...)
quem é o monstro que habita o nosso coração?
(...)
gostei da tua escrita.
gosto de coisas diretas.
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