Se eu posso contar porque setembro me deixa assim?, és tão jovem e talvez não entenda, mas já que tanto insistes, senta-te aqui junto comigo, apreciemos essa paisagem enquanto o parque se prepara para a primavera, vês os ipês em flores?, os cor de rosa são os meus favoritos, tens mesmo a certeza de que queres ouvir?, é que é uma história tão antiga, minha querida... está bem, está bem, já notei que não vais desistir facilmente, és uma romântica tal qual fui eu na sua idade, mas aviso que a memória já não é a mesma de outros tempos; sim, concordo que o os fatos que nos marcam não se apaga facilmente, mas parece-me que, cada vez que volto às minhas reminiscências, transformo-as em algo diferente, às vezes maior, às vezes menor; essas memórias às vezes vêm como inverno, às vezes como névoa, nem sempre suficientemente nítidas e nem sempre estou suficientemente lúcida; outras vezes, elas vêm assim como a primavera, tão claras, tão palpáveis, como se ao esticar a mão eu pudesse tocá-las como estas flores de ipê que estão a cair aqui, olha, não é linda e intrigante?, caiu da sua plenitude para enfeitar o caminho por onde passam os casais enamorados; mas onde estávamos mesmo?... ah, nas memórias daquele setembro longínquo... pois bem... Era finalzinho da década de 1960, os chamados “anos de chumbo”, já deves ter estudado sobre isto na escola, não é, a repressão e a censura conseguiam nos impedir até mesmo de vivermos um grande amor; era setembro como agora e aquela primavera me proporcionou muito mais que flores, ela me trouxe um mundo de novas cores, novas palavras, versos, cantos, contos; foram momentos de viver poesia, eu era Marília, ele Dirceu, vivíamos nos encontros e desencontros dos movimentos estudantis da época, hoje vocês não sabem mais o que é isso, não é?, havia pressões de todos os lados, parecia ser o mundo contra nós, mas, num determinado momento, nossos olhares se encontraram, ele trazia um olhar sereno, profundo e cansado, mas que brilharam quando disse “olá”; tudo pareceu ilógico naquele instante e, de súbito, já não sabíamos direito que rua seguir, ou que rumo tomar, então nos deixamos levar e caminhamos por ruas comuns, sem destino certo, em meio a conversas, às vezes fiadas, chegamos a passar pelo mesmo lugar duas vezes e nos admiramos da nossa disposição; olhamos em volta e parecíamos não pertencer àquele mundo de tamanha repressão, pois de repente parecíamos livres e capazes de sonhar o impossível; foi então que esse momento mágico nos envolveu, e sem calcular ou perceber, estávamos em meio a um longo e doce beijo; não, definitivamente, já não fazíamos parte daquele cenário, onde as pessoas que passavam por nós o faziam apressadamente, temerosamente, os carros com seus canhões luminares a abrir alas em meio à escuridão da noite, os bares com suas portas fechadas... nos olhamos, sorrimos mais uma vez, nos chamamos mutuamente de loucos, nos beijamos novamente e trocamos um forte e longo abraço, e de repente, querida, a ditadura, as forças armadas pelas ruas, tudo parecia mais ilógico ainda; então esquecemos o mundo à nossa volta, nada mais existia; naquela noite sonhei com anjos e com um país mais justo, mais humano; a partir daquela noite, a cada palavra, a cada verso, a cada canção, a cada beijo e abraço, menos falta nos fazia o mundo, era chegado o momento de VIVER poesia, magia e sonhar; mas como é impossível prender um sonho entre as mãos... com o fim da primavera ele se foi, num domingo chuvoso, numa tarde triste, num espasmo, deixando a solidão mais pura, a simples solidão, por um motivo que hoje já não importa ou interessa, ele foi exilado, juntamente com outros escritores, professores, políticos e artistas; ainda fiquei feliz por ele não ter sido preso e torturado; deixou-me o distúrbio da palavra quando, após olhar-me no profundo castanho dos olhos, indagou pela primeira vez: “me amas?, então vem comigo”, deixou-me os instantes que sumiram lentamente, como se as palavras fossem ditas em vão e, subitamente, esquecidas; difícil encarar aqueles olhos sem que me viesse um nó na garganta, uma vontade louca de procurar abrigo em seu peito, no seu abraço quente e confortador, mas a primavera passou e eu fiquei; e a primavera levou consigo não somente as flores, levou também os sonhos, os planos, toda a emoção e definitivamente alguma coisa em mim mudou, como se uma parte de mim se tornasse um cômodo vazio, onde fragmentos de sonhos se perderam na escuridão; já não havia futuro e toda e qualquer esperança deveria permanecer intocada, era chegado o momento de ESCREVER poesia; não se preocupe, querida, as lágrimas nos fazem bem, são um sinal de que ainda temos um coração; sim, essa é a origem das poesias que tanto gostas de ler; se ainda nos falamos, eu e ele?, um ou outro telefonema no espaço de muitos anos; o que aconteceu depois?, se nos encontramos?, ah, querida, com o tempo aprendemos que a vida às vezes nos obriga a tomarmos rumos diversos daqueles que sonhamos; mas a sensação do que poderia ter sido e não foi, essa nunca passará; mas, venha, acompanhe-me num chá e desfaça essa carinha de tristeza.(By Marlene Bastos)
Na primavera a ficção e a emoção distorcem-se...
Foram necessários muitos Setembros dolorosos pra que tivéssemos esses Setembros calmos atualmente...
sabe, acho que a culpa não é bem dos meses, é de certa forma, nossa !
Um beijo !
E quantos "setembros" maravilhosos ainda virão?
Abrços,
CImbovich
A dança dos meses...Cada qual tem seu mes! Realmente, não volta mais...Mas a poesia volta...A poetisa aparece,
faz e acontece,
Parabens,
abraço
Alcanu, realmente a culpa não é dos meses, que culpa tenho eu se seu lugar-comum é agosto?rsrsrs
Bjoka no coração!
Claudia,
O otimismo é imprescindível!
Que venham as primaveras!!!
Bjos grandes!
Victor,
Obrigada pela visita!
E a gente segue dançando pelos meses, infinitamente, ou não,rsr
Bjokas!
marlene
marlene
Foi num setembro que vivemos mudanças onde tudo se propagava para uma anarquia geral.
Embora tomadas de decisões ferem por serem duras e sem escolha, pode ter havido o que chamamos de abusos.
Mas o que ali agiam e foram afastados hoje voltaram não para consertar o que pensavam em fazer e sim pra fazer o que jamais deveriam fazer e fazem.
Quando setembro vier... com as flores, os ipês, azaléias e muito mais, sempre trazendo da natureza o que não foi ainda destruído pelo ser humano.
Mas nos amores esse sim não tem derrotas e sim vitorias seja no campo de batalha ou numa simples rua sob a mãe da madrugada a LUA
Bom seu trecho que nos faz refletir os momentos que já se foram ou... pode ainda por vir.
um abraço
Mochiaro, bonitas palavras, concordo com você: eles voltaram não para corrigir, e os abusos continuam...
Pelo menos naquela época as pessoas não se calavam, hoje baixamos a cabeça e aceitamos o que nos impõem,
eu queria ter estado lá...
Bjokas no coração!
Do irreal, conduz-me ao real! Das trevas conduz-me à Luz! Da morte conduz-me à Imortalidade! (Upanishad).
Assim caminha a humanidade.
Tenha una boa Semana.
Uma história de amor escrita com o coração,sem intermediários.
Vou dizer, me emocionei.
Parabéns, escreves muito bem.
abraço
Ayruman!
Vasqs!
Emocionam-me as visitas e as palavras de ambos!
Obrigada!
Bjokas nos corações.
Quando setembro marca a gente deixando lembranças e que machucam a gente quer esquecer, mas eles estão sempre ai com seus ipês floridos e suas tardes amenas,
como a nos lembrar que a vida segue e o tempo é curto para vivermos lamentamos.
Lindo texto.
bjs
Doroni, que saudades!!!
É vero, é vero, a vida sempre segue e nem sempre nos espera juntar os caquinhos, rs
bjokas no coração!
Ayruman,
thanks!
bjos luminosos!
o que poderia ter sido e nao foi é o que nos arrasa!
um conto mto bom. narrativa q prende o leitor.
bjsssss
Setembros, setembros...bem vindos!
Belo texto, adorei Marlene!!!! bjusssssss
Caramba, Marlene! Arrasou nesse texto! Gostei de tudo: da escrita corrida, sem parágrafos (como são nossos sentimentos e pensamentos), do romance vivido na época mais obscura da nossa História, da analogia entre o Setembro do texto e aquele outro, já tão distante, e do desfecho comovente.
UM PUTA TEXTO!!! (perdão pela palavra do meio, mas é o que eu sinto, rsrs)
Beijoca!
Obrigada pela visita, Sihmoneh! Concordo com você, nossos pensamentos e sentimentos não usam parágrafos... e eu gostaria de escrever sempre assim, no ímpeto, no impulso, como o sangue que pulsa... sem interrupções, sem cortes.
Bjokas, querida!
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