As pernas mal seguravam os pés que pareciam querer correr e rodopiar donos de todas as atenções.
Como tinha que ser.
Como sempre foi. A Estudantina fervilhava e ele já tinha ido três vezes ao reservado dos cavalheiros verificar o penteado, a mecha rebelde tantas vezes acarinhadas na juventude, enxugar o suor com o lenço perfumado, ajeitar o vinco da calça e sair pedindo licença entre os pares dançantes. Até encontrar a sua dama. A menina das tranças...
1. O doce da infância
O que mais espantava Deolinda era gente morta. Nunca esqueceu o medo de quando foi mandada, cesta arrumada e tudo ao velório do seu Orlando.
Naquele tempo se perdia em rezas pela noite toda e a família que cuidasse de matar a fome e o sono dos pesarosos em farta distribuição de petiscos, docinhos, café e se duvidar até mesmo no final da madrugada o licor já ia sendo bebericado em honra ao falecido!
A menina foi chegando devagar, olhos fixos no samburá preparado pela mãe. A viúva, amparada no caixão em plena sala! Boa freguesa, toda tardinha comprava pelas mãos de Deolinda os quitutes que agradavam tanto o marido... E agora ele ali, crise fulminante, hercúlea, morto de raiva, daquelas que se acumulam até não caber mais no peito.
Ela foi logo esticando a encomenda, maneira de se ver livre daquele cheiro azedo de flor, mas dona Alice tratou logo de emborcar tristeza em lágrimas grossas e quentes, “menina boazinha... vê o meu pobre Orlando? Nem tempo teve de comer a última cocada... vem, filhinha, vem se despedir. Estava faltando alma inocente para abençoar a passagem dele...”.
Ela ia sendo firmemente empurrada, mania de gente velha que acha que criança não pia nem mia. E teve de olhar a cabeça enorme do defunto, amarrada por um lenço branco que lhe prendia o queixo e se atava no alto da careca. “É que ele morreu de boca aberta, foi o único jeito que a gente arrumou dele se fazer mais decente...”, repetia inconsolável a viúva para uma assustada Deolinda.
Felizmente o dia sempre clareia e varre tudo que foi.
E do alto do morro nunca houve sol mais lindo, como se primeiro e antes de todos desse o bom dia para a menina.
Cedo ajudava a mãe e já ia ralando o coco que mais logo ia ser remexido no tacho, única herança da família, sustento que foi dos antepassados escravos e depois dos forros, tacho que alimentou o ócio do senhor da chibata. E todo dia fervia transformando o cansaço das mãos em doces divinos, sempre no ponto certo, segredo da negra Tomásia.
E enquanto se esfriava as delícias, mal sobrava tempo de revirar na imaginação o sonho de meninice, mãe chamava pelo asseio, e Deolinda quedava num cantinho do chão a bonequinha de chita. Antes de sair pelas ruas cantando as iguarias de Tomásia, para não dar ar desleixada, seu cabelo era preso em duas graciosas tranças.
De batismo era Antônio Francisco de Souza.
Mas a avó, parteira e benzedeira daquela gente da Providência, botou olho e ditou,”esse vai ser Nhuca... menino caçador,apadrinhado pelo abridor dos caminhos...”.
E assim foi se criando, passarinho vadio, sempre a lhe sobrar tempo para pisar em novo lugar, cheirar o que já tinha esquecido de véspera e desafiar o mundo com sua alegria.
O pai tinha sido combatente em Canudos e acabou se findando ali. Nunca mais parou de beber, jeito de afastar as assombrações do que tinha visto. Tanto inocente morto pelas suas mãos...
A mãe foi levada cedo pela doença, a avó garantindo o esteio daquela família capenga.
Cansava de ir buscar o pai, largado e mal enjambrado, comendo terra com a cara deitada, e dinheiro perdido no carteado. A partir daí o menino foi criando gosto pela aposta, jogatinas. Forma de vingar a perdição do ex-soldado...
Tudo era motivo de arrecadar uns vinténs, se ia chover ou não, a quantas passaria dona Zuza com a carregação de água, se gato jogado cai mesmo em pé...
Uma parte ganha ia para a reserva da avó, e com a outra ele sonhava grande e juntava para a rinha de galo!
Quando se dava conta, já estava ali, calça curta no meio dos barbados e gritava feito doido, o pescoço chegava a ficar avermelhado, galo de pescoço pelado, lutando pela vida, voando no inimigo...
Quando Nhuca vencia, se comia carne por uma semana...
Quando Nhuca vencia ia descendo o morro estufado, verdadeira cigarra atrevida.
Mexia com um, tentava olhar embaixo das saias das moças, chutava pedrinhas, rasgava o chão de satisfação... E cantarolava para a vendedora das tranças, ”Deolinda, linda, linda... me dá um docinho..que te pagarei com um beijinho...”.
Ela sorria e abaixava a cabeça.
2. Estrela partida
Amigo dos amigos, capaz de defender-lhes a honra se escutasse palavra atravessada, nas brigas de rua escondia fina lâmina entre os dedos, e na capoeira malandra era jaguatirica selvagem. Tirando sangue dos que não entendiam o riscado.
Muitas vezes voltava para casa dias depois como se o pavio da vida fosse curto e precisasse engolir em exagero os favores da juventude.
Mas não perdia o caminho de volta, jamais alguém o veria como o pai. “Só fico de quatro por mulher, e mesmo assim por pouco tempo!”, costumava pavonear.
Rei das rodas de samba, raposa dos dados, encarava sorrindo o adversário e quando não levava sorte nunca lhe faltou mão perfumada para consolo. Aflorava o sangue quente, mestiço em música apaixonada.
Mas não deixava o sol chegar em companhia de dama. Sumia antes do fim da madrugada em leito ainda quente.
Satisfeito. Apaziguado.
Em seguida ia curar a bebida de ontem com um café forte no boteco do Barral.
Nesse dia viu subindo o morro o Carlitinho, conhecia desde moleque de rodar pião na mão até arder. O amigo crescido inverteu-se, era desses delicados, à noite ia fazer a vida e que só lhe chamassem de Bijou. Estava todo estropiado, passou pela dura, apanhou na cara, cuspido e depenado. Alguns vinham atrás, fazendo pouco caso, as comadres entre os dentes escapavam um “bem feito”, raio de gente de coração fechado!
Nhuca acompanhou o infeliz até o quartinho que morava, “que é isso, rapaz, amanhã já vai ter esquecido!”, “não tenho mais o dinheiro do senhorio, tô perdido, vê, minha mãe é inválida, ah, Nhuca, melhor seria se não tivesse nascido assim...”.
Lavou o rosto do amigo, velou seu sono e antes de ir, remexeu no bolso e deixou todo seu ganho das cartas dentro da caixinha de veludo ao lado de Bijou.
O alvorecer ia em paz.
Vaidosa de seus longos e fartos cabelos os molhava com a água do sereno que deixava no pote de barro do lado de fora da casa. Apesar de querer mais da vida,de achar que algo faltava,tinha que continuar o trabalho modorrento, incansável.
Três dias para o casamento.
E tudo era sempre igual, até mesmo essa melancolia que não se desfazia. Tinha ido fazer a última prova do vestido. “Engraçado, mais parece uma mortalha...”, “cruzes, Deolinda, essas coisas não se falam!”, e a costureira ia logo alisando a roupa, sem jeito do falar da moça. “Vem aqui fora, minha flor, com a luz do sol vai ver como é lindo!”.
Mas quem se fez caprichoso foi então o destino, que paralisa certos momentos desafiando os olhos...
“Dança pra mim, Deolinda...
Saiu da boca de Nhuca em querer apertado.
“Só me levando pra bem longe”. E de nada adiantou o escarcéu da pobre senhora vendo a noiva sumir qual encantada pelas mãos da sedução.
Foi o primeiro. Foi o que sempre esperou. E tinha gosto bom, doce que escorria pela garganta sem tristeza...
Mergulhado nos cabelos escuros de Deolinda ele nem via o dia nascer, sonho bom. “Ficaria sempre assim até a última estrela apagar...”.
E fez a promessa da paixão cega, disse que não retornasse para o noivo, que viria mais tarde, ajeitaria as coisas, pegaria um dinheiro, deixariam aquele lugar.
Sozinha ela esperou, dançou nua porque em tudo seu coração era alegria. E a última estrela foi morrendo com o sol da manhã, do homem faceiro restou apenas lembrança.
E agora esperava pela moça que lhe estendeu a brancura de um vestido feito de desilusão, que ele cobriu de promessas porque achava que sempre lá adiante se encontra algo novo, melhor.
O tempo certo. Nunca se sabe qual é. Pode ter sido do beijo colhido no instante derradeiro, vivo.
E carregou uma ausência, deixando pesar aquela dor até que a soube viúva.
Longa espera de mais de quarenta anos.
Seus olhos continuavam os mesmos, trancados em um cômodo simples de cama estreita e lençol ordinário.
Seu vestido continuava no chão. Beijou-lhe carinhosamente o rosto e foi como se ainda estivesse beijando os seus pés quentes do dia que nascia.
Os cabelos, mais curtos ainda cheiravam a sereno noturno... “Me leva para longe,Deolinda...”.
O tempo certo é quando se ainda pode dançar e se deixar amar.
Nhuca e Deolinda feitos de sonhos e desencontros...
Que lindo isso! O tempo certo é o tempo de amar... E é sempre tempo de amar. Então é sempre o tempo certo. Porque tantas vezes esquecemos disto e caminhamos pela vida sem dançar?
Belíssimo texto, Luciana. Irretocável.
beijos
Luciana,
Nesse trabalho tão primoroso, chamou-me atenção o fato do velório, hoje já nem esse direito temos nas cidades grandes, visto que os pesarosos amigos e parentes do extinto, são assaltados.
Beijos
Luciana,
que estória de fôlego! Sua narrativa prende o leitor, com palavras de época...rs, conduz a nós, leitores, por entre o cozer de letras, costuras amarradas com propósito, reflexões de sermos mais humanos e permeados de afeto.
Muito bom, muito bem
Parabéns mais uma vez
beijos
Que historinha linda, minha costureira de palavras, alinhavando aqui e ali, com pitadas históricas e bastante relevantes, num conto simplesmente delicioso !
Gostoso de se ler !
Um beijo !
Luciana Nabuco · Rio de Janeiro (RJ)
Uma Simples História
Um texto admirável pra gente tirar o chapéu e fazer reveréncia.
Uma Escritora consagrada.
Parabéns.
Muito mérito
Nos anos 70, trabalhei no Prédio da Telefónica na Praca Tiradentes na 221, 224 e Tandem. Trabalhava de noite nos testes e ouvia a Turma da Estudantina cantando e fazendo a Festa.
Obrigado pela Recordacáo.
Um tricô bem trançado esse seu conto. Algumas coisas nos seus escritos combinam muito os meus (embora, em qualidade, não me atrevo a comparar-nos): 1. Os lugares espalhados do país; 2. Os personagens têm nomes e nomes únicos; 3. A atemporalidade. Talvez essas coisas me façam me identificar tanto com eles, teus contos.
Marcos Pontes · Eunápolis, BA 22/7/2008 20:02
Que lindo conto,
dona Luciana
um conto de descoberta,
de amores
eoonde a tristeza
do desencontro
ainda é bela
melancolicamente bela!
É o que disse o Renato aí acima: evocação de um mundo triste.
Beijos.
Luciana,
Gostei demaaais. Só um detalhe: o título é um eufemismo? Uma simples história? Nada de simples, muito profundo (brincadeira). Quando puder, visite-me e deixe-me comentários.
Votado
Abração
Lú,
Retornado para deixar meu carinhoso voto.
Beijos
Somando numa simples e linda história.
clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 24/7/2008 09:36excelente texto, muito bom.votei.
O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 24/7/2008 11:54
Adivinha quem fui que te publicou ?????
um beijo !
Lindo conto, belas passagens muito bem narradas!
Beijos.
Estive fora do ar dois dias...para retornar com essa troca de energia boa...Vou por partes :
NYDIA : O medo sempre corrói,engole todas as danças,nos transforma em marionetes sem vida,e continuamos mesmo assim,por continuar.Mas quando toca a flauta de Pan,quando nos atinge no fundo música diferente,as horas deixam de ser contadas.A beleza vem quando abandonamos o medo,nossa sombra solitária que não sabe dançar...Um beijo,muito obrigada pelo seu comentário.Me pegou de encantamento!
FALCÃO : É verdade que mal choramos nossos mortos hoje,perdeu-se muito da convivialidade hoje,digo,nas grandes cidades,olha mais uma vez o medo de que falei... Um beijo!
Luciana Nabuco · Rio de Janeiro, RJ 24/7/2008 20:45
CRISTIANO : Fico feliz por prender tal leitor de retinas preciosas em minhas palavras juntadas...Gracias! Beijos!
Luciana Nabuco · Rio de Janeiro, RJ 24/7/2008 20:47
ALCANU : Estou esparramada de alegria...Que bom que gostou! Beijo!
Luciana Nabuco · Rio de Janeiro, RJ 24/7/2008 20:49
AZUIR: Trazer recordação,logo à você que homenageia a saudade...Deixa eu me esparramar mais ainda...Beijos
Luciana Nabuco · Rio de Janeiro, RJ 24/7/2008 20:52
MARCOS: Você que é dessas gentilezas raras...Realmente gosto de passear pelos cantos desse país,talvez reflexo de uma vida pulando de cidade em cidade,o que me enriqueceu.E eu tenho esse gosto de observar,observar e os nomes vão surgindo dessa cachola maluca.Obrigada! Um beijo!
Luciana Nabuco · Rio de Janeiro, RJ 24/7/2008 20:57
RENATO : E você adoça minha eterna melancolia,Renato...Obrigada!BEIJO!
Luciana Nabuco · Rio de Janeiro, RJ 24/7/2008 21:45
JOSÉ CARLOS : Mundo triste...Porém sempre há tempo,sempre é tempo de se deixar dançar...Gracias.Beijos.
Luciana Nabuco · Rio de Janeiro, RJ 24/7/2008 21:49
WELLIGTON : Pode esperar minha visita,sim,eu também fico muitooo feliz por ter apreciado!!! Beijos!!!
Luciana Nabuco · Rio de Janeiro, RJ 24/7/2008 21:52
W.MARQUES : Puxa,que bom que continua passando por aqui e gostando...Um beijo!
Luciana Nabuco · Rio de Janeiro, RJ 24/7/2008 21:56
W@NDER : E olha que não é fácil quando começo a escrever,acho que para ninguém,eu sempre fico achando falho,ou que poderia ter imaginado outra coisa,ou que isso não é bom.mas recebendo opiniões diversas,tudo encoraja a perder o medo(voltei de novo lá em cima...).Obrigada mesmo! Beijos!
Luciana Nabuco · Rio de Janeiro, RJ 24/7/2008 22:00
Luciana Nabuco · Rio de Janeiro (RJ) ·
Uma Simples História
Votando um pouco tarde, mas com respeito, carinho e admiração.
'No que chama de uma Simples História é onde revela imensidáo de sentimento e talento.
Náo tem como ler e náo elogiar.
Gostei muito.
Parabéns
Maior sorte ter voltado e poder votar.
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