2010, ANO NOVO!

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Carla Pereira da Fonte · Rio de Janeiro, RJ
4/1/2010 · 2 · 0
 

Cervejam só como é que são as coisas:

Passei a meia noite de 31 de dezembro no Parque do Aterro do Flamengo, o primeiro fim de ano com o choque do prefeito da Cidade Maravilhosa nas ruas. Nada de churrasquinho, nada de isopor de cervejinha pelo caminho, nada de nada.

Mesmo sem preocupação com lei seca, bico seco. Nem chuva prá molhar a garganta. Estouram fogos... e mais fogos!

O espetáculo sempre emocionante atrapalhado apenas pelos carros de policiamento passando para lá e para cá no meio do povo, com a sirene luminosa e barulhosa desafinando a noite.

Dia primeiro, lindo dia de sol na minha cidade, parto para a tradicional primeira ida ao mar. Mais uma vez constato a ordem do perfeito: nada de hippes, nada de catadores e pedintes, nada de cervejinha, nada de milho cozido, cachorro quente, água, nada enfim!

Oferenda feita, sabe como é, bate aquela sede!

Sento à mesa num quiosque do calçadão e espero, espero, espero, até que desconfio: uma fila enorme e os atendentes esbaforidos. Parto dali e observo as filas em toda a orla.

Que ordem é essa que estamos obedecendo?

Os trabalhadores autônomos colocados na ilegalidade, expulsos e apreendidos, os assalariados sobrecarregados e sem a tradicional gorjeta das mesas que não conseguem atender, nós, visitantes e vizinhos, muito desconfortavelmente recebidos...

Talvez aqueles moradores da Vieira Souto, acostumados a dar as costas para o país vejam vantagem na paisagem, mais civilizada sem as mazelas do subdesenvolvimento manchando a vista sob seus olhos. Também os capitalistas da orla, que ficam em casa rindo à toa enquanto seus subordinados trabalham em dobro para ganhar menos. Sem falar nos políticos, que tiram vantagem de tudo.

Se os políticos representassem o povo, a ordem não daria choque e o progresso seria para todos, facilitando os negócios locais, organizando áreas de alimentação e bazar informal nas áreas de laser da cidade, por exemplo, com lixeiras e banheiros abundantes e apoio logístico aos farofeiros fanáticos. Encontraríamos pelas ruas facilitadores da ordem tão eficientes e dedicados em cuidar dos cidadãos, quanto os da tropa de choque, e seus cassetetes, que nos abordam toda vez que estamos nos divertindo na cidade mais fervorosa desse país maravilhoso. Aí sim, todos nós, cariocas e maravilhados de todos os bolsos e bossas estaríamos em ordem!

Mas enquanto trabalhamos, workoolics, para bancar o padrão de vida de uma minoria rançosa, empapuçada no poder e que obedecemos porque sonhamos hipnotizados em um dia ser, quem pode nos representar?

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