A Bolha Imobiliária

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Phyl D. Martins · Belo Horizonte, MG
21/12/2012 · 24 · 0
 

TEXTO

São Paulo é uma capital caótica e truculenta, corrosivamente capitalista e cumpre muito bem o papel de megalópole. A cidade também agrega em seu território a diversidade assustadora de contextos, que se segmentam em histórias, grupos e pessoas. Estas, por suas vezes, tomam o caminho inverso e se integram à coletivos atuantes em histórias e contextos. Os contextos ganham resignificações através de vários aplicativos e tecnologias sociais desenvolvidas com o passar do tempo.

CONTEXTO


Apresentemos, então, Marcella Arrudas, a estudante de arquitetura, descontente com a falta de prática na faculdade e com muita vontade de iniciar mobilizações de fomento à ocupação dos espaços públicos. Além disso, ela desejava promover o entendimento da população sobre o território da cidade e criar o sentimento de pertencimento, empoderando as pessoas para ocupá-lo.

Naiara Abrahao, colega de faculdade de Marcella, partilhava do mesmo sentimento de ativismo e resolveram, então, fundar o MUDA_COLETIVO. A iniciativa surgiu sob o mote de construir junto às comunidades lugares mais humanos, feitos por meio da ação colaborativa. O coletivo conta atualmente com diversos membros e é referência no incentivo à consciência política em favelas de São Paulo, com seus agentes palestrando em diferentes cidades brasileiras e em eventos referentes ao tema.

Marcella conheceu Mister, do coletivo espanhol BASURAMA, na Casa Fora do Eixo SP durante o Festival Existe Amor em SP. Este coletivo é renomado na gestão e reaproveitamento criativo do lixo.

Desde então, construíram juntos uma intervenção que fizesse intercecção entre os objetivos de cada um dos grupos.

PRETEXTO

MUDA_COLETIVO e BASURAMA se aliaram na proposta de arquitetar um projeto expressivo, artístico e permeado pelo forte cunho político: a construção de um inflável gigante, composto por dezenas de grandes sacolas plásticas. A Bolha Imobiliária, título da ação, aborda o caráter frágil, intangível, explosivo e efêmero da especulação imobiliária.

A gentrificação do centro da cidade de São Paulo foi uma pauta recorrente em várias mesas de diálogo realizadas ao longo da semana no Preliminares, sendo também mencionada no A Bolha Imobiliária. A ação preserva presença das pessoas e agrega algumas outras ao longo da narrativa construída por seus organizadores no Minhocão, onde ao final do processo a peça foi exposta.

ENCEJO


“Academia do JB†foi a escolhida como sede para a construção d’A Bolha, justamente por identificarem no local um resultado raríssimo da junção entre a poesia, a desigualdade social e um caso extremo de ocupação dos espaços públicos.

João Batista dos Santos, o JB, sobrevivente da Chacina do Pavilhão 9, no Carandiru, estabeleceu embaixo do viaduto a academia de boxe direcionada a moradores de rua e albergados. O lugar, bem no centro de São Paulo, possui uma atmosfera underground e ao mesmo tempo lírica a partir da composição entre equipamentos de musculação retirados do lixo, manequins, sinos, entulho, além de cachorros e barracos.

ÊXODO

No domingo, 16/12, A Bolha Imobiliária deixou a Academia do JB e foi montada empíricamente no Elevado Costa e Silva, no fechamento do Preliminares. Diagnósticos precisos puderam ser realizados atráves da reação do público diante da instalação, que dividiu espaço com outras atrações.

As crianças foram as mais interessadas em se aproximar e entrar - no sentido literal da palavra -, justamente por conta da ludicidade que o envolve. Algumas pessoas só olharam de fora, receosas e se privando de uma nova percepção de espacialidade. Havia gente perguntando se podia entrar. A resposta era óbvia, “Sim!â€, mas os fundamentos dessa resposta são muitos profundos.

ENSAIO

Desde a Ditadura Militar até as pedras ponteagudas colocadas nas marquises para evitar que moradores de rua as ocupem, em Belo Horizonte, são exemplos claros de que é necessário desconstruir o olhar de que tudo é proibido.

É preciso, ainda, compreender o processo lento de educar o povo e instigá-lo à novas possiblidades do uso do território em que vive e transita. Isso afeta diretamente o modo que fazem vivênca nas cidades, no senso de coletivo e individualidade.

Marcella Arrudas, uma das idealizadoras d’A Bolha Imobiliária, pondera: “É absurdo você pedir pras pessoas serem espontâneas! Tipo, é a intervenção é publica, está na rua, e as pessoas ainda perguntam se podem entrar e usar. É uma falta de costume de coisas publicas e nas quais pode tudo. Quando é assim, as pessoas se assustam.â€

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