Era a ano de 1968 , o AI-5 havia sido aprovado, permitindo o fechamento do Congresso por tempo indeterminado. A ditadura exibia a sua face de forma explÃcita. Em meio a este contexto tão turbulento, no ano de 1969, surge O Pasquim, uma reação bem humorada à repressão e aos problemas polÃticos da época.
Por Isabela Pimentel
Historiadora e Jornalista
De forma paradoxal, o crescimento da chamada “imprensa nanica†ou “alternativaâ€, na qual se inseria O Pasquim, ocorre exatamente em um perÃodo no qual os meios de comunicação sofriam forte censura e era quase impossÃvel criticar o governo.
Mas, mesmo assim, um grupo de jornalistas se reuniu e iniciou a publicação de O Pasquim, dentre eles Tarso de Castro, Jaguar,Sérgio Cabral ,Claudius e Carlos Prosperi ,dotados de um forte coloquialismo, um humor afiado e pela paixão em comum: o amor por Ipanema.
A primeira tiragem do Pasquim se esgota e rapidamente o jornal atinge enorme sucesso, com seu estilo inovador de diagramação, seus cartoons, um humor inteligente e crÃtico, forte contestação à s arbitrariedades do regime militar e um clima de liberdade que era sentido pelo leitor, já que cada escritor compunha seus artigos livremente (não havia reunião de pauta).
Com seu estilo, O Pasquim trouxe diversas inovações ao jornalismo brasileiro, como o jornal feito em meia página, em vez de uma página inteira (tal qual um tablóide), publicação semanal, em vez de diária, cartoons que eram tão significativos quanto à s mensagens escritas e com ausência de padronização, já que cada profissional tinha sua personalidade respeitada no ato da criação, além de novidades em termos de edição, com uma escrita que se assemelhava à crônica, tratando de vários assuntos ao mesmo tempo, sendo um jornal sem reportagens, mas que através de charges fazia um comentário crÃtico à s questões do seu tempo.
Todos os acontecimentos da década de 60 iam parar nas páginas do Pasquim, tanto teatro, cinema, espetáculos, música, quanto polÃtica, que vinha nas entrelinhas, a fim de driblar a censura imposta pela ditadura aos meios de comunicação. No ano de 1971, O Pasquim atinge seu recorde de vendas, duzentos mil exemplares, ultrapassando a Revista Veja e nossos integrantes se unem à “Patota de Ipanemaâ€, como Henfil, Millôr Fernandes e Ziraldo.
Um decreto lei de Janeiro de 1970 dizia que “Não seriam tolerados publicações e exteriorizações contrárias à moral e aos bons costumes.†.O clima de repressão se acirrava cada vez mais e no segundo semestre de 1970. A maior parte da redação do jornal foi presa . Foi então publicada uma edição do jornal com a frase “O Pasquim com algo menosâ€, ocasionando as quedas na venda do jornal. Mas , mesmo com os nomes mais famosos na prisão, O Pasquim continuou a ser editado e recebeu a colaboração de grandes nomes como Chico Buarque, Rubem Braga, dentre outros.
No ano de 1971, a equipe do jornal sai da prisão, mas a fantasia do milagre começa a se desfazer, já que os Ãndices de inflação aumentaram e o próprio jornal estava cheio de dÃvidas e de conflitos entre seus integrantes.
Quando o presidente Geisel assume, em 1975, promete uma distensão polÃtica “lenta, gradual e seguraâ€, fazendo o Pasquim respirar aliviado.No ano de 1978, acaba a censura prévia aos meios de comunicação e foram publicadas charges que haviam sido proibidas nos perÃodos anteriores . O Pacote de abril foi editado e O Pasquim lança um número no qual estava escrito : “Empacotados sim,embrulhados, jamais!â€.
Em Março de 1979, o presidente Figueiredo assume e decreta a Anistia (ampla, geral e irrestrita), fazendo o Pasquim viver um de seus grandes momentos, a luta pelas “Diretas Jáâ€. Aqueles que haviam sido deportados retornam do exÃlio e são entrevistados pela “patota de Ipanemaâ€.
Com o fim do bipartidarismo e o surgimento de novos partidos polÃticos, acirram-se os conflitos no interior do Pasquim e em janeiro de 1991 é editado o último número do inesquecÃvel jornal, cuja capa dizia “Privatização é o Cacete!†.Terminava assim ,a saga de um jornal cuja alma era a “patota de Ipanema",com seus amores,conflitos e seu humor crÃtico e irônico sobre a realidade.
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