A crítica, entre risos e ironia: O Pasquim

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Isabela Pimentel · Rio de Janeiro, RJ
16/2/2011 · 0 · 0
 

Era a ano de 1968 , o AI-5 havia sido aprovado, permitindo o fechamento do Congresso por tempo indeterminado. A ditadura exibia a sua face de forma explícita. Em meio a este contexto tão turbulento, no ano de 1969, surge O Pasquim, uma reação bem humorada à repressão e aos problemas políticos da época.



Por Isabela Pimentel
Historiadora e Jornalista


De forma paradoxal, o crescimento da chamada “imprensa nanica†ou “alternativaâ€, na qual se inseria O Pasquim, ocorre exatamente em um período no qual os meios de comunicação sofriam forte censura e era quase impossível criticar o governo.



Mas, mesmo assim, um grupo de jornalistas se reuniu e iniciou a publicação de O Pasquim, dentre eles Tarso de Castro, Jaguar,Sérgio Cabral ,Claudius e Carlos Prosperi ,dotados de um forte coloquialismo, um humor afiado e pela paixão em comum: o amor por Ipanema.

A primeira tiragem do Pasquim se esgota e rapidamente o jornal atinge enorme sucesso, com seu estilo inovador de diagramação, seus cartoons, um humor inteligente e crítico, forte contestação às arbitrariedades do regime militar e um clima de liberdade que era sentido pelo leitor, já que cada escritor compunha seus artigos livremente (não havia reunião de pauta).


Com seu estilo, O Pasquim trouxe diversas inovações ao jornalismo brasileiro, como o jornal feito em meia página, em vez de uma página inteira (tal qual um tablóide), publicação semanal, em vez de diária, cartoons que eram tão significativos quanto às mensagens escritas e com ausência de padronização, já que cada profissional tinha sua personalidade respeitada no ato da criação, além de novidades em termos de edição, com uma escrita que se assemelhava à crônica, tratando de vários assuntos ao mesmo tempo, sendo um jornal sem reportagens, mas que através de charges fazia um comentário crítico às questões do seu tempo.


Todos os acontecimentos da década de 60 iam parar nas páginas do Pasquim, tanto teatro, cinema, espetáculos, música, quanto política, que vinha nas entrelinhas, a fim de driblar a censura imposta pela ditadura aos meios de comunicação. No ano de 1971, O Pasquim atinge seu recorde de vendas, duzentos mil exemplares, ultrapassando a Revista Veja e nossos integrantes se unem à “Patota de Ipanemaâ€, como Henfil, Millôr Fernandes e Ziraldo.


Um decreto lei de Janeiro de 1970 dizia que “Não seriam tolerados publicações e exteriorizações contrárias à moral e aos bons costumes.†.O clima de repressão se acirrava cada vez mais e no segundo semestre de 1970. A maior parte da redação do jornal foi presa . Foi então publicada uma edição do jornal com a frase “O Pasquim com algo menosâ€, ocasionando as quedas na venda do jornal. Mas , mesmo com os nomes mais famosos na prisão, O Pasquim continuou a ser editado e recebeu a colaboração de grandes nomes como Chico Buarque, Rubem Braga, dentre outros.
No ano de 1971, a equipe do jornal sai da prisão, mas a fantasia do milagre começa a se desfazer, já que os índices de inflação aumentaram e o próprio jornal estava cheio de dívidas e de conflitos entre seus integrantes.


Quando o presidente Geisel assume, em 1975, promete uma distensão política “lenta, gradual e seguraâ€, fazendo o Pasquim respirar aliviado.No ano de 1978, acaba a censura prévia aos meios de comunicação e foram publicadas charges que haviam sido proibidas nos períodos anteriores . O Pacote de abril foi editado e O Pasquim lança um número no qual estava escrito : “Empacotados sim,embrulhados, jamais!â€.


Em Março de 1979, o presidente Figueiredo assume e decreta a Anistia (ampla, geral e irrestrita), fazendo o Pasquim viver um de seus grandes momentos, a luta pelas “Diretas Jáâ€. Aqueles que haviam sido deportados retornam do exílio e são entrevistados pela “patota de Ipanemaâ€.


Com o fim do bipartidarismo e o surgimento de novos partidos políticos, acirram-se os conflitos no interior do Pasquim e em janeiro de 1991 é editado o último número do inesquecível jornal, cuja capa dizia “Privatização é o Cacete!†.Terminava assim ,a saga de um jornal cuja alma era a “patota de Ipanema",com seus amores,conflitos e seu humor crítico e irônico sobre a realidade.

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