A eleição no Recife e o Frevo

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Eduardo Guerreiro · Recife, PE
5/10/2012 · 1 · 0
 

ARTIGO
Antecipadamente gostaria que ficasse claro que não irei defender esse ou aquele partido, e muito menos insinuar o apoio particular a qualquer político.

Ultimamente, tem-se falado muito da importância dessa ou daquela legenda em estar à frente da Prefeitura, e do risco do candidato A ou B em assumir o executivo municipal.

A ocorrência da presumível mudança, talvez gere um desconforto inconsciente pela possibilidade da descontinuidade das ações eleitoreiras tanto propagadas. Não creio que isso seja um ameaça. Até porque a permanência desta gestão não impediu absurdos realizados no período em que ela está na direção. Fala-se de suporte aos morros, ao mesmo tempo em que se registra quase 3000 mil pontos de risco na cidade. A Saúde não existe, e isso pessoalmente tenho comprovado nos últimos meses. A educação é uma das piores do país, sem contar o grande caos que tem se tornado o trânsito do Recife. Mesmo assim, eles insistem em se manter no poder, inclusive, brigando internamente para isso acontecer.

Na área cultural, especificamente na que tenho atuado, na dança, especialmente, no Frevo, pouco ou absolutamente nada foi feito de significativo nos últimos anos. Não menciono 20 ou 30 anos atrás, até porque não tinha uma convivência profissional com a dança nesse tempo, e mesmo assim, ainda não havia nessa época uma política pública do setor.

Hoje é tudo diferente, vivemos num momento de grande articulação social e de diversas redes culturais coletivas. E o que sentimos atualmente na pele, é o mesmo descaso repetido há quase dez anos ininterruptamente com a nossa dança. Não falo da dança contemporânea, balé, movimentos ou conceitos experimentais. Falo sim, da dança popular, do frevo do passista de rua, daquele que há tempos é visto como acessório carnavalesco das mídias, propagandas e discriminado pelo frevo musical burguês.

E não venham me dizer que algumas pessoas não podem reclamar porque não se interessam e nem se fazem presentes em fóruns ou reuniões da classe. Como se isso justificasse, por exemplo, as discrepâncias dos pagamentos atrasados dos artistas locais, perante o tratamento dispensado aos que vêm de fora. E pelo que sei, a condição privilegiada desses que vem de fora, não foi conquistada em reuniões presenciais nos fóruns locais. O que noto de fato, é um constante blá, blá, blá e pouca coisa verdadeiramente realizada em prol de nossos artistas.

Em meio a tanta gente “articulada” e “interessada”, peço que apontem uma melhoria advinda das políticas públicas para a dança.

Vejo sim, muita gente tomando proveito de uma condição para amarrar contatos e amizades, reforçando futuros apoios ou facilitações para seus projetos pessoais e de grupos. Muita gente interessada em convencer adeptos do setor para engrossar o cordão de forças para lutar simplesmente por uma identificação sólida de uma caritativa imagem de âmbito profissional. Por favor, não me forcem a dizer nomes, não quero ampliar o conceito de grupo “queimado” que os Guerreiros do Passo têm no Recife. Não posso falar sobre ninguém, apenas menciono aquilo que eu e meus amigos de luta temos visto e enfrentado na militância cultural.

Ora, não é preciso ser um expert, para saber que o apoio ao frevo vai muito além de contratar shows pirotécnicos para o Marco Zero e dar recursos milionários a escolas de Samba para homenagear o ritmo em outro estado. E quantos projetos aprovados em editais alterou o julgamento que temos sobre a precariedade e o descaso com o passista e sua dança? É preciso dar o real suporte aos autênticos fazedores, e não apenas realizar arrastões multiculturais ou instituir novas denominações como “detentores” para valorizar nossos artistas.

Por outro lado, é preciso criar uma consciência entre nós, passistas, que só conseguiremos melhorias profissionais, se deixarmos de nos vender por roupas coloridas de cetim ou por apresentações de 20 e 30 reais. Ainda somos considerados praticantes com força cultural medíocre e sem fala relevante para tentar influenciar o campo da dança. Só quem é ouvido, são os nomes tradicionais e graúdos da cidade. Até porque, quando esses decidem falar, o terror toma conta das diretorias das secretarias de cultura e das redações dos jornais com colunas de arte. Vai dizer que fulano ou sicrano não terão seus projetos aprovados ou estão insatisfeitos com alguma coisa... o bicho pega! E nenhum representante público gostaria de saber que seu “competente” nome está ligado às críticas dos profissionais da esfera em que ele atua.

Acho que chegou a hora de mudar, e um dos pilares esperançosos da mudança é a democracia, a alternância de comando, que além de ser vital ao processo, é, sobretudo, saudável para qualquer sistema político de um país sério.

Não podemos mais assistir a arrogância quando visitamos repartições e departamentos da Prefeitura, observando gente se achando donas da cultura e tendo a certeza que quem manda são elas. Chega! Estas pessoas poderiam refletir sobre o que é servir ao povo, e não transformar a prefeitura em uma entidade afável do prazer alheio e estrangeiro. Cabide! Isso, cabide de emprego é o que mais se vê. Líderes comunitários e culturais cada vez mais cooptados e atrelados a esquemas de bases de votos de indivíduos humildes e de instituições ligadas aos ciclos culturais nas periferias. São com coisas assim que eles conseguiram se manter no poder até agora.

E o que vai acontecer se não mudar a gestão? Não sei. Pra mim não importa qual o partido e quem será o novo dirigente. Apenas acredito que poderíamos ter outro pensamento para a valorização de nossa cultura. Uma grande revolução começa por pequenas ações, e um governo que não respeita sua tradição e a cultura principal de seu povo, não pode ser um bom administrador em outras áreas. O resultado taí, mostrado pela rejeição dos atuais dirigentes. Depois, se mesmo assim nada mudar, pelo menos teremos a consciência que tentamos fazer algo diferente.

Evoé!

Eduardo Araújo

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