Imagem: Giselle Godoi
A Kantuta é uma feira que acontece aos domingos no bairro do Pari. Mais de 80 barracas refletem a busca de identidade da comunidade boliviana em São Paulo e representam um contato com a comida tÃpica, a música e a origem dos migrantes. Mais do que isso: a feira é um espaço onde se desenvolvem iniciativas sociais, como a Associação Brasil–BolÃvia, que defende o interesse dos oficinistas. É por isso que o migrante recém-chegado vai à Kantuta em busca de ajuda e informação.
Ali, bem pertinho da estação Armênia do metrô, estão penduradas, lado a lado, as bandeiras do Brasil e da BolÃvia. Elas enfeitam a rede que separa jogadores de espectadores. É final de campeonato e a feira da Kantuta volta seus olhares atentos para a bola de futebol.
Ao redor da quadra estão as barraquinhas, que vez ou outra recebem um olhar perdido de um dos torcedores. Organizadas, fica fácil perceber que elas estão divididas em setores. Na rua da esquerda ficam as iguarias bolivianas: temperos, chás, grãos, bebidas quentes feitas do milho. Do outro lado está a seção de artesanato: bolsas, brincos, roupas, sapatos, instrumentos musicais. É aà também que o vendedor de CDs se encontra. Ele traz direto da BolÃvia os mais recentes sucessos para quem está longe da pátria. Por último, posicionadas estrategicamente, estão as barracas de comidas quentes, de onde as panelas fumegantes perguntam se tem gente com fome. Os mais prevenidos seguram suas saltenhas nas mãos e não perdem nenhum lance do jogo.
Os bonecos do pebolim estão parados na mesa de madeira. A disputa de melhor de cinco custa 1,50 real, mas a maior concorrência que o futebol encontra é a fila da associação, que ajuda os migrantes recém-chegados a encontrar trabalho e informação.
Com a música tÃpica que rola solta nas caixas de som, o cenário está completo. Mas é o ar inconfudivelmente paulistano que faz a maioria dos migrantes se lembrar do que eles vieram fazer aqui. Quando o futebol termina, o clima festivo é rapidamente substituÃdo. A Kantuta se transforma em uma feira de trabalho. Em folhas de caderno são feitas placas, à caneta bic, que anunciam vagas em oficinas de costura: "Se necesita rectistas, se paga el 50%". Do outro lado os mais empenhados mostram roupas prontas, exibem seu portfólio. Para aqueles que conseguem emprego, está claro que a habilidade com costura não é um dom dos bolivianos, e sim trabalho árduo, cansativo. Em conversa, é possÃvel perceber que esses migrantes se consideram trabalhadores dedicados, mesmo que, para vários deles, o trabalho com a costura, muitas vezes feito em péssimas condições, seja a oportunidade de conseguir apenas juntar o dinheiro para depois voltar pra casa.
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