De longe, do outro lado da calçada, Geremias Mendes Lopes, de 50 anos, observa a grande fila que já deu quase a volta toda no melhor colégio estadual de Cuiabá, o tradicional Liceu Cuiabano. Seo Geremias é vendedor de picolés há 14 anos e desde o primeiro ano de trabalho aparece – ano após ano mesmo – para a frente da unidade de ensino ver a fila se formar e vender, em uma semana, bem mais picolés que no mês inteiro.
Mas as boas vendas não são culpa do sol cuiabano. São 730 vagas para o 1º, 2 º e 3 º ano do ensino médio e embora tenha vaga para todo mundo nos três colégios que ficam na região central da cidade (os outros são Presidente Médici e Nilo Póvoas), os pais preferem ficar ali, esperando na fila para colocar o filho na melhor escola. Ano passado uma grande confusão foi formada entre "os que estavam há cinco dias na fila" contra "os que chegaram no dia que começou as matrÃculas". Aà começou a confusão, pancadaria. Neste ano, as inscrições começaram hoje e a tensão apareceu junto com o sol do novo dia. Um grupo de cinco pessoas se tornaram voluntários e chegaram aqui ainda na sexta-feira à s 20h.
Com elas eram as primeiras que estavam na porta do colégio, foram selecionadas pela direção do colégio a organizar a fila, distribuindo senhas e nomes na lista, e entregar para a direção do colégio, que faria desta lista um documento oficial de chegada. O grupo de voluntários se chamavam "Conselho de Pais". A primeira da fila, que se tornou voluntária, a dona de casa Lucineide Pedroso, se envolveu tanto que mesmo depois de conseguir matricular o filho Éderson, 14, ainda sim continuou trabalhando. “Estamos aqui para assegurar que a fila ande bem, já entregamos 450 senhas (no total são 630) e já estamos no numero 301, só vamos sair daqui no finalâ€, conta Lucineide.
Além de organizar a fila, as voluntárias também foram atrás de informações sobre a parte burocrática da matrÃcula, dos documentos, das vagas e tudo relacionado ao processo de inscrição do colégio, para poder informar. “Tem gente que chega aqui perguntando como matricular, que documentos entregar, que séries estão disponÃveis, também sobre o uniforme escolar e a gente vai informando, qualquer duvida a gente corre lá na diretoria e perguntaâ€, conclui Lucineide. Assim, a fila andou.
A coordenadoria de Gestão Escolar da Seduc - Secretaria de Educação do Estado, já orientou os pais e responsáveis a procurem as unidades próximas ao Liceu, no centro da cidade ou nos bairros onde moram. Contudo, a procura e a grande fila sempre aconteceu. “É o melhor colégio com ensino médio do estadoâ€, explica a fotógrafa Paula Souza, que veio matricular o filho Matheus, de 15 anos. “É engraçado, em 1992 minha mãe ficou dois dias aqui na fila para poder me matricular e hoje estou desde segunda-feira meio dia aqui na filaâ€, lembra. A entrevista foi hoje, ao meio-dia.
Mesmo com um constrangimento anual, que é a formação da fila de matrÃcula que sempre começa cinco dias antes, o colégio Liceu não se responsabiliza em promover uma estrutura para atender esta demanda que surge. Não existe banheiro, nem água para beber. Não é permitido entrar na colégio, só na hora da matrÃcula, e o único jeito é pagar R$1 no posto ao lado para fazer alguma coisa no banheiro. Esta situação sempre causa um desgaste para a imagem do colégio, é pauta recorrente na época de matrÃcula e o governo também não se preocupa, acaba deixando o seo Geremias, o vendedor de picolés, pra refrescar a galera que ficou na fila tantos dias. Ele é o único que se dá bem na história.
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