A Poética do Abandono é um registro visual da pesquisa do antropólogo Marcos Veríssimo "A Etnografia do Abandono" que retrata aspectos humanos, sócio-econômicos e ambientais da Ilha de Itaoca em São Gonçalo, RJ.
Exposição fotográfica itinerante, iniciou no SESC São Gonçalo em 2006. É um trabalho em progresso.
A Poética do Abandono
Marcos Veríssimo
“Tudo é graça o que dela se pode dizer”. Tais palavras, conta a história, teriam sido ditas por Tomé de Souza, português de família nobre e consolidada na Lisboa do Século XVI, que à época respirava ares de cidade cosmopolitas. No entanto, nada disso o impediu de atender ao Rei de Portugal e embrenhar-se em uma terra distante, estranha, e da qual se diziam coisas horríveis e assustadoras, tais como seres sobrenaturais e nativos antropofágicos. Chegou àquela terra ainda recém descoberta em 1549, já como governador-geral da Capitania da Bahia e de todas as outras, trazendo consigo os primeiros missionários da então recentemente fundada Companhia de Jesus e um Regimento que centralizava boa parte do poder em suas mãos.
Essas palavras, ditas nos idos de 1553, se referem àquela que, por sua vez, viria depois ser chamada de Bahia da Guanabara, numa das constantes visitas do militar pelas várias capitanias de então.
Já o etnógrafo belga Claude Levi-Strauss, quatro séculos mais tarde e tendo como referência adicional o panorama aéreo da Guanabara, parece discordar totalmente de Tomé de Souza, dizendo que a Baía da Guanabara se assemelharia a uma grande boca banguela. Cantada em verso e prosa, parte da entropia tropical do Rio de Janeiro, pode ser bela, pode ser feia, pode ser rica, pode ser pobre – enfim, pode reunir em sua extensão a iluminada abundância e a graça do Pão de Açúcar frente à Enseada de Botafogo com a escassez escura e desdentada de suas zonas malditas.
Com o intuito de oferecer uma contribuição para a multiplicidade dos olhares possíveis para este contexto há tempos presente na história e nas artes, esse ensaio fotográfico procura colocar em foco uma entre as várias realidades observáveis da baía, onde podemos encontrar o entrelaçamento do belo com o feio, da graça e do lixo, onde algo que podemos nomear como um sentimento de abandono encontra alguma materialidade nas pessoas e nas coisas, na cultura e na natureza. Fazendo dessa maneira, nosso pensamento vai muito além da idéia de exclusão, para mostrar que estamos todos incluídos, senão de maneira visceral, ao menos de maneira periférica, numa geografia excludente onde os grandes centros de consumo enviam para o seu entorno o refugo daquilo que consomem – transformando, destruindo, para construir novos visuais sobre antigas paisagens.
Pertencente ao município de São Gonçalo, zona metropolitana do Rio de Janeiro, a Ilha de Itaoca (em tupi, “casa de pedra”) se estende em aproximadamente sete quilômetros ao longo da borda leste da Baía da Guanabara. Itaoca é separada do bairro gonçalense de Fazenda dos Mineiros pelo Canal Imboassú (em tupi, “cobra grande”) que serpenteia o manguezal ali existente. Precisamente localizada na periferia da periferia da chamada sociedade de consumo, seu território abriga ainda áreas de proteção ambiental, sítios arqueológicos e a Capela de Nossa Senhora da Luz.
Esta ultima, inclusive, figura entre os bens patrimoniais do Município e é parte integrante desta exposição. Foi construída pelo português Francisco Dias da Luz no Século XVII, em estilo barroco jesuítico e é contemporânea à Igreja Matriz de São Gonçalo. O processo de tombamento do bem junto ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) foi arquivado na década de oitenta do século passado. A capela possui frontão triangular, uma varanda com telhado alpendrado e colunas da ordem dória. As grossas portas datam do início do século XVIII – uma delas era banhada em ouro. Esta se encontra no interior da capela, na nave, próxima ao altar, onde um suporte a mantém de pé. Podemos ver ainda os vestígios dourados entre os relevos de seu refinado entalhe, a despeito da dilapidação que sofreu ao longo dos séculos. A escritora e pintora inglesa Maria Grahan, que esteve em São Gonçalo em março de 1822, pintou um quadro dessa verdadeira relíquia gonçalense que se encontra hoje em exibição no Museu Britânico.
Uma única linha de ônibus regular faz a ligação da Ilha com o bairro niteroiense do Barreto, passando pelo centro de São Gonçalo – e pára de circular por volta das 23:30 (quando não antes disso), deixando ainda mais isolado o local. Nos dias de chuva um pouco mais forte, carros de pequeno porte ficam praticamente impossibilitados de passar na (única) estrada de chão que corta o mangue para levar à (degradada) Ponte do Rodízio, pela qual se entra em Itaoca. À noite, quando uma pesada escuridão se faz presente, os cerca de oito mil habitantes de Itaoca, em casos de emergência, encontram sérias dificuldades de condução para chegar ao pronto socorro da cidade.
O abandono da Ilha de Itaoca é social, político, ambiental, além de ser também um abandono em relação ao seu próprio passado – quando o lixo ainda não impregnava a paisagem, o pescado era muito mais abundante, e a vida social era consideravelmente mais intensa. Boa parte das pessoas que lá vivem ainda tentam obter o seu sustento da pesca de várias espécies de peixes, siri, camarão ou catando caranguejo no que resta do manguezal cada vez mais mal tratado pela poluição. Para se ter uma idéia, o missionário francês Jean de Lery – que esteve com Villegagnon na Guanabara por ocasião da França Antártica fundada no primeiro século de povoamento europeu da costa brasileira – achava que os peixes eram infinitos.
No povoado da Praia da Luz, durante a década de 1960, havia cabarés, hotéis, e um intenso ir e vir de pessoas de todos os tipos, atraídos por um isolamento ainda idílico, quase rural, e pelo contato com uma exuberante natureza que se exibia na época. Eram hyppies, foragidos da perseguição política e até personalidades mais ou menos famosas, a exemplo da ex-vedete do teatro de revista Luz Del Fuego, que morava na próxima Ilha do Sol, onde praticava o nudismo junto a convidados ricos, educados e influentes. Hoje, na Praia da Luz, os quiosques se destacam na paisagem poeirenta, e o único hotel que restou ainda é o refúgio para casais que vêm de fora, motivados justamente por um isolamento que não é mais idílico e pelo preço baixo do período (R$ 10,00) para seus encontros amorosos às escondidas.
Porém, retratar o abandono na Ilha de Itaoca não é apenas mostrar casas abandonadas e o que restou de velhas embarcações de pesca encalhadas na areia suja da Praia da Luz. Nos domingos e feriados de sol, as praias da ilha são invadidas por levas de banhistas que barbarizam nos ônibus atulhados. É também estar aberto à contemplação de uma generosa paisagem natural que se estende desde o compacto verde do que restou de sua vegetação até os contornos mais distantes de seus horizontes (que se mostram relativamente próximos). Como se pode ver, debaixo do sol a pino de um dos dias mais quentes do ano, não há simplesmente desolação, sujeira e descaso. Ao longe, e através da névoa da umidade do ar, podemos avistar a Serra dos Órgãos e o Dedo de Deus, um cenário que o viajante francês Auguste de Saint-Hilaire, ainda no século XIX, comparou a um imenso anfiteatro de “montanhas vaporosas”. Mais próximo avistamos a Ilha de Paquetá. Podemos reparar também a já citada Capela, muito bem cuidada e na contramão do sentimento de abandono.
Retratar o abandono com todas estas considerações em mente há de ser, sim, uma poética, não só por colocar à frente de nossos olhos a beleza que emerge de uma natureza que insiste em sobreviver a todos os maus tratos sofridos ao longo de anos. Nem o será, tão pouco, por ressaltar as retas e frestas da mais bela arquitetura dos mundos perdidos. Enfim, a poética do abandono é um poética no sentido aristotélico dado ao termo grego “poiesis”, que designa o conhecimento produtivo. Retratar o abandono é valorizá-lo em sua condição de pano de fundo sobre o qual aparecerá a criação e recriação do próprio mundo por parte dessas pessoas, não apenas abandonadas à própria sorte, mas antes de tudo refinadas em suas explicações e estratégias para articular um domínio da situação adversa brevemente descrita acima. Nem que o domínio almejado venha ser apenas um domínio sobre a própria condição de dominado.
Em suma, o que se pretende aqui é a construção de um ponto de vista que nos permita enriquecer o debate que se trava em torno do lugar e do papel da Ilha de Itaoca na geografia, na cultura e na história, sem esquecer de sua relação com o complexo sistema da Guanabara. Além disso, devemos também, a partir dos diferentes discursos que surgirão em torno dessas imagens, trabalhar em torno da conceitualização sociológica do termo abandono, afastando-o, obviamente, de sua conotação literária, ligado ao romantismo e a uma certa nostalgia herdada de nossas raízes lusitanas.
O lingüista suíço Ferdinand de Saussure afirmou que “é o ponto de vista que cria o objeto”. Ao concordarmos com tal colocação, acreditamos poder ser a poética do abandono um ponto de vista para a criação de um interessante objeto para qualquer ciência que venha se ocupar com a relação dos homens entre si e com o mundo que lhes é dado viver.
Marcos Veríssimo está de parabéns pela iniciativa e você também, por trazer esse texto divulgando o trabalho no Overmundo. As fotografias, mais que um trabalho artístico (considero assim porque a imagem também fala) é um trabalho social e de atenção ao descaso ambiental, e foi isso que me atraiu para ler. Infelizmente, existem outros abandonos assim, principalmente, no meu Estado. Mais uma vez, parabéns aos dois. Um abraço e voltarei para votação!
JACK CORREIA · Crato, CE 16/5/2008 16:21
Natália Amorim · Belém (PA)
A Poética do Abandono - Antropologia e Fotografia
Um Trabalho Fenomenal
· Um Belo Estudo pra todos nós nos orgulharmos.
E, ser modelo para serem feitos por toda nossa Nação.
Muita Maestrie e tem todo merecimento.
Gostei Muito
Parabéns
Os retratos estão assim "DEMAIS!!!!!!!!!!!!!!!!....", diria a luiza minha filha de 8 anos. De saída pro parque, fico no retrato, depois volto.
abraço
andre.
Olá Azuir, André, e Jack,
Grata pelos comentários. Falar, escrever e fotografar Itaoca é uma paixão, uma fissura. Comecei a visitar a Ilha a convite do Marcos, que estava no início da pesquisa. Ele levou-me para ver as primeiras casas de pescadores abandonadas. Fomos lá e fotografamos com uma máquina caseira, analógica. Anos se passaram e mais algumas visitas e novas fotografias, mais muito assunto sobre Itaoca e o abandono. Fomos tecendo a idéia.
Dessa vez, já com umamáquina melhor, uma digital Kodak, 2.0, disparei. Muita gente gostou do resultado, então resolvemos montar uma exposição, que teria tb debate, palestra. Montamos no SESC São Gonçalo, na medida das possibilidades, dada a máquina ser caseira. Divulgamos em Itaoca. Enfim, festa.
É sempre um orgulho, uma paixão, para mim fotografar e ir em Itaoca. Pensar nos desdobramentos da Poética, que é um workprogress, e se estende como a Jack falou a muitos lugares. Não tem demarcação geográfica. RJ, Belém, PA, por aí vai...
Abs.
Natália,
Belíssimo (e rico) texto. Vou reler tudo (com calma).
Parabéns!
Deixo os meus votos...
bjs,
Belo trabalho!
Adorei!
bjs,
Carla
Vota aí no lado B da Baía. É bonzaum e nós se diverte!
Abs!
E voltamos a falar dos abismos...
culturais, ambientais, sociais...
e mais vezes, quantas se fizer necessária,
até o dia em que o abandono
seja apenas em tom poético...
Parabéns
É. É esse misto de extasiamento e indignação. Ao mesmo tempo uma puta, e imensa beleza a céu aberto. A pesca escarceando. Muito lixo no mangue. E a natureza persistindo, resistindo, persistindo e resistindo.
Vamos com a natureza, que é sábia. Autofágica, autofálica, autopoética, e apoteótica.
Resiste até quando???
Vejo um mundaréu de água na Amazônia, lembro da Baía de Guanabara. Lembro do córrego que passa perto de casa. Do canal. Dos braços de rio da cidade de Belém, hoje córregos, com lixo, xurume. Esgoto. E a natureza, persistindo, resistindo...
Itaoca, a Baía, os rios...
A Poética do Abandono - Antropologia e Fotografia
Natália Amorim · Belém (PA) ·
Estou aqui com todo carinho e humildade para votar e atestar com convicção, a beleza e utilidade deste Trabalho Para todos nós Brasileiros e amantes da Culturana sua plenitide.
Parabéns pelo Trabalho de Qualidade.
Abração
Natalia,
voce está de parabéns pela feitura da resenha e pela oportunidade da postagem. Fiz um passeio pela Baía, pelo Rio, .... e pelos informações da história.
legal.
abraço
andre.
Pois é. Por isso e por tanto. Pelo Lado B da Baía, visto de Itaoca. Linda. Eu, misto de Marajoara com belenense, virei de coração uma São Gonçalense. E, I Love Claudinho e Buchecha. Aí de quem falar mal hein? É ruin!
Natália Amorim · Belém, PA 18/5/2008 21:56
Pra quem não conhece SG, alternativas da noitada: SESC SG tem Groove do São, o melhor da música, tem de tudo, pra todos os gostos. Drun´Bass, Samba, Chorinho, Rock´n Rool, Bregão, Hip-Hop por aí vai. Noite na Taverna, Poesis misturado Tudo, Romulo Narducci, e Rodrigo comandam. Movimento em Foco, fotografia da boa, e por aí vai...Bar do Blues, mais um monte de bibocas e espaços de qualidade, com "artistas mais ou menos famosos", como diz o Marcos.
Passa lá.
Natália, parabéns de novo.
São Gonçalo é muito idêntica à Baixada... Riqueza, caldeirão, caos, ternura, crueza, abandono, pulsação...
Especificamente sobre Itaoca, trabalhei no ano passado numa oficina de cinema ambiental na Ilha da Conceição, em NIterói, e os 3 filmes produzidos têm muito a ver com esse clima que vc descreveu. Um cruel exemplo de como a degradação ambiental afeta a dinâmica dos lugares, principalmente onde outrora havia abundância de pescado.
(A propósito, já são 8 anos do mega acidente de derramamento de óleo na Baía que não deu em nada...)
'té+
Natália,
Belo e importate trabalho. De vez em quando passo pela orla de São Gonçalo e vejo aquela desolação toda, mar abandonado, poluição mortal, principalmente as áreas onde, imagino, haviam manguezais.
Não vi a exposição mas, imagino que ass fotos sejam meio flor no lodo, alento para a degradação ambiental.
Abs
Olá meus caros e caras. Aqui fala o autor do texto do ensaio. Em primeiro lugar, muito obrigado pelas generosas palavras. Foi realmente um trabalho muito estimulante e fecundo. Melhor ainda é ver que as pessoas estabelecem paralelos entre a realidade específica da Ilha de Itaoca e outros lugares pelo Brasil. e o fazem através da idéia de Abandono. No momento trabalho no projeto de transformar a noção de abandono em uma categoroa sociológica que possa ou não dar conta de outras realidades, uma vez que toda ciência busca o universalizável, digamos assim. Nesse ponto, suas claborações são de uma enorme importância. Quando eu e Natália concebemos o projeto, pensamos em debates que acabaram não havendo (por motivos políticos, mas da política no mal sentido, enfim...). Bom que isso esteja ocorrendo agora, através desse espaço. Um abraço a todos e prossigamos então!
Natália, abração e parabéns.
passaram-se anos e eu fico aquí em Belém, longe da Baía de Guanabara e de Itaoca, ligada a idéia do Abandono e dá Poética. Como os cenários se misturam, e se confundem. Itaoca, Marajó, Karatateua. Com uma recente experiência como educadora de Museu, e a idéia de Museu a céu aberto, Eco-Museu. Penso nas enormes possibilidades de lugares que estão refém de uma política que não os subsidia. Tenho amadurecido idéias lentamente, junto a minha prática. Logo escrevo algo sobre. Itaoca, o abandono é um trabalho que teve início e nunca terá fim.
O Marcos, em Itaoca, eu aquí em Belém, e no Pará, é uma idéia que transmuta espaços.
Como trata-se de uma exposição itinerante, logo montaremos em algum lugar do Rio. Nas minhas férias provavelmente.
A todos que comentaram, minha estima de afeto e de carinho pelo estímulo e pelas palavras, que sei são verdadeiras.
Grande Abraço.
Incrível experiência visual!
Parabéns Natália
a gente sempre se depara com dicotomias... com realidades que não se bicam...
FILIPE MAMEDE · Natal, RN 18/7/2008 21:50Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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