AGOSTO LITERÁRIO (A propósito do Dia do Escritor)

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Daniel Munduruku · Lorena, SP
2/8/2010 · 1 · 0
 

AGOSTO LITERÁRIO
(A propósito do Dia do Escritor)

Recentemente comemoramos o dia do escritor (25 de julho). Seria apenas mais uma data em nosso calendário já repleto de datas comemorativas. O que a diferencia das demais é o fato de comemorar o profissional das letras, a pessoa que dedica sua vida para a informação, formação e lazer dos leitores de todas as idades.
Escrever é uma técnica. As pessoas sempre me perguntam o motivo de escrever. Nunca soube responder de modo definitivo até porque esta resposta não existe verdadeiramente. E por isso também o escritor se pergunta o motivo pelo qual escreve. Esta pergunta me levou a imaginar o caminho que me fez tornar-me escritor (condição que só aceitei recentemente, diga-se).
Talvez o fato de ter nascido num lugar aonde os livros não chegavam (ou chegavam com um atraso espantoso) tenha me dado a possibilidade de viver histórias inventadas por mim, mas contadas pelos sábios e pela própria natureza que me circundava. Isso. Vivi histórias inventadas. Elas eram sonhadas, criadas, tecidas, torcidas e retorcidas por uma imaginação que não foi tolhida pela leitura de livros clássicos. Estas histórias não tinham sossego dentro de mim e eu as deixava fluir imaginando mil e uma aventuras porque passava um curumim vivendo as agruras de uma vida simples.
Vivi uma infância plena. Assim me ensinavam meus avós. É preciso viver como criança, diziam. É preciso ser só criança, diziam. Depois você viverá só como jovem, diziam. E mais tarde viverá como homem adulto e velho, diziam. Foi assim que aprendi viver cada fase da vida em toda sua plenitude. Ser criança era só o que eu podia ser. Tinha que brincar, correr, nadar, andar no mato, subir na árvore, caçar passarinho com estilingue. E entre uma atividade e outra ia imaginando histórias, construindo personagens, inventando enredos, enfrentando seres fantásticos da água e da terra.
Só depois entendi que isso fazia parte da formação humana de minha gente. Só se é criança uma vez na vida. O vivido nesta fase será levado para as seguintes. A criança é um ser humano completo quando ela vive seu ser criança sem preocupação de querer algo mais. Ela não pode ser tratada como um adulto, pois isso a fará deslocar vivências fundamentais para sua formação. Isso eu aprendi.
Anos mais tarde – já no mundo acadêmico – é que fui percebendo a sabedoria que foi tatuada em mim pelas palavras mágicas que os velhos diziam através das histórias que contavam de forma gradual dando ênfase a cada fase de minha vida. E foi um estranho chamado que ouvi que me fez virar contador de histórias para crianças. Afinal, os velhos sempre afirmavam que quem ouve histórias precisa contá-las depois. Achei que deveria ser contador de histórias e o fui por alguns períodos. No começo, de forma oral. Tinha aprendido assim. Depois descobri a escrita e os livros. Foram estes dois instrumentos que me disseram que eu poderia não apenas contar oralmente, mas poderia também escrevê-las fazendo-as chegar a lugares distantes as palavras.
No início não foi nada fácil. Descobri que escrever não é igual falar. A fala nos permite ir muito além da palavra escrita, sobretudo no que diz respeito ao gestual teatral utilizado pelo contador de história. Por outro lado, escrever permite fazer uma viagem fantástica pelos meandros da narrativa oferecendo ao leitor a possibilidade de entrar no âmago do que é narrado. Achei melhor tentar juntar as duas coisas numa só. Comecei a escrever do jeito que falava procurando apresentar o modo como nosso povo narra. Parece que deu certo. Assim me tornei escritor. Não. Na verdade não me tornei escritor, apenas escrevia assim. Para que alguém se torne escritor não basta escrever. É preciso que também se aceite assim. É uma contradição, um paradoxo. Mas é a mais pura verdade.
Há quem escreva muito, mas não seja escritor. Publicitários, jornalistas, advogados, professores são exemplos de pessoas que escrevem o tempo todo. Eles não são escritores. São profissionais cuja matéria prima é a escrita. A maioria deles, no entanto, não faz da escrita sua matéria prima. Quem escreve tem que inventar a escrita todos os dias. Todos os dias têm que dar forma ao pensamento. Tem que deixar a mente trabalhar para dar concretude aos pensamentos. Tem que deixar a realidade concreta virar pensamento. Em essência, quem escreve é um “desenhador” de pensamentos ou um pedreiro das ideias. Um coloca para fora os pensamentos através da escrita; outro faz o alicerce para que as ideias ganhem forma. No final das contas, quem ganha mesmo é o leitor.
Parabéns a quem escreve com palavras e sonhos.

PARA NÃO ESQUECER
Este mês será bem rico em atividades literárias.
Entre 04 e 08 acontece a Feira Literária Internacional de Paraty (FLIP). Muitos convidados nacionais e internacionais se farão presentes ao evento.
Entre 12 e 22 será a vez da Bienal Internacional do Livro de São Paulo. No dia 14 estarei visitando esta bienal em companhia de minha esposa Tania e meus três filhos que são aficcionados por leitura. Neste mesmo dia estarei fazendo um bate papo com meus leitores no estande da Editora FTD.
No dia 21 será comemorado o primeiro aniversário da Academia de Letras de Lorena da qual faço parte com orgulho. Rica programação está sendo preparada para comemorar a efeméride.

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