Ah! A arte dos brasileiros.

1
Dani Raspante · Contagem, MG
24/10/2010 · 1 · 1
 

Ah! Quando eu crescer quero ser musicista. Era isso o que eu dizia para mim mesma, quando tinha mais ou menos uns oito anos, enquanto segurava uma escova que, não raro, eu fazia de microfone. Bom, era mais ou menos isso, porque, na época, eu mal sabia o feminino de músico. O que me deixa feliz é que tem gente com mais de 30 que ainda não sabe. E eu me limitava a me imaginar cantando por ai. Fato é que eu sempre soube dessa minha veia artística e tinha a certeza de que, um dia, eu entraria para o mundo das artes.

Se passaram mais ou menos 14 anos e, de fato, me tornei uma artista. Não pensei que fosse ser tão rápido, mas aconteceu. Infelizmente ainda não canto profissionalmente, mas sigo a mesma melodia de milhões de brasileiros: o ritmo do ônibus lotado. Quero ver se alguém tem coragem de discordar.

Brasileiro trabalha o dia todo (nessa se excluem políticos e funcionários públicos). Esses trabalhadores saem do serviço cansados e seguem para o ponto de ônibus mais próximo. E é ai que tudo começa.

São mais ou menos seis da tarde e a figura bate o cartão. Ou simplesmente sai. Mas enfim, todos (exceto os que financiaram o carro popular em umas 70 e tantas vezes) seguem para o ponto de ônibus. E geralmente ficam lá esperando por bastante tempo. Eis que surge o ônibus. A figura se empolga, abre um “sorrisão†e mete a cara na porta. O ônibus esta lotado. Tipo lata de sardinha.

Mais um tempo de espera (que pode ser de 15min a 1 hora). Vem outro ônibus. Mais um sorriso e a porta se abre. Nessa, a pessoa já está estressada e se enfia de qualquer jeito. O contorcionismo, a partir desse momento já é modalidade básica.

O ônibus arranca e entra uma nova modalidade. Equilibrismo. Como parar em pé sem ter um lugar para apoiar é um exercício que o assalariado aprende nos primeiros dias. Nesse caso, a solução é se deixar levar pela multidão. O negócio é se escorar em qualquer um e seguir viagem. O bom é que ninguém cai. Se bem que se um cair, vai todo mundo junto.

Mais ou menos na metade do caminho uma velhinha decide descer. E quem esta em pé na porta da frente pratica mais uma modalidade: desvio de obstáculos. Funciona quase como um balé. O passageiro rodopia de um lado para o outro para deixar aquela “simpática†(ironia? imagina) idosa passar. E vamos respeitar o direito dos idosos de empurrar o que estiver na reta.

Finalmente, a figura chega até a roleta e passa para o lado de trás. Nesse momento não há mais nada para se fazer. Os primeiros “metros†de percurso (+/- 1 até chegar à roleta) já gastaram o resto de energia que qualquer ser que trabalhou o dia todo teria para conseguir chegar em casa feliz. Ele vai até o mais fundo que consegue ir e fica ali, como uma sardinha na lata.

O ônibus para em mais um ponto e o motorista grita: “chega mais pra trás ai que tem espaçoâ€. Nesse momento a figura coloca seus dotes artísticos a prova e se arrisca a cantarolar, mesmo que mentalmente. O negócio é fingir que não está ouvindo nada. E quando aquele passageiro que está sentado ou muito feliz grita “arreda ai galeraâ€??? A cantoria mental ultrapassa os 100 decibéis e a pessoa fica momentaneamente surda.

Enfim, chega a hora de descer. O ponto está se aproximando e a figura nem abre mais um sorrisinho. Se limita a descer e respirar aliviado o ar puro (com gases tóxicos, mas menos tóxicos do que os que estavam no ônibus, com certeza). Aí, para finalizar, cai aquela chuva e vem a última modalidade do dia: nado sincronizado nas ruas inundadas pela água das chuvas.

Eu passo por isso todos os dias com o 5201, aqui em Belo Horizonte. Alguém discorda que eu me tornei uma verdadeira artista? Não, né? Obrigada.

compartilhe

comentários feed

+ comentar
ayruman
 

Dura realidade num País onde uma minoria "deita e rola" e vivem do bom e do melhor. Lá fora o cotidiano das cidades pra eles nada significam...
Saúde. Luz e Paz. jbconrado

ayruman · Cuiabá, MT 25/10/2010 01:31
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados