Antropofagia e integração na América Latina

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Stéfano Fonseca · Pelotas, RS
15/1/2013 · 6 · 0
 

“Só a ANTROPOFAGIA nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente”. São com essas palavras que Oswald de Andrade inicia seu Manifesto Antropófago e inaugura uma nova maneira de conceber a cultura brasileira. A antropofagia era uma prática comum entre alguns grupos indígenas no Brasil, mas não estava vinculado unicamente ao sentido literal do termo, o canibalismo, é essencialmente a absorção das qualidades daquele que é devorado, uma forma de integrar suas virtudes à química do antropófago. Oswald, portanto, defende uma cultura que absorva as influências externas e, adaptando-a a realidade local, signifique-a produzindo algo totalmente novo, brasileiro.
Diferente de seu primeiro manifesto, da Poesia Pau-Brasil, o manifesto antropófago apresenta um lado mais político e crítico, não focando em questões puramente estéticas como no caso do primeiro. Ao retomar o conceito do ritual antropófago do indígenas do país Oswald defende a deglutição da cultura externa, principalmente européia e estadunidense, e também da cultura interna, ameríndia e dos afrodescendentes, formando um “caldo” que componha um ethos próprio, opondo-se ao costume das elites da época de importar e copiar a cultura dos países europeus.
Lançado em 1928 pela Revista de Antropofagia, fundada por Oswald, Raul Bopp e Antônio de Alcântara Machado, o manifesto representou uma grande transformação no modernismo brasileiro tanto pelas ideias que defendia quanto pelas polêmicas que levantou. Muitos outros movimentos foram influenciados por ele, desde o Concretismo dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos, passando pelo Tropicalismo e o Movimento Mangue Beat, já nos anos 1990. Se considerarmos que a proposta antropofágica de Oswald consistia em unir, mesclar e ressignificar diferentes formas de cultura, podemos dizer que esses movimentos posteriores são consequência direta de suas ideias. Da mesma forma, a pintura de Tarsila do Amaral que influenciou e foi influenciada pelo manifesto, tendo o quado “O Abaporu” como ponto de partida. Cinema, música, televisão, teatro e dança, é difícil encontrar um setor cultural que não tenha sido afetado pela antropofagia oswaldiana e que não tenha, posteriormente, agregado valores, ideias e símbolos para ela. As ideias de Oswald de Andrade se mostrar extremamente atuais, principalmente com a globalização e o fortalecimento da cultura digital.
O século XX presenciou grandes movimentos que revolucionaram a maneira de se pensar a cultura no Brasil. Do modernismo, passando pelo tropicalismo e o Mangue Beat, a valoração da diversidade e da criatividade brasileira presente nos mais improváveis meios transformou aquilo que era ignorado em arte, em vida, em cultura. Foi partindo das ideias modernistas que Gilberto Gil e Caetano Veloso revolucionaram a cultura pop soterrando a dicotomia entre a música jovem, produzida no exterior, e música brasileira, afinal, a música brasileira pode ser jovem. Por que não? Décadas mais tarde, nos anos 90, o Mangue Beat, de Chico Science e Fred Zero Quatro, trouxe para o debate a riqueza cultural escondida na pobreza das periferias recifenses, relacionando-a a riqueza da biodiversidade dos mangues da capital pernambucana, a Manguetown.
No atual mundo globalizado as identidades locais parecem diluir-se na “aldeia global” fortalecida pela cultura de massas e seus enlatados culturais, entretanto, percebe-se uma reafirmação da cultura local, para aquilo que nos diferencia dos outros, mas sem ignorar a cultura-mundo. Nesse sentido, a diversidade da cultura brasileira aliada à diversidade mundial é terreno fértil para gerar novas formas de manifestação cultural, científica e tecnológica. E também por esse caminho, uma integração latino-americana voltada para a diversidade e fortalecimento da região, tão complexa, mas cheia de possibilidades e pontos em comum.
É partindo desse caldeirão de ideias que o Brasil e também a América Latina, podem encontrar um caminho próprio de desenvolvimento e fortalecimento da cultura regional no mundo. A força de nossa música, nossa literatura, cinema, artes plásticas, propaganda e etc., são reconhecidas mundialmente e sem valorizar nossa singularidade estaremos condenados a repetir aquilo que é dito e feito por outros povos. “Só não há determinismo onde há mistério”, nos alertava Oswald. Para isso é indispensável que os latino-americanos conheçam a si próprios, que a integração, mais do que econômica ou política, seja cultural. Precisamos ouvir o que pensam argentinos, uruguaios, venezuelanos, paraguaios, brasileiros, bolivianos, colombianos e todos os povos latinos para fomentar uma cultura plural, regional e ao mesmo tempo universal.
Se a antropofagia dos índios brasileiros chocou o europeu do século XVI sendo vista como ato bárbaro e imoral, nesse século XXI nos é dada a chance de chocar o mundo todo (no sentido positivo do termo) retomando o conceito de antropofagia para demonstrar a força da cultura latino-americana e gerar desenvolvimento social, econômico e científico. Para isso é preciso fortalecer as políticas públicas de fomento à cultura, criando condições para o florescimento e distribuição da produção artística local, além de investir maciçamente em educação. Se só a antropofagia nos une, nada melhor do que construir a integração latino americana através da perspectiva aglutinadora do antropófago.

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